Fala de Flávio sobre urnas impulsiona postagens de esquerda nas redes sociais
Instituto Democracia em Xeque aponta que declaração de senador a embaixadores mudou tendência sobre tema na internet
Por João Pedro Abdo/Folhapress
23/07/2026 às 17:15
Foto: Andressa Anholete/Agência Senado/Aquivo
O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ)
A declaração com dados falsos sobre as urnas feita pelo senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a embaixadores na terça-feira (21) impulsionou narrativas da esquerda em redes sociais.
É o que mostra o levantamento do Instituto DX (Democracia em Xeque), que monitorou a busca por termos relacionados ao ataque ao dispositivo de votação e postagens nas redes sobre o tema. A análise reúne dados coletados entre 15 de julho e o meio-dia da quarta-feira (22) no Facebook, no Instagram, no YouTube, no X (ex-Twitter) e no TikTok.
O período abarca tanto a divulgação de documentos com dados da CIA que comprovariam fraudes em eleições venezuelanas de 2012 quanto a repercussão da fala de Flávio, que usou o relatório difundido pelo governo de Donald Trump para colocar as urnas na berlinda.
Com base nas informações do serviço secreto estadunidense, o senador afirmou que a empresa Smartmatic estaria envolvida em um plano de fraude na Venezuela. O presidenciável alegou que a companhia fornecia urnas no Brasil, o que é falso.
Segundo o DX, a extrema direita respondeu por 92% das publicações sobre ataques às urnas no dia 17 de julho, dia seguinte à divulgação do relatório pelo governo dos EUA, e a esquerda, por 3%.
Na quarta-feira, um dia após a declaração de Flávio, o cenário se inverteu. Postagens de esquerda sobre o tema passaram a ser maioria, representando 70% das publicações, ante 12% da extrema direita.
O monitoramento tem como base contas ligadas a atores do debate público, como políticos, influenciadores, imprensa e mídia partidária. Ao todo, a análise se baseia em 332 postagens de 222 perfis. O conteúdo é classificado como de extrema direita, de esquerda ou da imprensa.
Para distribuir em campos políticos, o instituto organiza as postagens em eixos (ou clusters) e traça um perfil de cada uma dessas categorias. No levantamento sobre ataques às urnas, foram encontrados cinco delas: "Fraude na Venezuela", "Convocação ao voto", "Repetir o pai", "Desmentir Flávio" e "Integridade do voto".
Cada divisão temática tem o seu próprio perfil político. "Os eixos se distribuem entre os campos com pouca sobreposição, o que indica territórios discursivos bem delimitados", afirma o instituto.
A extrema direita domina as categorias "Fraude na Venezuela" (86%) e "Convocação ao voto" (85%). A esquerda lidera nos eixos "Repetir o pai" (86%), e a imprensa, em "Desmentir Flávio" (52%). "Integridade do voto" fica mais divido com 53% de postagens à direita, 35% à esquerda e 12% associado à imprensa.
Segundo o relatório do instituto, a base menor, de 332 posts, permite observar como os atores organizados trataram o tema. Há, entretanto, uma ressalva: eixos com poucas publicações devem ser lidos pela direção que indicam, não pela precisão do percentual.
O maior número total de postagens ocorreu na quarta (22), com comparaçções entre os ataques de Flávio às urnas e o discurso desinformativo sobre o processo eleitoral de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Ao todo, foram 43 dos 332 posts analisados.
Os dados para esse dia foram coletados até as 12h e também refletem a divulgação das informações pela imprensa, que começou na noite da terça (21).
A reação aos documentos da CIA sobre a Venezuela se compara em números ao efeito causado pelas falas de Flávio. Em 17 de julho, dia seguinte à divulgação, 42 postagens faziam menção à possível fraude eleitoral no país.
A atuação da imprensa para desmentir as falas do presidenciável também foi capturada pela análise. Da terça (21) ao fim do monitoramento, foram 26 postagens que corrigiam o senador sobre as urnas eletrônicas entre os exemplos selecionados no levantamento.
