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Flávio Bolsonaro consolida apoios na direita e no centrão enquanto Lula sobe tom contra STF e mira quem não votou
Flávio Bolsonaro consolida apoios na direita e no centrão enquanto Lula sobe tom contra STF e mira quem não votou
Por Caio Spechoto , Catia Seabra , Mariana Brasil e Carolina Linhares/Folhapress
06/10/2026 às 06:50
Foto: Charles Vieira/Arquivo/Divulgação
Flávio Bolsonaro
O candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL), recebeu diversos sinais de apoio da direita e do centrão um dia após líderar a votação no primeiro turno, realizado no domingo (4), e pretende reforçar a mobilização da própria base por meio de nomes eleitos do partido.
Seu concorrente, o presidente Lula (PT), fez reunião com aliados nesta segunda-feira (5) para tentar reorganizar sua campanha e traçou como objetivo no segundo turno atrair eleitores que não votaram —a abstenção foi recorde, de mais de 33 milhões— e ampliar a rejeição do adversário.
Pressionado pelo resultado desfavorável, o petista também elevou o tom de críticas ao STF (Supremo Tribunal Federal), dizendo carregar a "promiscuidade" da corte na sua campanha.
Flávio já recebeu respaldo de Romeu Zema (Novo) e deve ter a adesão de Ronaldo Caiado (PSD) em encontro marcado para esta terça-feira (6) em Goiânia, apesar de seu partido se declarar neutro. O ex-presidente Michel Temer (MDB) divulgou vídeo para apoiá-lo, e expoentes do centrão aproveitaram a onda de direita nas urnas para reforçar a aproximação.
Em Brasília, o filho de Jair Bolsonaro recebeu o governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), considerado um dos cabos eleitorais mais importantes e com quem deverá viajar pelo Brasil.
"Vamos ajudar a organizar os eventos e estruturar o estado para receber o Flávio no maior colégio eleitoral do Brasil", disse Tarcísio em entrevista à CNN Brasil.
A federação partidária formada por União Brasil e PP terá uma reunião nesta terça-feira (6), em Brasília, com as bancadas de deputados e senadores eleitos. Os dois partidos sinalizaram apoio a Flávio nacionalmente, mas tolerando a associação de parte de seus diretórios estaduais a Lula.
Presidente nacional do PP, o senador Ciro Nogueira (PI), que não conseguiu se reeleger, defendeu "apoio total e irrestrito" ao candidato do PL. "Votei no Flávio, tenho uma lealdade enorme ao presidente Bolsonaro", afirmou em entrevista à TV Cidade Verde.
A expectativa é que outros partidos do centrão sigam o mesmo caminho. A campanha busca o apoio do Republicanos e espera consolidar o embarque do partido, presidido pelo deputado federal Marcos Pereira (SP), nesta semana.
A campanha de Flávio teve reuniões com as equipes de comunicação e jurídica. Participaram o coordenador-geral, senador Rogério Marinho (PL-RN), o marqueteiro Duda Lima, e os conselheiros econômicos Daniella Marques e Adolfo Sachsida.
Marinho afirmou que, nesta primeira semana, pretende consolidar apoios de partidos e candidatos que não apoiaram Flávio no primeiro turno. Os governadores eleitos pelo PL devem viajar a Brasília para encontros com o presidenciável. Marinho também quer que a bancada eleita para o Congresso siga em campanha.
"Hoje passamos o dia conversando com esses parlamentares e mostrando a importância de que a campanha tem que continuar nas próximas três semanas", disse.
Além de Tarcísio, nomes de peso, como o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e o vice Alfredo Gaspar (PL-RN), devem viajar o Brasil de forma independente e separada do senador, multiplicando os estados a serem visitados.
Flávio terminou o primeiro turno com 47% dos votos válidos, contra 45% de Lula. Nunca na história do Brasil um candidato que chegou na frente no primeiro turno foi derrotado no segundo.
O mesmo fenômeno sobre expectativa de poder faz com que aliados de Lula relatem, em conversas reservadas, temor com a possibilidade de líderes regionais, como prefeitos de partidos de centro, que apoiaram o petista no primeiro turno migrem para o lado adversário.
