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Tudo para evangélicos é suor, e Bolsonaro ecoa sentimento, diz líder da Assembleia de Deus

Tudo para evangélicos é suor, e Bolsonaro ecoa sentimento, diz líder da Assembleia de Deus

Por Folha de S.Paulo

20/01/2020 às 07:14

Atualizado em 20/01/2020 às 07:14

Foto: Divulgação

Pastor Samuel Câmara

Evangélicos são mal representados no Brasil, e o presidente Jair Bolsonaro merece seu respeito por estar atento a isso, diz o pastor Samuel Câmara.

"Tem horas em que batemos em repartições públicas e não encontramos um brasileiro que reflita 30% da população. Tudo para nós é suor, lágrimas", afirma Câmara à Folha em seu templo.

Irmão de Silas Câmara (Republicanos-AM), líder da bancada evangélica na Câmara dos Deputados, ele pastoreia a Igreja Mãe, a primeira das Assembleias de Deus no Brasil, fundada há 108 anos, em Belém.

Bolsonaro pode ter uma "forma muito absolutista" de se portar, mas uma coisa é certa para Câmara: "É até melhor do que quem tem extrema capacidade, mas exclui qualquer tipo de fé. Oro para que dê certo, que o Brasil vá se conformando".

Assembleianos formam o maior grupo evangélico do país e, segundo estatísticas internas, têm 110 mil templos de Norte a Sul. Neopentecostais, é verdade, chamam mais a atenção por serem "mais vistosos", "mais cosmopolitas".

Mas o Brasil profundo, saiba, é muito mais a cara da Assembleia, afirma o pastor. "Entre evangélicos, somos como num icerberg: o corpo maior está dentro da água. As pontas que aparecem são interessantes, até. Ora causam dano, ora avisam aquilo que está ali."

Câmara encarou como “uma piada” Lula, que orientou o PT a criar núcleos evangélicos, ter dito dias atrás possuir um jeitão de pastor", sobretudo “quando a Justiça brasileira está atribuindo a ele muita corrupção”.

Irmão de um deputado também com problemas na Justiça, o pastor disse esperar que o ex-presidente alcance “a graça de Deus”.

Por que evangélicos são tão fortes no Norte, única região em que superam os católicos? A Assembleia de Deus, maior expressão evangélica do país, nasceu aqui. A interiorização dela é muito eficiente em toda a região, e temos dificuldades imensas de distância, de acessibilidade. O espírito missionário do povo do Norte e essa têmpera de um povo mais sofrido, mais esquecido, explicam do ponto de vista racional. Porque tem o elemento menos tangível, que são os planos de Deus. Quem chega primeiro com certeza espalha melhor sua mensagem.

E por que a Igreja Católica, com histórica dificuldade regional, não chegou primeiro, com a dominância que tinha? Acho que se contentaram com a grandeza, a dimensão. Era a religião oficial do país. A maioria tende a se acomodar um pouco, né? Nossa convicção é que precisamos alcançar todas as pessoas. Sempre falamos que não podemos descansar porque hoje a Assembleia é tão grande, ou vamos passar a ter o que chamamos de católicos praticantes e não praticantes.

Esse fenômeno acontece entre evangélicos? Persegue todos que crescem muito. A maioria dos evangélicos é praticante, mas já tivemos mais gente nas igrejas. Somos mais informais [que católicos e o Vaticano], não há hierarquia muito rígida.

Vocês se submetem a alguma convenção geral assembleiana? Convenções, para as igrejas evangélicas, são apenas órgãos de confraternização, aglutinação de pastores. Não têm nenhuma ingerência sobre cada igreja. Na Assembleia do Brasil, existem pelo menos cinco grandes convenções. Uma Assembleia pode existir mesmo que o pastor não esteja ligado a nenhuma delas. Quem quer centralizar e ser maior se dá mal.

Infelizmente, [convenções] se transformaram em centros de controle, que, em vez de unir e potencializar, às vezes dividem a igreja [a igreja de Samuel rompeu com a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil em 2017].

É comum, para quem vê de fora, tomar entidades que dizem representar pastores como uma espécie de central. Nós somos, nesse sentido, deficientes, até quando se fala em massa de manobra, essa coisa toda. É uma questão em que a gente perde muito dessas igrejas mais atuais, neopentecostais, nas quais um pastor é menor do que a instituição.

Na Universal do Reino de Deus, por exemplo? Aí entra aquela questão sociológica. Tudo tem que vir do Rio, de São Paulo, onde [a Assembleia] não é tão influente.

Muitas vezes há confusão, entre não evangélicos, sobre quem é o que no segmento. Exemplo: o pastor Silas Malafaia é confundido como neopentecostal, mas é da Assembleia, pentecostal. Por que os neos se destacam tanto? O crescimento deles, devido à sua presença na mídia e à localização de templos, dá a impressão de que seriam maiores. A Assembleia era mais da metade dos evangélicos brasileiros até pouco tempo. Com as outras igrejas chegando, perdeu um pouco dessa dimensão, o que para nós não é um demérito. Olhamos nosso trabalho como missão.

Qual a diferença entre pentecostais e neopentecostais? O público leigo, acho, vê neopentecostais como mais vistosos, portentosos, com mais capacidade econômica. Seus pastores são aqueles que de algum modo desfrutam dessa condição de igreja que tem uma vida mais tranquila. São mais cosmopolitas, estão mais nas avenidas. Mas elas não representam mais do que 20% de nós. O que cresce é o templo no meio da rua simples, da favela. A diferença é que [as pentecostais] estão onde outras não vão. Essas pessoas, somadas, assustam de vez em quando as estatísticas.

Seu grupo assembleiano tem faculdade e rede de TV [ambas chamadas Boas Novas]. É preciso ir além da igreja-templo? Quem chega à nossa posição, claro, precisa atrelar outros tipos de atividades: social, cultural e, vamos dizer, de comunicação. Não desprezamos como meio complementar, mas temos um medo horrível de atrasar o trabalho de alcançar pessoas com o amor de Deus. Alguns assembleianos às vezes se destacam mais. Nem sempre o foco deles é a atividade do dia a dia. Usam melhor o meio de comunicação.

Fala de [Silas] Malafaia? A imprensa que faz essa seleção. Você já citou. E não temos só o pastor Silas. Ele é um dos que sabem se portar dentro de um mundo cheio de polêmicas, está disposto a um chamado de emitir opiniões. O perfil do pastor assembleiano mesmo, de comunidade, é um pouquinho diferente. Eles se expõem muito menos.

 

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