Hangar usado por falso cônsul preso pela PF foi palco de clipe de pagode
Por Guilherme Amado/Época
02/12/2019 às 14:55
Atualizado em 02/12/2019 às 14:56
Foto: Divulgação/TJ-BA

Eis mais um detalhe engraçado revelado pela Operação Faroeste, que desarticulou na semana passada uma intrincada organização criminosa que atuava vendendo sentenças da cúpula do Tribunal de Justiça da Bahia.
O hangar do Aeroporto de Salvador, usado pelo falso cônsul da Guiné-Bissau preso na semana passada, já foi palco de um... animado clipe de pagode.
Foi lá que Robyssão, um cantor de pagode da Bahia, gravou o clipe de Nota de cem, com aeromoças rebolando ao som de uma letra que repete dezenas de vezes o refrão "Empina a bunda que eu jogo nota de cem".
O vídeo foi lançado em 8 de novembro — onze dias antes da prisão do falso cônsul, Adailton Maturino — e é citado no processo movido pela concessionária do aeroporto como um indicador do desvio de finalidade do hangar.
O espaço é explorado pela Adey Táxi Aéreo, uma empresa de táxi aéreo cujo vínculo com Maturino ainda é investigado. A PF encontrou um caminho recentemente.
Os investigadores apreenderam, na casa da desembargadora Maria do Socorro Barreto Santiago, ex-presidente do TJ-BA presa na última sexta-feira, um bilhete manuscrito que cita o governador e a empresa :
"Pedir ao governador nos atender para que ele fale com o Julia Ribas da Embrapa Vancy do Aeroporto para atender o pessoal da Adey Táxi Aéreo, Yeda Muricy Guimarães". Segundo as investigações, Maturino é um dos beneficiados do esquema no TJ-BA.
"Sem a pretensão de formar um juízo de valor sobre os vínculos da agravante (Adey Táxi Aéreo) e os seus gostos musicais, é inequívoco o desvio de finalidade", escreveu a concessionária do aeroporto baiano em um recurso ao Tribunal de Justiça da Bahia na última segunda-feira, tentando recuperar a posse do hangar.
O caso é relatado pelo desembargador João Augusto Alves de Oliveira Pinto.
A batalha judicial da concessionária do aeroporto com a empresa Adey Taxi Aéreo já dura um ano. O aeroporto afirma que a dívida da empresa passa de R$ 1 milhão.
Nesse hangar, também há uma sala com o adesivo da embaixada de Guiné-Bissau, que agora se sabe fazer parte da mentira criada pelo falso cônsul. Ele despachava desta sala antes de ser preso na Operação Faroeste.
Os suspeitos alvos da Faroeste afirmam ser inocentes.
Procurada, a Adey Táxi Aéreo disse desconhecer o uso da sala por Adailton Maturino e a filmagem do videoclipe — apesar do adesivo na porta da sala em que ele despachava e do vídeo do clipe.
A sócia da empresa citada pela desembargadora presa, Yeda Nunes, negou que tenham dívida com o aeroporto.
"Eles que devem. Nós construímos o hangar todo, recebemos só a terra, isso há mais de 20 anos. Só que eles ficaram de nos devolverem uma parte do dinheiro, e até agora não devolveram. Não colocaram nenhum coqueiro. Temos ganhado na Justiça e vamos continuar aqui", rebateu.
