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Avanço de facções e letalidade levam Porto Seguro ao 4º lugar em mortes violentas
Avanço de facções e letalidade levam Porto Seguro ao 4º lugar em mortes violentas
Bahia concentra 5 das 10 cidades com mais assassinatos; disputa entre facções avança no extremo sul
Por João Pedro Pitombo/Folhapress
23/07/2026 às 11:15
Foto: Divulgação
Imagem aérea de Porto Seguro
Porto Seguro registrou um verão histórico entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026, atraindo cerca de um milhão de visitantes, segundo estimativas da prefeitura.
Mas a cidade, que é um dos destinos turísticos mais badalados do país, com hotéis de alto padrão e até superlotação de jatinhos nas pistas de pouso durante o verão, também viu crescer a criminalidade. Em 2025, se tornou a quarta cidade com maior taxa de mortes violentas do país.
Os dados são do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que apontam que Porto Seguro registrou no ano passado 71,2 mortes violentas a cada 100 mil moradores.
O cenário é semelhante em outras cidades do extremo-sul da Bahia. Eunápolis, que tem 120 mil moradores e fica a 64 quilômetros de Porto Seguro, foi a segunda cidade mais violenta do Brasil no mesmo período, com 85,1 mortes por cada 100 mil habitantes.
O levantamento abrange as cidades brasileiras com mais de 100 mil moradores e inclui homicídios dolosos, lesões corporais seguidas de morte, roubo seguido de morte, feminicídios e mortes decorrentes de intervenção policial.
Ao todo, 5 das 10 cidades mais violentas do Brasil entre os municípios com mais de 100 mil habitantes estão na Bahia. Além de Eunápolis e Porto Seguro, estão na lista Simões Filho, Jequié e Juazeiro.
A Bahia registrou queda de 9,6% nas mortes violentas em 2025, na comparação com 2024. Contudo, segue proporcionalmente como o segundo estado do país com mais assassinatos, e o primeiro em números absolutos. Esse cenário faz da segurança o principal desafio da gestão Jerônimo Rodrigues (PT).
O Estado contabiliza 21 facções criminosas, sendo as principais o CV (Comando Vermelho), o TCP (Terceiro Comando Puro) e BDM (Bonde do Maluco), além de grupos com atuação mais local.
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública da Bahia afirmou que o fortalecimento da doutrina do policiamento orientado pela inteligência garantiu reduções consecutivas das mortes violentas na Bahia nos anos de 2023, 2024 e 2025.
Também destacou que houve investimento de R$ 1,3 bilhão em novas estruturas, viaturas, armamentos e equipamentos de inteligência, além da contratação de 11 mil novos policiais, peritos e bombeiros.
Sobre o avanço da violência na região de Porto Seguro e Eunápolis, a secretaria apontou ações como a criação do Comando de Policiamento da Região Extremo Sul da PM, da Diretoria Regional da Polícia Civil, além de uma Base de Inteligência que integra Forças Estaduais e Federais.
A localização estratégica explica o avanço do crime organizado no extremo-sul do estado. Além de ter um aeroporto internacional, Porto Seguro é cortada pela BR-367 e está conectada ao porto de Ilhéus, a cerca de 300 quilômetros, uma rota potencial para o escoamento de drogas para o exterior.
"O Brasil tem uma posição estratégica no narcotráfico transnacional de cocaína. O país se tornou um hub logístico importante, tanto pelo grande mercado consumidor quanto pela distribuição para outros mercados, como Europa, Ásia e África", afirma David Marques, gerente de programas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Ele destaca que a proximidade com estruturas logísticas favorece a atuação das facções: "Portos, aeroportos e rodovias ajudam a entender esse processo de territorialização. No caso de Porto Seguro e de outras cidades litorâneas, essa infraestrutura ajuda a explicar a disputa entre grupos criminosos", diz.
O fluxo de visitantes nacionais e estrangeiros também é citado como fator que favorece o mercado de drogas no varejo. O turismo representa 70% da economia de Porto Seguro, que possui 181 mil habitantes. A violência na região também é potencializada por conflitos fundiários.
Outro fator que influencia no problema foi a chegada do Comando Vermelho na Bahia há seis anos, incorporando a facção local Comando da Paz. Isso gerou uma disputa por territórios no estado, chegando até mesmo pequenos vilarejos como Caraíva, distrito de Porto Seguro que foi alvo de operações da polícia.
O avanço das mortes violentas também foi puxado pela letalidade policial. Porto Seguro e Eunápolis foram, respectivamente, a primeira e a segunda cidades do país com número de mortes decorrentes de intervenção policial a cada cem mil habitantes no ano passado.
Em Porto Seguro, das 130 mortes violentas registradas, 49 foram causadas por policiais, o que equivale a 45% do total. Em Eunápolis, foram 36 mortes causadas por policiais de um total de 103.
A Bahia segue na liderança, em números absolutos, das mortes decorrentes de intervenção policial. Foram 1.570 casos em 2025, mais do que os 1.556 registrados no ano anterior.
Em 2024, ano em que iniciou a implantação de câmeras corporais em suas tropas, a Bahia havia revertido a curva ascendente de mortes por intervenção policial, registrando uma queda de 8,5% em comparação com 2023.
Em outubro de 2025, o governo da Bahia publicou um plano com diretrizes para redução da letalidade policial. O objetivo é reduzir em 10% por semestre os indicadores de mortes decorrentes de ações policiais ao longo de três anos.
O plano integra o programa Bahia pela Paz, principal programa do governo voltado para a prevenção da violência, e é resultado de dois anos de planejamento e negociação envolvendo os três poderes.
David Marques, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, defende uma estratégia de combate à violência que vá além das operações policiais pontuais de combate ao controle territorial armado.
"O mercado da cocaína movimenta bilhões de dólares. O Estado precisa ser mais inteligente do que a criminalidade e asfixiar financeiramente essas organizações. É preciso uma mudança profunda no modelo de política pública para enfrentar esse problema", conclui.
