Lucas Faillace Castelo Branco
A literatura explica o Brasil?
05/01/2026 às 13:14
Uma forma de conhecer um país é por meio de seus livros de história. Outra, mais fecunda, a meu juízo, é por meio da boa literatura, sobretudo daquela que se ocupa da vida social. Mais do que a narrativa factual, a literatura mergulha o leitor nos pormenores do quotidiano, revelando hábitos, tipos sociais e, sobretudo, as hipocrisias que estruturam a convivência coletiva.
Não são poucos os clássicos brasileiros que permitem esse tipo de leitura diagnóstica, pela qual se apreende algo do caráter nacional. Lendo-os, tem-se frequentemente a impressão de que o Brasil pouco mudou: eis a força de uma cultura profundamente cristalizada, da qual todos somos herdeiros.
Lima Barreto é, sem dúvida, um mestre no uso da literatura como crítica social. Há, contudo, uma obra de um autor hoje menos lembrado que desempenha essa função com igual precisão: Memórias do Sobrinho de Meu Tio, de Joaquim Manuel de Macedo, o autor de A Moreninha.
A sátira política, narrada em primeira pessoa com cinismo por um personagem oportunista – o “sobrinho” – expõe os mecanismos da ascensão social e política no Brasil do Segundo Reinado, revelando muito mais do que um período histórico: lança luz sobre o Brasil contemporâneo.
Não pretendo aqui discorrer sobre o enredo; o leitor curioso fará bem em ler a obra. Limito-me a destacar as passagens que, por razões diversas, chamaram-me a atenção quando as li. Transcrevo, a seguir, apenas alguns dos inúmeros trechos interessantes – organizados por mim em tópicos – deixando ao leitor avaliar se neles há algo que evoque o Brasil de hoje. Esta é, pois, minha contribuição de início de ano ao Política Livre e a seus leitores.
A CONSTITUIÇÃO COMO PEÇA DE FICÇÃO:
“Pobre Constituição! Fazem de ti o que querem: és tudo e nada, meio e fim, pão e pau!”
“Serves de isca para os crédulos, de anzol para os velhacos.”
“És salva-vidas com que conta a mestrança da nau do Estado para o caso de naufrágio, e fojo, onde cai o povo que conta contigo nos tempos normais.”
“Serves para amassar o bolo que muitos jeitosos apetecem e comem; e para se dourar a pílula que o respeitável público engole.”
“Deves estar envergonhada do papel que te fazem representar; esconde-te, Constituição!”
“Escuta: para o teu ensino vou dizer o que és e o que não és: aprende; mas depois de aprender, dorme, porque o teu sono é uma condição essencial da marcha regular dos negócios públicos, sempre que a minha escola e os meus mestres os dirigem.”
“Tu pensas que ainda vives, e sempre foste defunta.”
“Tens balda de sábia, e não podes manter a pureza dos teus preceitos.”
“Julgas-te bela, mas és toda goma-elástica, e não há autoridade que não te decomponha os traços aos empuxões que cada qual deles te dá.”
“Crês que és um monumento, e não passas de uma escada.”
“Importuna vaidosa! Dorme aí no bolso do meu paletot, como dormes sofismada, mentida, adulterada em sete pastas, cujos nomes não digo, não em atenção a ti nem às pastas, mas pelo respeito e veneração que tributo aos empastados de todos os tempos.”
INFALIBILIDADE DA AUTORIDADE:
“(...) a autoridade policial ou judiciária nunca deve recuar do que faz, a fim de não indicar que erra, imitando daquele modo o poder executivo que tem sempre a infalibilidade do papa (...)”
DINHEIRO COMO CRITÉRIO ABSOLUTO DE VALOR:
“O que a sociedade ensina, proclama e adota é mais simples, mais positivo, mais prático e mais sábio: ela ensina, proclama, e adota que quem tem dinheiro vale mais, merece mais do que quem não tem.”
“A sociedade bate palmas, ao bancarroteiro fraudulento impune, ao moedeiro-falso impune, ao impune falsificador de dez testamentos; contanto que seja milionário a sociedade abre os braços, aplaude, enche de honras, e genuflexa beija os pés do mostro moral mais feio e repugnante.”
IMPUNIDADE MORAL E AUSÊNCIA DE CONSEQUÊNCIAS
“No Brasil ainda não houve homem perdido, morto moralmente nem pelas indignidades, nem pela concussão, quanto mais pela franqueza do egoísmo e do interesse material na vida política e administrativa.”
“No Brasil, ninguém morre moralmente enquanto não morre fisicamente, exceto os criminosos pobres condenados pelo júri.”
“Há empregados demitidos de repartições fiscais por prevaricação comprovada, e poucos meses depois reintegrados nos mesmos, ou arranjados em melhores empregos.”
JUSTIÇA E MAGISTRATURA
“Há magistrados que, incapazes de vender a sua consciência por dinheiro, ousam contudo dar despachos e recursos a troco de votos nas eleições para si ou para seu partido, e escrever sentenças injustas contra a propriedade alheia e os direitos políticos dos cidadãos para servir assim a potencias eleitorais, de quem depende a sorte de suas candidaturas, ou das candidaturas de correligionários seus, e faz-se de conta que são magistrados íntegros, e incorruptíveis.”
