Pandemia complica rotina de brasileiros em missões de paz no exterior
Por Folha de S.Paulo
05/05/2020 às 08:45
Atualizado em 05/05/2020 às 08:45
Foto: Política Livre

A pandemia do novo coronavírus também complicou a rotina de militares brasileiros em missões de paz no exterior. Cuidados específicos de higiene e políticas de distanciamento social somam-se às atividades diárias, que, em alguns casos, significam lidar com o vírus ao mesmo tempo em que enfrentam grupos armados.
Atualmente são quase 300 brasileiros, entre militares, policiais e observadores, atuando em missões de paz da ONU (Organização das Nações Unidas), sobretudo na África e no Oriente Médio.
O maior efetivo brasileiro está no Líbano, na missão chamada Unifil. O Brasil mantém um navio de guerra —onde atuam 200 militares da Marinha, além de oficiais que integram o Estado Maior da missão. Um brasileiro também comanda a Força-Tarefa Marítima da Unifil, que engloba embarcações de seis países.
Com o surto de Covid-19, parte das atividades da missão foi suspensa.
“Nós continuamos com as patrulhas na costa do Líbano, com as detenções, que é nossa missão principal. Mas o apoio para treinar a marinha do Líbano acabou suspenso em março, porque envolve um contato físico maior, com militares subindo nas nossas embarcações”, afirma o comandante da Força-Tarefa Marítima, o contra-almirante Sérgio Renato Berna Salgueirinho.
Outra mudança significativa é que os militares estão há mais de um mês praticamente restritos ao navio, proibidos de “baixar à terra”, nos termos da Marinha.
Antes da pandemia, os ocupantes ganhavam dois dias de folga após cada atividade de patrulha —que leva de cinco a oito dias. Eram autorizados a circular pela capital Beirute, voltando à noite para dormir na embarcação.
“Agora há restrição de contato com a população local. Então eles [os militares] usam o cais em frente ao navio para fazer atividade física, jogar futebol e descansar, enquanto o navio recebe suprimentos”, completa o comandante.
Como dentro do navio os compartimentos são pequenos, com escadas apertadas e corredores estreitos, também foram adotadas políticas para evitar aglomerações, além da limpeza constante.
A Unifil registrou um caso do novo coronavírus. O militar —cuja nacionalidade não foi informada— foi colocado em quarentena e já se recuperou da doença.
Na missão na República Democrática do Congo, a Monusco, o cuidado com o novo coronavírus dá-se no meio de um violento conflito que atinge o país africano há mais de duas décadas.
“A busca pelo equilíbrio entre ambos os imperativos é uma tarefa complexa. Se você aumenta demais as medidas preventivas, perde a capacidade de atuar. Se incrementa as atividades operacionais sem cuidar do seu soldado, você o expõe de maneira imprudente ao risco de contagiar e ser contaminado”, afirma o comandante geral do componente militar da Monusco, o general Ricardo Augusto Ferreira Costa Neves.
“A despeito dessa complexidade, esse equilíbrio não é impossível”, disse nesta sexta-feira (1º), antes de embarcar para coordenar operações na província de Sud Kivu, alvo de violentos ataques recentes de grupos armados.
O general Costa Neves comanda um dos maiores efetivos da ONU, com mais de 18 mil militares. A Monusco combate cerca de cem grupos armados, localizados principalmente no sul e no leste do país. Nos últimos dias, uma série de atentados no lado oriental ameaçam a frágil estabilidade na região.
Esta não é a primeira epidemia enfrentada pelos militares brasileiros no exterior. Há poucos anos, a Monusco também enfrentou o ebola.