O presidente da República disse nesta segunda ser preciso mirar as abstenções. "Tem uma coisa que nós temos que trabalhar: são 30 milhões de pessoas que não foram votar. O que aconteceu com essas pessoas? Eles perderam o sentido de responsabilidade? Eles não foram convencidos? Eles não gostam dos candidatos? Porque se fosse assim, teria surgido uma terceira via, e não surgiu terceira via", questionou Lula.
O petista recebeu dezenas de aliados, entre candidatos eleitos e derrotados, em um hotel próximo à Esplanada dos Ministérios, também em Brasília. Participaram lulistas como os governadores reeleitos Jerênimo Rodrigues (PT-BA) e Rafael Fonteles (PT-PI); os senadores eleitos Rui Costa (PT-BA) e Jaques Wagner (PT-BA); e os candidatos derrotados Fernando Haddad (PT-SP), Simone Tebet (PSB-SP) e Marina Silva (Rede-SP).
A reunião foi planejada para identificar problemas na campanha de primeiro turno e descobrir como corrigi-los.
Uma das principais ideias é aumentar a rejeição do eleitorado a Flávio Bolsonaro. O plano já foi tentado no primeiro turno, mas não evitou que o adversário tivesse mais votos que o petista. O grupo político de Lula tenta encontrar um novo jeito de atingir esse objetivo.
Em pronunciamento durante a reunião, o petista indicou que deve intensificar as críticas ao STF até o segundo turno. A corte está com a imagem desgastada por causa do escândalo do Banco Master.
"Estamos carregando nas costas uma coisa muito grave que é a promiscuidade que ficou estabelecida na Suprema Corte brasileira depois dessas denúncias", disse Lula. O petista também indicou que haverá um recrudescimento dos ataques ao adversário.
Os responsáveis pelo marketing político, o publicitário Raul Rabelo e o ministro Sidônio Palmeira (Secom), estão entre os maiores alvos de cobrança dos aliados do presidente. A avaliação é que eles demoraram para imprimir na campanha o tom de embate político que a eleição exigia.
A equipe de campanha de Lula esteve rachada ao longo de toda a disputa. Na comunicação, por exemplo, havia até quatro núcleos diferentes com atuação própria. Houve falta de material, como santinhos e bandeiras, no início da propaganda eleitoral.
Em conversas reservadas, lulistas têm criticado presidente do PT e coordenador de campanha, Edinho Silva, e cobrado mais pulso para que a equipe trabalhe toda no mesmo sentido.
Outra cobrança de aliados do presidente é que ele dê espaço para candidatos e articuladores bem-sucedidos nos estados –o nome mais citado é o do ex-ministro da Educação Camilo Santana– opinarem sobre o tom da campanha e as decisões políticas.
No caso da política, o principal erro apontado por petistas foi do próprio Lula. Trata-se da insistência, durante meses, em tentar lançar o ex-senador e agora ministro do TCU (Tribunal de Contas da União) Rodrigo Pacheco como governador de Minas Gerais. Deu errado, e o presidente precisou improvisar a candidatura de Patrus Ananias (PT), que seria derrotado no primeiro turno, para ter um palanque no estado.
Petistas ouvidos pela reportagem temem que o resultado do primeiro turno desanime apoiadores de Lula nos estados, o que reduziria o volume de campanha.
A primeira-dama, Janja Lula da Silva, também é alvo de críticas. Ela teve destaque ao longo de toda campanha. Na reta final, passou a se referir a Nikolas Ferreira, o mais votado do país, como "piá de bosta".
Parte dos aliados do presidente diz acreditar que a proibição das apostas online prejudicou a votação do petista. Houve forte reação de clubes de futebol, influenciadores digitais e empresas de mídia contra a medida. A decisão de vetar as bets, como são conhecidas as operadoras desses jogos, foi do próprio Lula.
O risco de derrota tem feito mesmo decisões que normalmente não são questionadas se tornarem alvo de críticas internas. Aliados de Lula reclamaram à Folha, por exemplo, da grandiosidade do evento em São Paulo onde o presidente acompanhou a apuração dos votos.
