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Com R$ 14 bi em fundos e emendas, Centrão mira Congresso e negociará com o vencedor após a eleição

Com R$ 14 bi em fundos e emendas, Centrão mira Congresso e negociará com o vencedor após a eleição

Partidos do Centrão caminham para uma neutralidade na disputa presidencial, sem apoio nacional nem a Lula nem a Flávio Bolsonaro

Por Hugo Henud/Estadão

31/07/2026 às 18:30

Foto: Saulo Cruz/Agência Senado/Arquivo

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Plenário da Câmara dos Deputados

Partidos do Centrão caminham para uma neutralidade inédita na disputa presidencial de 2026, sem apoio nacional ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva nem ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Com cerca de R$ 2,5 bilhões em Fundos públicos de financiamento e influência sobre R$ 11,8 bilhões em emendas parlamentares, essas siglas chegam à eleição fortalecidas, com autonomia para negociar com o vencedor somente depois das urnas e concentrar esforços na ampliação de suas bancadas na Câmara dos Deputados e no Senado.

Flávio Bolsonaro chegou à convenção do PL sem o apoio dos principais partidos do Centrão. O PP anunciou em nota que permanecerá neutro e não apoiará nenhum presidenciável, posição que também deverá ser adotada pelo União Brasil, já que as duas legendas integram uma federação. A decisão se deu mesmo após a senadora Tereza Cristina sinalizar a aliados que aceitaria ser vice de Flávio. A campanha ainda tenta atrair o Republicanos, sigla à qual é filiada Daniella Marques, cotada para ocupar a vaga de vice na chapa. MDB, Podemos e Solidariedade também declararam neutralidade na disputa presidencial. Aliados de Lula, por sua vez, intensificam as negociações para conquistar o apoio de alas regionais desses partidos, mesmo sem acordos nacionais.

Para especialistas ouvidos pelo jornal O Estado de São Paulo, essa neutralidade não decorre apenas das fragilidades das duas candidaturas, como a rejeição aos presidenciáveis, o desgaste do governo e as crises que cercam a campanha de Flávio Bolsonaro. O movimento também revela o fortalecimento do Congresso nos últimos anos, impulsionado pela expansão das emendas, pelo crescimento do financiamento público aos partidos e por mudanças que ampliaram o protagonismo do Legislativo e reduziram a dependência do Centrão em relação às candidaturas presidenciais.

Integrantes dessas legendas, por sua vez, afirmam que eventuais apoios a Lula ou a Flávio ocorrerão de forma pragmática, Estado por Estado, conforme os interesses locais e a composição das chapas proporcionais. A prioridade, dizem, será a disputa pelo Congresso, já que o desempenho nas eleições para a Câmara e o Senado é o principal critério para a distribuição dos recursos públicos destinados aos partidos.

A estratégia tem efeito direto sobre o caixa das legendas e alimenta um ciclo de poder. Bancadas maiores garantem parcelas mais elevadas do Fundo Partidário, usado para manter a estrutura dos partidos, e do Fundo Eleitoral, destinado às campanhas. Em 2026, os dois mecanismos somam cerca de R$ 2,5 bilhões para essas siglas. “É por isso que os partidos têm concentrado uma parcela cada vez maior desses recursos nas campanhas para a Câmara e o Senado”, afirma o cientista político Leandro Consentino, professor do Insper. Levantamento do Estadão mostra que essa fatia passou de 39% em 2002 para 58% em 2022.

O crescimento das bancadas também amplia a influência sobre o Orçamento. Com mais deputados e senadores, os partidos reúnem mais parlamentares aptos a indicar emendas para obras, serviços e investimentos em seus redutos eleitorais. Neste ano, integrantes dessas legendas terão influência sobre cerca de R$ 11,8 bilhões em emendas individuais e coletivas. Somados aos R$ 2,5 bilhões dos fundos Partidário e Eleitoral, os recursos chegam a R$ 14,3 bilhões.

