/

Home

/

Noticias

/

Brasil

/

Flávio Bolsonaro vira 'candidato Teflon' e reverte desânimo entre pastores

Flávio Bolsonaro vira 'candidato Teflon' e reverte desânimo entre pastores

Por Anna Virginia Balloussier, Folhapress

30/09/2026 às 13:15

Atualizado em 30/09/2026 às 17:04

Foto: Charles Vieira/Divulgação/Arquivo

Imagem de Flávio Bolsonaro vira 'candidato Teflon' e reverte desânimo entre pastores

'01' de Jair ganha respaldo público de líderes após meses de cautela na base religiosa

O pastor Cláudio Duarte é um nome pop entre evangélicos, conhecido por conselhos conjugais e frases espirituosas, como dizer que o humano inventou o espelho, mas depois "começou a usar filtros porque o espelho era honesto demais".

Postagens mais recentes em seu Instagram, com 10,6 milhões de seguidores, ganharam tensão política. Dias atrás, Duarte citou por ali músicas que o ajudam a refletir se "este é o Brasil que o brasileiro merece".

Foi de Legião Urbana ("Que País É Esse?") a Erasmo e Roberto Carlos, que em "É Preciso Saber Viver" dizem que na vida "é preciso ter cuidado pra mais tarde não sofrer". Conclui recomendando: "Vote certo, não vote 13".

O nada sutil alerta usa o número do PT para sugerir que reeleger Lula hoje é contratar infortúnio para amanhã. Essa postura evidencia uma guinada importante na cena evangélica: se antes muitos pastores mantinham cautela ao se posicionar nesta eleição, agora verbalizam um antilulismo desbragado.

É Flávio Bolsonaro (PL) quem vem colhendo esses frutos eleitorais. Lideranças que no passado endossaram Jair Bolsonaro (PL), mas estavam reticentes a uma aliança aberta com o filho, começam a lhe dar respaldo público.

A polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida energizou essa turma, que viu na fake news de que Flávio quer destitui-la como padroeira do Brasil como uma tentativa de "promover uma coisa seríssima, uma guerra religiosa", como disse nesta segunda (28) o pastor Silas Malafaia.

O casal Estevam e Sonia Hernandes, por trás da igreja Renascer em Cristo e da Marcha para Jesus, vinha evitando declarar voto. A participação da bispa no 7 de Setembro bolsonarista foi uma pista de que havia uma mudança em marcha.

Sonia abriu o ato com uma oração, Flávio ao seu lado o tempo todo. Declarou que "o Brasil é do Senhor Jesus Cristo" e que "todas as obras das trevas estão amarradas".

Dois dias depois, seu marido publicizou pela primeira vez o voto em Flávio. Estevam fez várias postagens simpáticas ao bolsonarismo desde então. Numa delas, reproduz entrevista do ex-senador dizendo que não há nada contra ele no caso Daniel Vorcaro. Flávio pediu ao ex-banqueiro recursos milionários para uma cinebiografia do pai. Se o cobram sobre a relação com o homem que chamou de "irmão" e visitou após a primeira prisão dele, responde que eram apenas negócios privados e encerra por aí.

O mal explicado episódio com Vorcaro preocupava, mas a verdade é que mesmo antes havia dúvida se Flávio teria a robustez eleitoral do pai. Uma dobradinha entre Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Michelle Bolsonaro (PL) agradava mais.

Sem endosso inequívoco do bolsonarismo, o governador de São Paulo preferiu tentar a reeleição. Preso, Jair cravou em carta o apoio ao primogênito. Ainda assim, essa parte da liderança evangélica de envergadura nacional, habituada a dar pitacos eleitorais, não apostou em Flávio num primeiro momento.

O jogo virou. "Nessa reta final, temos visto que os pastores estão dando apoio bem mais incisivos", reconhece Estevam Hernandes.

Há quem nem se dê ao trabalho de citar Flávio como antídoto para Lula. A ideia está nas entrelinhas de um discurso padronizado sobre a importância de eleger quem melhor defende os valores da fé.

Josué Valandro Jr. tem publicado conteúdos do tipo, cobrando fiéis que andam apáticos neste pleito. O líder da carioca Igreja Batista Atitude, onde a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro ia antes de mudar para Brasília, diz coisas como "não existe neutralidade quando o erro está diante dos nossos olhos" e aconselha, para a temporada eleitoral, perguntar-se se "isso é coerente com aquilo que eu digo crer".

Seu voto é secreto, mas nenhum grande segredo. A afinidade com a família Bolsonaro ganhou nova prova pública em maio, quando Josué defendeu Flávio após a divulgação de áudios em que o então senador chama Vorcaro de irmão e pede dinheiro para a cinebiografia do pai.

