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Instabilidade externa expõe, mais uma vez, vulnerabilidades brasileiras
Eduardo Salles
Instabilidade externa expõe, mais uma vez, vulnerabilidades brasileiras
23/03/2026 às 11:10
Sob pena de soar repetitivo, volto à cantilena dos problemas impostos pela instabilidade do cenário internacional à agropecuária brasileira, um dos setores mais importantes da nossa economia. Assim como ocorreu há quatro anos, no conflito entre Rússia e Ucrânia, agora uma guerra de grandes proporções entre Israel, Estados Unidos e Irã deixa os agropecuaristas com risco de falta de insumos e aumento no custo de produção.
Desde o final de fevereiro testemunhamos o aumento vertiginoso no preço dos combustíveis em função da guerra. O barril de petróleo Brent subiu mais de 42%, ultrapassando a barreira dos US$ 100 dólares. Esse custo já impacta a produção rural e vai refletir na inflação de alimentos e outros bens, sem dúvida nenhuma.
Mas os nossos problemas não param nos combustíveis: fertilizantes e defensivos agrícolas produzidos nas regiões dos conflitos bélicos e a dificuldade logística de transporte dos produtos tornam o cenário desafiador ao Brasil, maior produtor de alimentos do mundo e dependente da agropecuária para o saldo positivo da balança comercial.
Nesse cenário, reforço, como faço há anos, a importância de o Brasil, como política de estado e não de governo, independe da coloração partidária, investir de forma séria e contínua na autossuficiência de fertilizantes. A agropecuária brasileira é de uma importância vital à economia nacional e não pode ficar sempre à mercê do cenário internacional.
Somos responsáveis por 8% do consumo global de fertilizantes, ficando atrás apenas da China, Índia e Estados Unidos. Dos macronutrientes necessários à produção agrícola, importamos 95% do nitrogênio, 75% do fosfato e 91% do potássio. Esses números foram apresentados pelo professor Cícero Lima, da Fundação Getúlio Vargas.
Conforme dados da ANDA (Associação Nacional para Difusão de Adubos), o Brasil importa 85,7% dos fertilizantes utilizados em sua agropecuária. Apenas em 2025, foram importados 43,32 milhões de toneladas. Em contrapartida, produzimos internamente apenas 7,22 milhões de toneladas. Não há a mínima lógica termo um setor estratégico à economia tão dependente do mercado externo e suas instabilidades.
A safra colhida agora não vai sofrer, mas a próxima, que precisa nesse momento dos fertilizantes, já vai ter impacto dos custos mais elevados no preço dos fertilizantes ocasionados pela diminuição na oferta global ao mercado.
A CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) afirma que 30% de todo o fertilizante produzindo no mundo é oriundo do Oriente Médio. Em função da guerra entre Irã, Israel e Estados Unidos, o Estreito de Ormuz está praticamente fechado, dificultando a venda a países como o Brasil. O resultado imediato é aumento nos custos.
A uréia, segundo a CNA, já sofreu um aumento de 33% para a agropecuária nacional graças à majoração do gás natural, matéria-prima necessária à produção. E a tendência é que continue a subir. Cerca de 35% desse insumo importado pelo Brasil vem da região em conflito. Os fosfatados também sofrerão do mesmo problema.
Segundo o REBOBANK, banco cooperativo holandês líder em financiamento agroindustrial e de alimentos, aproximadamente 45% das exportações globais de uréia passam pelo Golfo Pérsico.
No início de janeiro as FAFENs da Bahia e Sergipe voltaram a funcionar após período de hibernação. Ambas têm capacidade de suprir 12% da demanda nacional, o que é ínfimo dada a necessidade de autossuficiência.
Está cada vez mais claro que o cenário internacional é de instabilidade constante e não é possível que o Brasil siga sem entender a importância vital de investir para ser autossuficiente em fertilizantes. Perder mais tempo pode causar um dano irreversível à agropecuária nacional e um caos econômico no país.
