Deputada Joice usa recurso público de gabinete da Câmara em guerra digital
Por Folha de S.Paulo
24/10/2019 às 06:51
Atualizado em 24/10/2019 às 06:51
Foto: Dida Sampaio/Estadão

Ex-líder do governo no Congresso, a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP) utiliza dinheiro de sua cota parlamentar para pagar uma empresa que gerencia suas redes sociais, usadas como armas na guerra digital que trava com os filhos do presidente Jair Bolsonaro.
A EG Consult, sediada no Rio de Janeiro, recebe R$ 2.500 mensais da verba pública para, entre outras tarefas, administrar um grupo de WhatsApp em que a deputada rebate acusações de traição e critica adversários.
Joice tem denunciado o uso de uma estrutura sediada no Palácio do Planalto para coordenar "milícias digitais" usadas contra desafetos do governo. Ela diz que essa rede, que passou a tê-la como alvo e seria chefiada pelos filhos de Bolsonaro, teria 20 perfis no Instagram alimentando uma rede de cerca de 1.500 páginas.
A proprietária da EG Consult, Elisa Gomes de Oliveira de Morais, é administradora e criadora do grupo de WhatsApp "Joice, eu apoio!", parte da estrutura de comunicação da deputada. Mensagens enviadas para o grupo são respondidas de forma automática com a assinatura "Atendimento JH".
Esse serviço não aparece discriminado nas notas fiscais emitidas até o mês passado pela EG Consult para receber o dinheiro da cota da deputada. As notas citam "geração de materiais de ordem gráfica e multimídia, gerenciamento, atendimento e suporte aos usuários das plataformas de comunicação utilizadas pela deputada federal", e mencionam Facebook, Instagram, YouTube e Twitter.
A cota parlamentar é uma verba da Câmara criada para custear despesas do mandato. Entre os gastos previstos está "divulgação da atividade parlamentar", segundo ato da Mesa Diretora da Câmara de 2009, que regulamentou o uso dos recursos.
O conteúdo das redes sociais de Joice, no entanto, inclui mais do que a exposição de sua atividade como deputada. Textos e vídeos com ataques a opositores são frequentes. O mesmo ocorre com o grupo de WhatsApp gerenciado por Morais. Nos dias seguintes à sua destituição do cargo de líder, a administradora postou: "Joice nunca traiu o governo. Isso é discurso de quem é membro do Gabinete do Ódio".
A referência é a uma estrutura com três assessores da Presidência —Tercio Arnaud Thomaz, 31, José Matheus Salles Gomes, 26, e Mateus Matos Diniz, 25— que seriam parte da chamada "milícia digital".
