São todos servidores públicos, por Raul Monteiro*
Por Raul Monteiro*
09/04/2020 às 09:02
Atualizado em 09/04/2020 às 09:06
Foto: CNJ

Na bem fundamentada denúncia à Justiça em que pede que uma desembargadora baiana perca o cargo por causa de seu envolvimento num esquema de grilagem de terras no Oeste do Estado por meio de suposta venda de sentenças, objeto de uma famosa Operação chamada Faroeste, a subprocuradora-geral da República Lindôra Maria Araújo, assombrada com o patrimônio adquirido pela magistrada e com as somas astronômicas que movimentou em bancos no período de dois anos, segundo apurações, avalia que tal "lógica financeira" não pode ser sustentada por servidores públicos, ainda que bem remunerados.
Para isso, adverte que a desembargadora faz jus a vencimentos mensais de cerca de R$ 36 mil, brutos, e seu filho, acusado de funcionar como uma espécie de operador da genitora, recebe, como notário de um cartório, o equivalente a R$ 6 mil, portanto, rendimentos incompatíveis com os sinais exteriores de riqueza da unida família, cujo patrimônio, segundo a mesma denúncia, envolve uma mansão na Praia do Forte avaliada em R$ 4 milhões, cinco carros na garagem, um dos quais um luxuosíssimo Jaguar, além de dois apês de quatro quartos conjugados num condomínio de alto padrão em Salvador avaliados em cerca de R$ 2 milhões.
"Por certo, não é crime ter bens de alto valor ou acumular riquezas numa economia capitalista, mas, in casu, em se tratando de funcionários públicos, a desembargadora, que recebe o valor bruto de R$ 35.462,22 (trinta e cinco mil, quatrocentos e sessenta e dois reais e vinte e dois centavos), e seu filho, Notário, cujo salário girava em torno de R$ 6.000,00 (seis mil reais), os bens em questão, venia concessa, exorbitam o patamar normal financeiro da posição social deles", afirma a representante do Ministério Público Federal na denúncia oferecida à Justiça.
No texto, entretanto, o que Lindora, mais do que isso, oferece à sociedade é uma pista claríssima para o enfrentamento da corrupção pela cidadania. Afinal, qualquer indivíduo precisa ter em mente que um servidor público, por mais bem remunerado que seja, como ela própria assinala, não pode desfrutar de um padrão de vida milionário, absolutamente incompatível com sua renda mensal ou a de sua família. A menos que tenha ganho na loteria, a qual, aliás, em passado recente e vergonhoso, já foi usada para justificar a elevação patrimonial inexplicável de um deputado baiano de triste memória, ou recebido herança de familiares.
O exemplo do deputado é muito bem vindo porque ajuda a trazer a situação mais para perto do que se vê normalmente e a auxiliar a sociedade a lançar um olhar menos benevolente sobre políticos que moram em apartamentos luxuosíssimos, desfrutam de casas de praia dignas de capas de revista, mantêm filhos em escolas americanas ou europeias, degustam vinhos caríssimos, além de se entreter com hobbies de milionários e trafegar, como se não estivessem num dos países mais desiguais do mundo, a bordo de veículos tão ou mais luxuosos do que o referido Jaguar da desembargadora, servidora pública assalariada tanto quanto eles.
* Artigo do editor Raul Monteiro publicado na edição de hoje da Tribuna.