O volume de emendas parlamentares pagas cresceu 179 vezes desde 2014 e, em 2025, superou o orçamento de 30 ministérios. A expansão ocorreu depois que o Congresso tornou obrigatório o pagamento de parte desses recursos. No mesmo período, os parlamentares também ganharam força para alterar ou bloquear decisões do governo, com mudanças nas regras das medidas provisórias e dos vetos presidenciais.

Esse fortalecimento também alterou a relação dos partidos com o Executivo. Para Consentino, o apoio a um presidenciável já foi uma das principais portas de entrada para recursos, cargos e ministérios. Hoje, abastecidas pelas emendas parlamentares e pelo financiamento público, essas siglas dependem menos do governo e ganharam mais capacidade de influenciar sua agenda, tanto pela influência sobre uma parcela crescente do Orçamento quanto pelo poder de barrar ou alterar iniciativas presidenciais. “O jogo mudou, e isso fica muito claro nestas eleições”, resume.

O novo equilíbrio de forças se traduz na postura da federação União Progressista, na qual predomina a avaliação de que a candidatura de Flávio Bolsonaro reúne mais riscos do que benefícios. A cúpula nacional já pavimentou o caminho para a neutralidade. Integrantes da federação atribuem a resistência ao afastamento entre Flávio e o presidente do PP, Ciro Nogueira, agravado pelo caso Banco Master, ao temor de novas crises na campanha e às críticas à condução da pré-campanha pelo senador Rogério Marinho.

Nesse desenho, dirigentes da federação afirmam que faz mais sentido concentrar os recursos do Fundo Eleitoral nas disputas para a Câmara e o Senado e deixar o apoio à Presidência para acordos estaduais, conforme os interesses de cada palanque. Por isso, os diretórios locais deverão ter liberdade para definir suas próprias alianças. Em São Paulo, por exemplo, a federação reafirmou apoio a Flávio Bolsonaro e ao governador Tarcísio de Freitas. O Republicanos, partido do governador, porém, ainda resiste a formalizar um apoio nacional.

Apesar da dificuldade de atrair essas siglas desde o início da disputa, o líder da oposição na Câmara, Cabo Gilberto Silva (PL-PB), avalia que parte delas poderá declarar apoio a Flávio ao longo da campanha, especialmente em um eventual segundo turno. A mesma expectativa existe no entorno do senador, que aposta em uma aproximação gradual com a federação União Progressista e mantém o Republicanos no radar. Integrantes da campanha afirmam que as negociações continuarão até a realização das convenções dessas siglas.

A liberação dos diretórios estaduais também abre espaço para que o PT costure alianças regionais com partidos que permanecem neutros na disputa nacional. O vice-líder do governo Lula no Congresso, Lindbergh Farias (PT-RJ), afirma que o PT tem conseguido “rachar” o Centrão ao conquistar o apoio de alas dessas siglas nos Estados. No Amapá e na Paraíba, por exemplo, Lula estará ao lado de candidatos do União Brasil e do PP, respectivamente. No Pará e em Alagoas, contará com nomes do MDB.

A postura das siglas marca uma mudança em relação às eleições anteriores.

Levantamento do jornal O Estado de São Paulo com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral mostra que, desde a redemocratização, ao menos um dos principais partidos do Centrão apoiou um candidato competitivo ao Planalto ou lançou um nome próprio na disputa. Em 2022, por exemplo, PP e Republicanos estiveram com Jair Bolsonaro, enquanto União Brasil e MDB concorreram à Presidência com Soraya Thronicke e Simone Tebet, respectivamente.

Para o professor do IDP-SP, Vinícius Alves, a neutralidade simultânea dessas siglas indica uma mudança mais duradoura na formação das coalizões presidenciais. “Estar ligado a um presidenciável desde a coligação, ser um ‘parceiro de primeira hora’, costumava trazer alguma vantagem na composição do gabinete presidencial em relação a aliados que chegaram tardiamente”, afirma.

Com maior autonomia financeira e política, explica, os partidos ganham condições de adiar a escolha, negociar diretamente com o vencedor e transferir para depois das urnas uma parcela cada vez maior da montagem da base do próximo governo. “A eleição de 2026 pode influenciar a reconfiguração das articulações em torno da corrida presidencial e o próprio futuro do sistema partidário brasileiro”, completa.

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