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Trump fala em 'monopólio' sobre carne nos EUA após conselheiro acusar empresas brasileiras de integrar cartel
Trump fala em 'monopólio' sobre carne nos EUA após conselheiro acusar empresas brasileiras de integrar cartel
JBS e MBRF estão entre as quatro maiores companhias do setor no país, ao lado das americanas Cargill e Tyson Foods
Por Tamara Nassif/Folhapress
26/08/2026 às 20:10
Atualizado em 26/08/2026 às 20:13
Foto: Reprodução/Instagram
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta quarta-feira (26) que "ouve falar de um problema de monopólio" no setor de processamento de carne americano há cerca de 20 anos e "só escuta coisas ruins" sobre as quatro maiores empresas do segmento, das quais duas são brasileiras.
Trump fez as declarações ao apresentador Glenn Beck durante entrevista por telefone. Beck instou o presidente a afrouxar as regulações federais sobre o mercado de carne nos Estados Unidos, afirmando que as exigências de inspeção são absurdas para os pequenos produtores e que o problema está nas "quatro maiores empresas de processamento", que, segundo ele, estão "agindo em conluio".
"Duas delas nem são americanas", afirma.
Em resposta, Trump diz: "Tenho ouvido sobre esse problema há 20 anos. Isso [o afrouxamento de regulações] seria uma ótima medida para pecuaristas e agricultores; melhor, seria uma ótima medida para o país."
"Eu só tenho ouvido coisas ruins sobre essas quatro empresas. É um monopólio", afirmou o presidente, sem citar as companhias nominalmente.
As quatro maiores processadoras do mercado americano são JBS, Tyson Foods, Cargill e National Beef. A JBS e a National Beef, controlada pela MBRF, têm origem brasileira.
As companhias foram procuradas por email às 15h30 desta quarta, mas não responderam aos pedidos de comentário até a publicação desta reportagem.
As declarações ocorrem em meio a uma ofensiva do governo Trump contra a concentração no mercado americano de carnes. Em maio, o Departamento de Justiça anunciou uma investigação antitruste sobre as maiores processadoras de carne bovina do país, que analisa supostas violações de regras de concorrência na indústria.
O movimento também ocorre na esteira da disparada dos preços de proteínas de origem animal nos Estados Unidos e da redução do rebanho. Um quilo de carne moída chegou a US$ 6,759 (R$ 35,10) em janeiro deste ano, de acordo com Federal Reserve Economic Data, um aumento de 18% em comparação com o ano passado.
Em números oficiais, a inflação da carne foi de 9,4% nos 12 meses encerrados em julho, segundo o índice de preços ao consumidor divulgado pelo Departamento do Trabalho.
Diante da alta de custos, Trump anunciou na sexta-feira (21) que os Estados Unidos agora permitem a importação de até 300 mil toneladas de carne moída sem afetar as cotas tarifárias. A medida, parte de um acordo de 90 dias, não explicita de quais países virá a carne nem quem assumiu o compromisso de oferecer preços mais baixos.
O conselheiro da Casa Branca, Peter Navarro, chegou a acusar as empresas de integrarem um cartel e afirmou que a concentração de mercado contribui para elevar os preços pagos pelos consumidores americanos.
"Temos um cartel no processamento de carne bovina. É um cartel de quatro empresas que controla 85% de todo o processamento de carne", disse. Ele afirmou que a concentração permite que as companhias exerçam pressão dos dois lados da carteira produtiva: pagando menos aos pecuaristas pelo gado e cobrando preços mais altos dos supermercados.
"E fica pior porque duas das quatro empresas são de propriedade brasileira e estão envolvidas até o pescoço com os chineses", afirmou Navarro. "O que a parte brasileira do cartel faz, como qualquer cartel faria, é maximizar seus preços globalmente, e os americanos estão pagando a conta por isso."
Na época, a MBRF afirmou que opera "em estrita conformidade com as leis de defesa da concorrência e antitruste e mantém políticas robustas de governança e integridade". A empresa afirma que o modelo de operação da National Beef é único nos EUA e possui uma parceria de longa data com aproximadamente 700 produtores locais, que, juntos, detêm cerca de 18% do capital da companhia.
A JBS não se pronunciou.
Navarro disse ainda que o Departamento de Justiça continua trabalhando na frente antitruste e que o Departamento de Agricultura busca estimular a entrada de processadores pequenos e médios no mercado para reduzir essa concentração.
Na entrevista com Donald Trump, o apresentador Glenn Beck diz que pecuaristas, ele próprio um, não conseguem fazer o abate de gado por causa de "regulamentações federais e pede ajuda do presidente para afrouxar a legislação.
Trump pergunta, então, se os pecuaristas conseguiriam fazer o abate se não houvesse tanto escrutínio regulatório. Beck assente e diz que "é preciso quebrar o domínio dessas quatro empresas de processamento" e que "há pessoas querendo construir instalações de processamento por toda parte, mas a regulamentação está nos matando, simplesmente nos matando".
Trump pergunta novamente: "Você está dizendo que, com menos regulamentação, os pecuaristas e agricultores fariam um ótimo trabalho no processamento de carne?". Beck diz que sim, ao que Trump responde "uau".
"Isso é uma coisa muito grande. Você acaba de me dar uma ótima ideia", diz Trump.
No fim do ano passado, uma reportagem do jornal americano The New York Times afirmou que a Casa Branca solicitou uma análise das práticas das empresas frigoríficas após o presidente Donald Trump, em uma publicação nas redes sociais, ter acusado as gigantes do mercado de inflacionar artificialmente os preços e colocar em risco o abastecimento alimentar do país.
Já na época, um comunicado da Casa Branca nomeou especificamente JBS, Cargill, Tyson Foods e National Beef como alvos da investigação.
