Flávio Bolsonaro repete teoria falsa sobre as urnas desde 2014
Senador já associava o sistema brasileiro a empresa venezuelana quando era deputado estadual
Por Laura Intrieri/Arthur Guimarães de Oliveira/Folhapress
23/07/2026 às 11:30
Foto: Ton Molina/Agência Senado/Arquivo
O senador Flávio Bolsonaro (PL)
A informação falsa sobre urnas eletrônicas levada por Flávio Bolsonaro (PL) a embaixadores na terça-feira (21) não é nova em seu discurso. Ao afirmar que as máquinas nas eleições brasileiras "têm a mesma origem dessa empresa venezuelana", a Smartmatic, o senador e pré-candidato à Presidência retomou discurso que ele próprio empregou já em 2014, enquanto deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Poucas semanas depois da reeleição de Dilma Rousseff (PT), Flávio declarou: "O que nos une é a desconfiança da urna eletrônica, um programa feito por uma empresa venezuelana, a Smartmatic".
A associação é falsa. Segundo a Justiça Eleitoral, a empresa nunca forneceu urnas nem programas usados nos equipamentos brasileiros. Seus contratos foram para serviços auxiliares, como conexão de dados e voz e treinamento de suporte.
Após a repercussão da fala aos embaixadores, Flávio afirmou, por meio de sua assessoria, que não havia colocado o processo em dúvida e mantinha "integral confiança no sistema eleitoral brasileiro". A nota não corrigiu nem explicou a ligação falsa com a Smartmatic.
Desde 2014, Flávio alternou entre ataques, ressalvas e recuos com relação ao mesmo assunto.
Em setembro de 2018, afirmou em rede social ser "impossível garantir a lisura das urnas sem o voto impresso". Em entrevista publicada pelo jornal O Globo cinco dias antes do primeiro turno, disse: "Nós temos o direito de desconfiar da urna eletrônica".
Ao mesmo tempo, afirmou que seu pai, Jair Bolsonaro, teria de respeitar eventual derrota. No dia da votação, compartilhou um vídeo manipulado que simulava o preenchimento automático do voto em Fernando Haddad (PT) e foi desmentido pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e pelo TRE-MG. Ele apagou a publicação.
Depois da rejeição da proposta de voto impresso na Câmara, em agosto de 2021, Flávio escreveu que, se o TSE não tomasse novas medidas, "teremos eleições sob suspeita".
Em setembro de 2022, o então presidente do TSE Alexandre de Moraes anunciou a realização do projeto, sugerido por militares, do uso de biometria em testes de integridade em um grupo de 56 urnas distribuídas em 18 estados e no Distrito Federal. Flávio comentou a ação afirmando ao portal Metrópoles: "Com as medidas implementadas, a possibilidade de fraude é quase zero".
Manteve, porém, a tese de que só o registro impresso daria segurança total.
No primeiro turno de 2022, voltou a compartilhar um vídeo segundo o qual uma urna não permitia votar em Bolsonaro. O TRE-PA não identificou problema no equipamento.
Dez dias depois, questionado sobre fraude em entrevista ao jornal O Globo, respondeu: "Não aconteceu, mas podia ter acontecido".
Quando lhe perguntaram se estava dizendo que não havia ocorrido, recuou: "Não sei. É processo de coleta de informações ainda".
Flávio tornou-se coautor, em 2023, de uma PEC que prevê cédulas físicas conferíveis pelo eleitor. Em abril de 2024, no programa Roda Viva, afirmou que o assunto era "página virada". "Não adianta mais ficar discutindo isso daqui, que vai dar pano pra manga para não acontecer nada".
Segundos depois, porém, voltou ao tema e associou a resistência ao voto impresso aos atos de 8 de janeiro.
Em agosto do mesmo ano, no Senado, afirmou que "qualquer sistema eletrônico tem vulnerabilidade", mas ressalvou que não questionava resultados passados.
"Aqui no Brasil, enquanto nós não atualizarmos isso, sem nenhum questionamento sobre o que aconteceu no passado, nós vamos continuar tendo eleições, e uma parcela considerável da população vai continuar desconfiando do resultado. Então é nosso papel, nossa obrigação, garantir isso ao eleitor", disse.
Em julho de 2025, em reunião da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado, voltou à tese de que alterações no código dos equipamentos podem resultar em manipulação de resultados.
"Quem me garante que quem faz essa programação [da urna] não pode pegar três letrinhas, três números, ou uma dessas milhões de linhas e programar para, quando encerrar o processo eleitoral, quando o mesário apertar um botãozinho na máquina e encerrar o processo eleitoral, não pode pegar 10% dos votos do Esperidião Amin e passar para o Jorge Seif, para o Senado, lá em Santa Catarina? Eu acho que aconteceu? Não acho".
Em dezembro do mesmo ano, em entrevista ao podcast Flow, disse: "Eu posso achar que não tem fraude, mas na real a gente nunca vai ter um atestado ali, porque é um assunto proibido".
Em março deste ano, durante conferência conservadora no Texas, pediu monitoramento e pressão diplomática sobre o processo brasileiro e disse que venceria se "os votos forem contados corretamente".
O governo e lideranças do centrão apontam erro estratégico na declaração de terça. Integrantes do PT afirmam que o discurso acabou com a tentativa de moderação do pré-candidato à Presidência.
Pelo menos três ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) avaliam que o senador, inspirado pelo governo americano, fez uma guinada extremista ao espalhar a informação falsa. Já o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, disse a interlocutores entender que as declarações do parlamentar são menos graves do que as feitas pelo seu pai durante a campanha eleitoral de 2022.
Ao contrário do que Flávio sugere, há uma série de barreiras de segurança e procedimentos de auditoria no sistema de votação. Não há nenhum caso de fraude confirmada.
