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Igreja da Lagoinha gerida por cunhado de Vorcaro teve movimentação atípica de R$ 57 mi, diz Coaf
Igreja da Lagoinha gerida por cunhado de Vorcaro teve movimentação atípica de R$ 57 mi, diz Coaf
Por Gustavo Boldrini, Felipe Machado Maia e Guilherme W. Almeida, Folhapress
11/09/2026 às 17:28
Atualizado em 11/09/2026 às 18:13
Foto: Reprodução
Unidade da Igreja Batista da Lagoinha no bairro Belvedere, em Belo Horizonte; templo foi fechado em março
Uma conta da Igreja Batista da Lagoinha em Belvedere, bairro nobre de Belo Horizonte, movimentou R$ 57,1 milhões entre 24 de dezembro de 2024 e 8 de dezembro de 2025, entre entradas e saídas consideradas atípicas, segundo relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) enviado à Polícia Federal em fevereiro deste ano.
A igreja era administrada por Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e apontado por investigadores como operador financeiro da organização criminosa ligada a Vorcaro, dono do Banco Master.
A quantia, afirma o documento tornado público nesta quinta-feira (10) após levantamento do sigilo do caso Master, é muito maior do que o faturamento anual presumido da instituição, que é de R$ 950 mil.
O Coaf afirma que as operações, "por sua habitualidade, valor e forma", podem configurar "artifício para burla da identificação da origem, do destino, dos responsáveis ou dos destinatários finais".
Segundo o relatório, a conta no Banco do Brasil da igreja registrou R$ 28.493.311 em créditos e R$ 28.617.002 em débitos ao longo do período apurado, totalizando uma movimentação de R$ 57.110.313.
A unidade Belvedere de Belo Horizonte, fechada em março deste ano, fazia parte da Lagoinha Global, presidida por André Valadão. Segundo a denominação, a rede é composta por igrejas locais, com liderança própria e autonomia financeira.
A Lagoinha Global afirma que, à época da movimentação de recursos, foi informada que seriam realizados investimentos em reformas e melhorias nas dependências da igreja.
"Essas intervenções efetivamente aconteciam e eram visíveis no local. Os montantes envolvidos nas movimentações agora divulgadas, contudo, não eram de conhecimento da instituição e sua dimensão só se tornou conhecida a partir das investigações", afirmou. "No caso específico dos recursos agora mencionados, a informação recebida era de que não se tratava de contribuições e doações, dízimos ou ofertas, mas de valores captados por Fabiano Zettel para essas obras e melhorias."
Construtoras e incorporadoras se destacam entre os principais destinos dos recursos que saíram da conta da Lagoinha Belvedere, com repasses de R$ 4,9 milhões no período.
A defesa de Zettel, preso em março deste ano na segunda fase da operação Compliance Zero, afirmou que não vai se manifestar.
O montante foi considerado atípico pelos órgãos de fiscalização por ser discrepante do faturamento anual presumido da instituição. Apenas os créditos registrados pela Lagoinha Belvedere no período equivalem a cerca de 30 vezes o faturamento anual estimado da igreja.
A equivalência entre os valores que entraram na conta da instituição religiosa e saíram dela no período também é um dos elementos que fundamentam as suspeitas da PF e do Coaf sobre o uso da entidade como "conta de passagem" por Zettel, responsável pela maioria dos depósitos na conta da igreja.
O relatório mostra que o cunhado de Vorcaro realizou 26 lançamentos na conta no período, num total de R$ 19,2 milhões.
Entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025, a conta da igreja também recebeu quatro aportes de Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, no montante de R$ 120 mil. Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apontado como o Sicário de Daniel Vorcaro em uma milícia privada, fez 11 depósitos, totalizando R$ 22 mil, diz o documento.
