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Sem marcas de gestão, Covas tenta se vender como um 'resolvedor de problemas'

Sem marcas de gestão, Covas tenta se vender como um 'resolvedor de problemas'

Por Folha de S.Paulo

26/10/2020 às 08:51

Atualizado em 26/10/2020 às 08:51

Foto: Nilton Fukuda/Estadão

Bruno Covas

Candidato à reeleição em São Paulo, o prefeito Bruno Covas (PSDB) tem se vendido nesta campanha como uma espécie de resolvedor de problemas, alguém que enfrentou graves crises em seu mandato, ocasiões em que ele foi pessoalmente ver e lidar com as tragédias.

Fora das inserções da TV, no entanto, ele se aproxima do fim de seu mandato sem uma ou mais marcas para apresentar à população, além de não ter cumprido a maior parte de suas metas.

A propaganda de realizador quer apagar a imagem de "baladeiro", que o prefeito deixou principalmente no começo de sua gestão, quando passou mais de 40 dias viajando.

Uma das propagandas, por exemplo, começa exaltando sua presença nas grandes crises que abateram a cidade, como as quedas de um prédio, no largo do Paissandu, e de um viaduto, na marginal Pinheiros.

A campanha de Covas quer explorar o fato de que o prefeito foi alvo de graves adversidades em pouco tempo de mandato, de greve dos caminhoneiros a pandemia de Covid-19, passando ainda pelo atual tratamento de um câncer.

"Quando caiu um prédio no centro, eu fui lá para ajudar as pessoas, trabalhar para não deixar ninguém sem abrigo. Quando teve incêndio numa favela, eu estava presente para garantir assistência para todo mundo. Quando o viaduto caiu lá na marginal Pinheiros, eu mandei arrumar, fiscalizei de perto e conseguimos reabrir em tempo recorde", diz a campanha do tucano.

"Durante a greve dos caminhoneiros, fui na refinaria buscar o diesel para não deixar o transporte público parado. Quando veio a pandemia, eu me mudei para a prefeitura porque era importante dar o exemplo. Esse é o meu jeito de governar", completa a propaganda de Covas.

Apesar dessa tentativa de se colocar como um resolvedor de problemas, o último balanço divulgado pela gestão mostra que Covas pode deixar a prefeitura sem cumprir uma série de promessas.

A pouco mais de dois meses do fim do mandato, ele tem apenas 33 das 71 metas batidas, 46% do total.

Entre as metas que não foram cumpridas estão a entrega de 12 CEUs (Centros Educacionais Unificados), baixar para 30 dias de espera dos exames prioritários e implantar 10 novos parques, entre outras.

Na lista de objetivos cumpridos, por outro lado, estão recapear 3.600.000 m² de vias públicas, recuperar 120 praças e reformar ou reequipar 1.150 unidades escolares.

A prefeitura afirma que as demais metas estão avançadas e que deve cumprir a totalidade delas.

Covas também costuma ser criticado por não ter uma marca da sua gestão, como foram, por exemplo, as ciclovias de Fernando Haddad (PT), a lei Cidade Limpa de Gilberto Kassab (PSD) e o Bilhete Único de Marta Suplicy (então no PT).

A essas críticas, em geral, o prefeito responde que "não é cerveja para ter marca" e que precisa dar continuidade a boas políticas públicas mesmo que tenham sido feitas em outras gestões.

Além das metas pela metade, a versão de prefeito presente, exibida na TV, contrasta com sua imagem anterior de "baladeiro", pelas festas que ia com os amigos que nomeou para cargos de confiança na prefeitura, e com as viagens pelas quais se afastava do cargo.

Covas assumiu a prefeitura como vice de Doria, que renunciou para disputar o governo do estado após permanecer somente 1 ano e três meses no cargo. No período em que era vice, acumulou a pasta de coordenação das subprefeituras, mas foi substituído por Doria, insatisfeito com a zeladoria na cidade. ?

No primeiro ano à frente da prefeitura, que assumiu em abril de 2018, passou mais de 40 dias afastado. Uma dessas viagens aconteceu em março de 2019, quando pediu licença de 7 dias e foi para a Europa.

Nesse meio tempo, no entanto, um temporal alagou a capital e outras cidades da Grande São Paulo, matando 12 pessoas. Covas inicialmente havia negado que abreviaria a viagem, mas, pressionado, acabou retornando antes.

A imagem de jovem baladeiro mudou, no entanto, em outubro de 2019, quando descobriu um câncer em estágio avançado, já em metástase, no trato digestivo.

A doença é considerada um divisor de águas. Contrariando expectativas na ocasião, o prefeito manteve o trabalho regular, afastando-se apenas ocasionalmente para fazer tratamentos pontuais.

A avaliação na equipe do tucano foi que, a partir da doença, ele ficou mais conhecido. A equipe de comunicação de Covas tem explorado em peças na TV, rádio e redes sociais aspectos da biografia do candidato para fixar a narrativa de que o prefeito coloca a cidade em primeiro lugar e à frente até de adversidades pessoais, como o câncer.

Ao recapitular episódios marcantes e tragédias, a intenção da campanha é conectá-lo a momentos-chave dos últimos dois anos e meio, em um esforço para cristalizar a imagem do "prefeito que gosta de ser prefeito".

Para aliados do tucano, a questão da presença é simbólica no imaginário do eleitor e é um ponto forte de Covas. Eles veem a ausência nas enchentes de março de 2019 como o único ponto fora da curva, mas creem que o enfrentamento do câncer e sua atuação na pandemia ajudaram a superar esse desgaste.

Uma das preocupações dos auxiliares agora é mostrar ao eleitor como o prefeito chegou até aqui, já que ele teve uma participação discreta na eleição de 2016 como vice de Doria.

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