O “candidato” que virou suco, por Raul Monteiro*
Por Raul Monteiro*
02/01/2020 às 08:46
Atualizado em 02/01/2020 às 08:56
Foto: Divulgação/Arquivo

Na semana em que Guilherme Bellintani virou suco, seus apoiadores - marqueteiros, jornalistas, políticos e empresários entre eles - na aventura de quererem que fosse candidato à Prefeitura de Salvador de qualquer jeito, pairando acima da política, devem ter aprendido, pelo caminho mais tortuoso e decepcionante, que não há como desprezar a atividade no processo eleitoral. Melhor se saiu o governador Rui Costa (PT), apesar de terem colocado basicamente nele a culpa para que o malogrado projeto do que 'foi sem nunca ter sido' tivesse se inviabilizado, na verdade, devido à mais cabal auto-inconsistência.
Talvez, de fato, o governador, como dele dizem, principalmente aliados, tenha entre seus principais defeitos o egoísmo ou a falta de visão dos verdadeiros líderes, mas, neste caso em especial, não pode ser criticado apenas por ter, diferentemente de todos os demais, usado a razão. Na semana anterior ao anúncio da desistência de disputar, Bellintani esteve com Rui no que deveria ter sido o momento fatal para sua tomada de decisão. Só que ela estava baseada em varias premissas totalmente equivocadas.
Talvez a mais vistosa delas fosse a expectativa nutrida ingenuamente pelo postulante de que Rui abraçaria exclusivamente seu nome para a sucessão municipal em Salvador em detrimento dos partidos e de outras várias candidaturas da base, entre as quais algumas integrantes do mobilizador movimento Eu quero ela, que defende um candidato negro, sob o pretenso argumento lhe dado por supostas pesquisas qualitativas de que era o melhor nome para enfrentar e vencer o escolhido pelo prefeito ACM Neto (DEM).
Pouco importava que Bellintani tivesse conseguido estar a sós com Rui praticamente pela primeira vez e que a marca política mais lustrosa de seu curto currículo fosse exatamente um estágio na gestão pública, dizem que exitoso, como auxiliar do prefeito de Salvador, além do fato de que ele próprio já tivesse admitido repetidas vezes, demonstrando uma sinceridade louvável, no périplo que anteriormente fez entre partidos da base para tentar se filiar, sem nunca ter tomado uma decisão, que decidira se movimentar na direção da oposição porque acabara percebendo que dificilmente seria escolhido por ACM Neto para ser seu candidato à própria sucessão para o pleito de outubro.
Ou seja, um projeto meramente eleitoral e utilitário, quem sabe empresarial, cujo objetivo era ganhar a Prefeitura de Salvador a qualquer preço, não importando que lado representasse, sem qualquer lastro programático ou ideológico, se desembrulhava - ou desmascarava - no gabinete de Rui na expectativa de que o governador, que nunca demonstrou maiores encantos com a conquista da Prefeitura de Salvador mesmo para aliados históricos, fosse acolhê-lo e assumi-lo como se fosse seu, espanando para os lados, além dos correligionários, gente mais conhecida e politicamente gabaritada.
Com a decisão de se retirar de cena, Bellintani ao menos demonstrou ter tido a capacidade de reconhecer que uma ilusão compartilhada por muitos resultará inevitavelmente num fracasso tão redondo quanto aquela alimentada por um único indivíduo.