“Os paios inocentes: aquele que convencidos do seu direito não se empenham em alcançar o despacho que lhes é devido e que ficam com caras do que são, isto é, com caras de tolos, vendo-se preteridos pelos afilhados de bons padrinhos.”
MINISTÉRIOS E GOVERNO SEM NORTE
“E tudo isso por quê? Porque o governo do Brasil é filósofo e mestre na escola a que pertenço, e que se funda no esquecimento das lições do passado, nos gozos do presente, e no desprezo dos cuidados do futuro.”
“Ministérios sem cor, sem princípios, sem ideia de futuro, sem base na opinião (que teima sempre em ser alguma cousa), sem consciência, sem capacidade e carregados, como fardos sem préstimo, pelo povo submisso em nome do amor da pátria.”
O PÚBLICO:
“O público é o povo, isto é, um animal cargueiro, uma espécie de camelo bípede capaz de carregar às costas o próprio diabo, contanto que o peso do diabo não exceda as proporções materiais das forças do camelo (...)”
“O público ainda é um animal notável pela sua boa-fé; e tem, para engolir patranhas e mentiras, goela tão larga, como para engolir os contos de réis do tesouro nacional têm imensa goela certos fornecedores do exército e os felizes exploradores da guerra do Paraguai.”
“O público é muito respeitável, segundo dizem, pela força e influência da opinião que manifesta; mas sempre lhe acontece que sua opinião fica sendo a opinião de quem fala em seu nome, e muitos casos uns afirmam que o público diz sim, e outros juram que o público diz não a respeito do mesmo assunto, de modo que em resultado o público, apesar de respeitável, acha-se constantemente exposto a não saber o que diz.”
A MENTIRA COMO INSTRUMENTO:
“A mentira é tão útil que às vezes determina a baixa ou alta dos fundos públicos na praça e duplica a fortuna ou dá grandes lucros a quem a faz correr, e que, depois de descoberta ou alhada, fica com a mesma cara, e nem por isso é responsabilizado.”
PARLAMENTO, CONVENIÊNCIA E CINISMO:
“(...) No nosso parlamento tem-se observado que se reconhecem absurdos em um projeto, e no entanto se vota pelo projeto por amor de pretendidas necessidades públicas: adoto o exemplo parlamentar: reconheço que é absurdo o testamento de meu tio; mas voto por ele em consideração das mais altas conveniências da família, isto é, em atenção aos meus cento e cinquenta contos”
“(...) francamente: eu desejo arrancar vida esplêndida, mamando nas tetas do tesouro público e, ainda mais, aproveitando a influência de uma alta posição oficial para ganhar dinheiro, que é o essencial e a grande realidade da vida.”
“Consola-te com o Brasil; porque o Brasil é um tio velho e rico, cercado, atropelado de sobrinhos que o devoram, que o reduzem à miséria, e que se dizem patriotas, sem dúvida porque se consideram donos ou proprietários da pátria.”
PARTIDOS POLÍTICOS:
“(...) se o Brasil não tem partidos políticos legítimos, o remédio é arranjar o seu sistema representativo sem eles e dar graças a Deus por ter vida constitucional de comédia em vez de realidade constitucional.”
“(...) não há desde muitos anos partidos legítimos governando franca e lealmente o Estado, há sucessivamente no poder uma polifarmácia de homens que não podem decentemente entender-se, de ideias que não se combinam, de aspirações que se repelem, imbroglio político que faz as delícias dos egoístas e espectadores e por consequência a fonte aberta da imoralidade política, fonte para mim dulcíssima, onde hei de beber, beber, e beber até a saciedade.”
“O que tenho visto, e espero ainda continuar a ver, é o mais feliz e engenhoso jogo do aí vai o papelão político, em que aí vão-se sucedendo no governo séries de homens antigos e novos, que juram, protestam ser de família diferente dos antecessores e sucessores, e que entretanto são todos irmãos gêmeos, falam todos a mesma língua, têm todos os mesmos sestros, fazem todos a mesma cousa e até parecem perfeitamente uns com os outros naquilo que lhes falta; porque poucos deles têm religião de princípios, firmeza e lealdade de crenças, amor do poder pelas ideias, e desapego do poder pelas suas individualidades. Convenho em que haja exceções (raríssimas) desta regra: mas tais exceções são notas desafinadas do grande coro do egoísmo.”
“Por que acontece assim? Porque, felizmente para os homens de juízo, para os espectadores políticos a cuja grei pertenço, ou não há, como sustento, verdadeiros partidos políticos no Brasil, isto é, partido de ideias, cujos chefes só o sejam pelas ideias e pela capacidade e leal disposição de as realizar no poder, sine qua non, e há somente bandos e sequelas que se unem por simpatias a certos homens, e por oposição a outros bandos e sequelas, e que tomam nomes sem dar importância às ideias que esses nomes significam: Ou então aquilo acontece porque os partidos políticos no Brasil tem pressa demais em subir ao poder, e por causa da pressa, ao primeiro aceno correm aos trambolhões, trepam por toda espécie de escada, entram pelas janelas em vez de entrar pelas portas, perdem nos saltos da subida o código dos seus princípios, deixam cair no caminho de suas ideias, desfiguram, ou alteram profundamente suas fisionomias pela fadiga dos arrancos violentos, e quando se mostram de cima, nem os pais, nem os filhos, nem os irmãos os reconhecem mais.”
Feliz 2026 a todos!
