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Durigan diz que governo 'zerou déficit', mas contas públicas registram rombo nos últimos anos

Durigan diz que governo 'zerou déficit', mas contas públicas registram rombo nos últimos anos

Gestão Lula acumula saldo primário negativo de R$ 61 bi e R$ 43 bi em 2025 e 2024, respectivamente

Por Marcos Hermanson/Folhapress

06/08/2026 às 18:45

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/Arquivo

Imagem de Durigan diz que governo 'zerou déficit', mas contas públicas registram rombo nos últimos anos

O ministro da Fazenda, Dario Durigan

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta quinta-feira (6) que o governo Lula (PT) zerou o déficit da União, estabilizando as contas públicas em 2024 e 2025. Mas os resultados primários contam outra história.

Segundo dados do Tesouro Nacional, o governo federal registrou déficit primário de R$ 61 bilhões em 2025, e de R$ 43 bilhões em 2024. Para 2026, o governo projeta resultado negativo de R$ 52 bilhões.

"A partir de 2024 a gente zerou o nosso déficit primário. Durante os anos seguintes, de 2025 e 2026, a gente manteve essa estabilização", disse o ministro durante entrevista à GloboNews. "Hoje nós não temos déficit primário no país".

Procurado, o Ministério da Fazenda afirmou que Durigan tratou da trajetória do resultado primário das contas públicas e que o governo passou a perseguir a meta de déficit zero a partir de 2024. Durigan foi escalado por Lula como principal porta-voz na área econômica durante a campanha eleitoral e responsável pelas propostas na área.

O déficit primário ocorre quando as despesas são maiores que as receitas, excluindo gastos com pagamentos dos juros da dívida.

O Ministério da Fazenda considera que cumpre a meta de déficit zero nas contas públicas a partir de 2024, mas, para tanto, precisou excluir uma série de gastos do arcabouço fiscal, a regra que rege as despesas públicas no Brasil e foi aprovada em 2023.

Em 2024, gastos de R$ 29 bilhões do governo federal com o auxílio aos atingidos pelas enchentes no Rio Grande do Sul ficaram de fora do arcabouço, permitindo que a União fechasse as contas dentro da meta oficial. Ainda assim, com déficit da ordem de R$ 11 bilhões, aplicadas as exceções.

Em 2025, ficaram de fora R$ 41 bilhões em pagamentos de precatórios, dívidas judiciais da União, além de R$ 2,8 bilhões ressarcidos aos aposentados e pensionistas lesados pelo esquema de desvios ilegais no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e R$ 2,5 bilhões em projetos considerados estratégicos de defesa nacional. O déficit se repetiu, dessa vez em R$ 13 bilhões.

O Ministério da Fazenda afirmou em nota que "a partir de 2024, o compromisso do governo passou a ser uma meta de déficit zero, com banda de tolerância de 0,5 ponto percentual do PIB para mais ou para menos, exatamente como refletido nos resultados fiscais e na fala do ministro".

"O déficit primário caiu de 2,1% do PIB em 2023 para 0,39% do PIB em 2024 e 0,46% do PIB em 2025, permanecendo dentro dessa faixa. Foi essa mudança de ordem de grandeza que o ministro destacou. Os dados são públicos e divulgados regularmente pelo Tesouro Nacional e pelo Banco Central".

Além dos gastos que ficam de fora do arcabouço, a regra fiscal ainda permite uma margem de tolerância para que, legalmente, o governo possa dizer que atingiu as metas fiscais.

A meta para 2026, por exemplo, é de superávit de 0,25% do PIB (Produto Interno Bruto), equivalente a R$ 34,3 bilhões no azul. Mas se o governo federal atingir resultado zero, ele terá atingido a meta, já que o arcabouço permite uma margem de tolerância de até 0,25% do PIB.

Essa mesma banda de tolerância foi usada em 2024 e 2025 para considerar que o Brasil atingiu a meta fiscal, muito embora não tenha contabilizado superávit nem com a exclusão dos gastos que ficaram de fora do arcabouço.

Para o economista Marcos Mendes, professor do Insper, o governo "quebrou o termômetro" ao passar a fazer um volume grande de despesas por fora do orçamento a partir de operações financeiras com recursos orçamentários em programas de crédito subsidiado. "Este ano, o valor a ser liberado nessas linhas se aproxima de 1,5% do PIB", afirma.

"O governo converteu um superávit primário em déficit, que no primeiro ano [de governo, 2023] foi enorme (2,4% do PIB) e depois se estabilizou na faixa de 0,4 a 0,5% do PIB", diz Mendes, referindo-se ao argumento de Durigan de que os 2,4% de déficit de 2023 teriam sido herdados do governo Bolsonaro.

"Esse argumento, contudo, é enganoso, porque a PEC da Transição [aprovada em 2022, que autorizou aumentar o orçamento de 2023] foi muito além de repor recursos que estavam faltando no orçamento. Ela autorizou um aumento de despesas de quase R$ 200 bilhões, quando R$ 30 ou R$ 40 bilhões resolveriam de sobra as insuficiências".

Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, o diretor-executivo da IFI (Instituição Fiscal Independente), Marcus Pestana, defendeu que o arcabouço fiscal seja mantido, mas sem as exceções que permitiram excluir uma série de gastos bilionários nos últimos anos.

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