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Não houve frustração, mas eleitor exigiu mais de Lula, diz Jerônimo Rodrigues, reeleito na Bahia
Não houve frustração, mas eleitor exigiu mais de Lula, diz Jerônimo Rodrigues, reeleito na Bahia
Governador traça ofensiva e promete mais votos para o presidente no segundo turno
Por João Pedro Pitombo/Folhapress
09/10/2026 às 17:00
Foto: Reprodução/Flickr
Jerônimo Rodrigues (PT) foi reeleito para mais quatro anos à frente do Governo da Bahia
Reeleito para mais quatro anos à frente do Governo da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), 61, tirou a quinta-feira (8) para conversar com prefeitos aliados e definir uma estratégia para tentar virar votos para o presidente Lula (PT) no segundo turno contra Flávio Bolsonaro (PL). Antes da maratona de reuniões, o governador reeleito recebeu a Folha para uma entrevista.
O petista reconheceu que a imagem de Lula construída nos mandatos entre 2003 e 2010 já não produz o mesmo efeito sobre parte do eleitorado. Na avaliação dele, não houve exatamente uma frustração, mas o eleitor passou a exigir mais de Lula.
Para o governador, a campanha no segundo turno precisa combinar temas como democracia e soberania com questões do cotidiano. Ele afirmou que sua meta é ampliar a votação de Lula na Bahia e ironizou seu adversário ACM Neto (União Brasil), derrotado na disputa pelo governo baiano, por agora apoiar Flávio Bolsonaro: "Ele perdeu e vai perder de novo".
O PT chega ao segundo turno em cenário adverso, buscando uma virada inédita na eleição presidencial. Foi uma surpresa o resultado?
Sabíamos que seria uma eleição dura, com um riscado no chão. Em um país democrático, a eleição deve ser um ambiente para discutir projetos. E os dois projetos que ficaram para o segundo turno são muito diferentes na forma de tratar as pessoas, no relacionamento com a democracia, na defesa da soberania nacional.
Não acha que soberania e defesa da democracia são temas etéreos para o eleitor que está preocupado com o preço da comida?
É etéreo para quem não compreende o percurso de uma democracia. Quem viveu a ditadura de 1964 sabe do que se trata. Temos esse bloco de temas, mas também o dia a dia das famílias, que é comida na mesa, uma roupa decente, uma casa adequada. A gente não tinha isso, e eu tiro por mim. Nunca imaginava que o governo pudesse dar uma casa a uma pessoa pobre, que pudesse ter asfalto numa zona rural. Então, uma coisa pode parecer etérea, mas ela determina as outras. A democracia e a soberania são temas que orientam a gente.
Acha que havia na campanha um otimismo um pouco descolado da realidade? Parte da população está insatisfeita com a situação do país.
Nós temos uma referência do Lula. O Brasil tem aquele Lula de 2003, que tirou o Brasil do mapa da fome. Agora, ele tirou pela segunda vez, mas já não foi a mesma coisa para a sociedade. Não era novidade. Talvez a expectativa tenha sido essa. Eu não digo que é uma frustração, mas é exigir do Lula algo mais. E isso é bom para a sociedade brasileira.
O senhor falava em dar uma frente de até 5 milhões de votos na Bahia, mas essa frente foi de 3,2 milhões, inferior à de 2022. Houve um erro de avaliação?
Nossa expectativa é reverter para fazer uma virada que nunca houve na história do Brasil.
O presidente tem focado na segurança pública com um lema: "Para o trabalhador, proteção. Para o bandido, prisão". Acha que esse é o caminho?
Temos temas que são decisivos. A educação, por exemplo, é fundamental para a gente desenvolver esse país. Na segurança pública, da mesma forma. O Lula está com a dependência da PEC da Segurança. Ele não podia criar um ministério porque no desenho da lei estava dizendo: "Não se meta aí, é responsabilidade do Estado". Foi a Constituinte que estabeleceu a autonomia e o poder do Estado para tomar as decisões.
Seu adversário ACM Neto anunciou apoio à candidatura do Flávio Bolsonaro. Como o senhor vê esse movimento?
Eles pregaram o voto Lula-Neto, eu quero saber se está valendo. Ele queria colar no Lula e já descolou tão rápido? Que fluidez, que interesse. Ele lançou o [candidato a presidente Ronaldo] Caiado, mas trabalhava com Flávio. Mas é bom que o povo saiba quem é ACM Neto.
Acha que é um movimento arriscado?
Ele foi derrotado comigo, vai perder outra eleição com o Lula e vai se enterrar. Se eu perdesse, iria ligar para o meu opositor, desejar boa sorte, parabenizar de forma civilizada e criar uma transição adequada. Em duas eleições, ele não teve sensibilidade de ligar para parabenizar. Um cara desse quer democracia?
O senhor teve uma votação mais equilibrada entre as cidades nesta eleição. Na passada, houve uma diferença grande entre cidades grandes e pequenas. O que mudou?
É o reconhecimento do trabalho, do grupo unido e da articulação com prefeitos, ex-prefeitos e movimentos sociais. A sociedade enxerga isso, por mais que a corda esteja esticada. Duas vezes eu derrotei o herdeiro.
Vai trabalhar para eleger um prefeito em Salvador?
Esse resultado já é o pé na porta para dizer assim: "nós queremos e vamos cuidar de Salvador". Eu espero que Salvador enxergue isso. A herança que nós temos do grupo de ACM Neto e [do prefeito de Salvador] Bruno Reis são eles se metendo até o pescoço com coisa lambuzada, de corrupção. No dia que sentar na minha mesa alguém com essa conversa, não fica.
O senhor manteve um secretário investigado pela Polícia Federal.
O Eduardo [Sodré, secretário de Meio Ambiente e enteado de Jaques Wagner] sabe que tem que prestar contas. Já meu adversário queria governar escondendo informações. Se teve denúncia, ele teria que abrir as contas. Ele nunca abriu.
Flávio Bolsonaro falou nos últimos dias em mudanças na Constituição. O senhor vê essas declarações com preocupação?
Como uma pessoa, em uma eleição presidencial, diz que vai mexer na Constituição e não explica o que é isso? Todo mundo conhece o modelo golpista por trás deles, são golpistas. É um risco muito grande.
Teme que os projetos prioritários sejam afetados?
Tenho certeza que, com a mesquinhez que eles têm, vão criar entraves. Mas a gente vai ganhar as eleições e continuar os projetos da Bahia.
Em caso de vitória ou derrota, como a esquerda deve se organizar para o pós-Lula?
Precisamos rever os métodos para dialogar com a população. Lula tem uma inquietude e acha que nós temos que criar um movimento em que a política dialogue melhor com as redes sociais. Nós temos que vir na frente. A política se move a partir da demanda do povo.
O que o senhor projeta para a Bahia nos próximos quatro anos? Tem alguma área que o senhor acha que falhou e pretende priorizar neste segundo mandato?
Eu paguei uma conta com Bolsonaro. Se [o ex-governador] Rui Costa tivesse Dilma, Lula ou Haddad, teria iniciado esse pacote de obras lá atrás. O desafio nosso é fechar esse ciclo: universalizar a educação em tempo integral nos municípios, otimizar a oferta da saúde pública e a segurança pública. A expectativa do próximo mandato é com Lula.
E se Flávio vencer?
Ele vai perder as eleições.