O pastor disse à época que "a direita, às vezes, é muito ingênua, muito infantil". Para que se preocupar se não havia nada demais na conversa entre Flávio e o dono do banco Master? A negociação envolvia apenas recursos privados, e era preciso ficar atento porque a "esquerda mente", afirmou.

O apóstolo César Augusto, que lidera em Goiás a igreja Fonte da Vida e estava inclinado a endossar o conterrâneo Ronaldo Caiado (PSD), agora também está com o filho do ex-presidente. Não "por desmérito" do amigo, "mas o Flávio teve mais aceitação", explica o reposicionamento.

Flávio não empolgava a mesma liderança que apoiou seu pai em 2018 e 2022. Pastores avaliavam nos bastidores que lhe faltava densidade política e sobrava o risco de emergir algum escândalo contra ele —receio materializado quando veio à tona sua proximidade com Vorcaro.

Contra as previsões, contudo, ele se mostrou um "candidato Teflon", sobre o qual o desgaste eleitoral não tem tido muita aderência. Sustentado pela onda antilulista, consolidou-se como o nome para o qual esses líderes convergem agora. Nomes da terceira via são considerados carta fora do baralho eleitoral.

Há, ainda, o efeito André Mendonça. O choque entre o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) e seu colega Alexandre de Moraes abasteceu a narrativa de uma guerra espiritual, eletrizando a base pastoral contra Lula.

A apóstola Valnice Milhomens, que em 2014 estava com Marina Silva e nos últimos anos se achou no bolsonarismo, convocou seus "guerreiros da oração" para "um tempo de unidade, clamor e intercessão". Gesto, aliás, apreciado por Michelle Bolsonaro.

Circula na internet uma pregação que Valnice fez na Assembleia de Deus Vitória em Cristo, a igreja de Malafaia. Em março, ela disse, como se profetizando, que "toda estrutura ímpia" cairia por terra, e não por acaso "dois casos que vão derrubar muita gente" acabaram "nas mãos de um servo de Deus".

Foi ou não foi "Deus purinho" que fez com que o STF sorteasse Mendonça, um pastor presbiteriano, como relator de inquéritos sobre o Master e as fraudes no INSS? O ministro acabou removido dessas relatorias.

De Estevam Hernandes a Cláudio Duarte, não foram poucos os líderes que exaltaram o "terrivelmente evangélico" que Jair Bolsonaro colocou no Supremo. Mendonça passou a ser apresentado como instrumento de Deus, enquanto Moraes é associado ao campo do adversário espiritual. Ao diabo.

Flávio vira um voto útil quase que compulsório, mesmo entre quem não lhe tem em alta conta. "Vejo a maioria sendo impelidos a votar nele por falta de opção. Também vejo muitos, como eu, explicando por que não votaremos em Lula", diz o bispo Teo Hayashi, que comanda a Zion Church, o Dunamis, movimento evangelizador nas universidades, e o The Send, festival missionário que brinca ser o "Lollapalooza crente".

Escolher o filho "01" de Bolsonaro, a essa altura, é o que resta a muitos pastores, afirma Hayashi, que se posiciona como anti-Lula, sem especificar sua opção nas urnas. "A terceira via que uma parte dos evangélicos esperava não vingou. A maioria vai de Flávio. Uns porque desde o início acreditavam na indicação do Jair, outros, por serem funcionais, farão do Flávio seu voto útil por não aguentarem o caos do governo Lula."

Convém lembrar que, por mais midiáticos que sejam, esses líderes não respondem por uma malha evangélica tão plural, formada em sua maioria por pequenos templos, e não por esses conglomerados da fé com trânsito nos gabinetes. Mas não dá para ignorar que, com força na TV e em redes sociais, é um núcleo pastoral que serve de farol para um batalhão à frente de igrejinhas de bairro.

O antilulismo se reflete nas pesquisas, que revelam o azedume com Lula, que nos anos 2000 alcançava 2 em cada 3 votos evangélicos. Hoje, tem registrado predileção de 3 em cada 10 fiéis.

Comentários
Importante: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião do Política Livre
politica livre
O POLÍTICA LIVRE é o mais completo site sobre política da Bahia, que revela os bastidores da política baiana e permite uma visão completa sobre a vida política do Estado e do Brasil.
CONTATO
(71) 9-8801-0190
SIGA-NOS
© Copyright Política Livre. All Rights Reserved

Design by NVGO

Nós utilizamos cookies para aprimorar e personalizar a sua experiência em nosso site. Ao continuar navegando, você concorda em contribuir para os dados estatísticos de melhoria. Conheça nossa Política de Privacidade e consulte nossa Política de Cookies.