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Após críticas de Milei a Lula, compare PIB, inflação e desemprego de Brasil e Argentina
Após críticas de Milei a Lula, compare PIB, inflação e desemprego de Brasil e Argentina
Por Douglas Gavras/Folhapress
29/07/2026 às 08:55
Foto: Reprodução/Arquivo/Instagram
Javier Milei
Javier Milei não chegou ao poder na Argentina graças à sua ponderação, mas a participação do presidente na convenção do PL para oficializar a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência no fim de semana surpreendeu até apoiadores do ultraliberal, que reprovaram as declarações sobre o presidente Lula (PT) e as críticas à economia brasileira.
O argentino disse que "o Brasil caminha para uma crise de dívida derivada do fato de que Lula não fez o ajuste fiscal que a situação exigia, e agora está piorando para ter chances de vencer", acrescentando que "o esbanjamento, cedo ou tarde, se paga, e esperemos que pague aquele que o causou, perdendo nas urnas em outubro".
Na segunda-feira (27), o ministro da Fazenda, Dario Durigan, rebateu as críticas do presidente argentino, chamando-o de "palhaço" e argumentando que a economia brasileira vai melhor que a do vizinho.
"O risco país da Argentina é muito mais alto, a dívida pública é muito mais alta, a inflação lá é muito mais alta", disse, em uma entrevista.
As comparações de indicadores são imperfeitas, pois são resultados de medições distintas. A cesta de produtos e itens usada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) para medir o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), por exemplo, tem mais de 370 itens. Já o Indec argentino não atualiza a sua forma de medição há mais de duas décadas.
Uma tentativa de modernizar a medição foi barrada pelo governo argentino no início deste ano e terminou com a renúncia do presidente do instituto.
Com posições distintas sobre o papel do Estado na economia, os governos de Lula e Milei têm menos de um ano de diferença: o brasileiro foi eleito em 2022 e passou a governar em janeiro de 2023, sucedendo Jair Bolsonaro (PL). O atual presidente da Argentina venceu as eleições em 2023 e tomou posse em dezembro do mesmo ano, substituindo o impopular Alberto Fernández.
Veja, a seguir, uma comparação de indicadores dos países vizinhos.
CRESCIMENTO DO PIB
O PIB anual do Brasil desacelerou no terceiro ano do atual mandato de Lula, crescendo 2,3% em 2025. Em um cenário de juros altos para controlar a inflação, o crescimento contrastou com os dois resultados anteriores na casa de 3%, com a volta do petista ao Planalto.
Economistas esperam uma desaceleração gradual da economia ao longo do ano de 2026, devido à política monetária restritiva e a possíveis choques externos, como a alta no preço do petróleo.
Na Argentina, a economia teve um crescimento mais expressivo que a brasileira em 2025 (de 4,4%), mas vindo de duas quedas consecutivas, em 2023 (-1,6%) e 2024 (-1,7%).
O crescimento do PIB argentino foi impulsionado pelo consumo privado, após dois anos do duro ajuste fiscal de Milei, mas economistas veem sinais de estagnação em 2026, dada a dificuldade que o governo tem tido para atrair grandes investimentos.
Em valores constantes, o PIB brasileiro sob Lula cresceu 5,6% de 2023 a 2025, segundo o Banco Mundial. Com Milei, o PIB da Argentina avançou 4,37% de 2024 a 2025.
INFLAÇÃO
A inflação do Brasil tem tido anos seguidos de desaceleração. Em 2025, o IPCA foi de 4,26%, abaixo da meta de 4,5% do Banco Central. Essa foi a menor inflação anual desde 2018, quando foi de 3,75%. Já no primeiro semestre de 2026, a inflação acumulada foi de 3,36%, a maior para o período desde 2022, quando chegou a 5,49%, o que é motivo de preocupação por parte dos analistas.
Milei chegou ao poder com a missão de controlar a inflação. Após explodir em 2023, também impulsionada pela desvalorização do peso argentino e corte de subsídios feitos pelo presidente, a inflação na Argentina em 2025 foi a mais baixa desde 2017.
No último semestre, o indicador acumula alta de 16,8% e vem de três baixas mensais consecutivas, ficando em 1,9% em junho —no Brasil, o IPCA de junho foi de 0,16%.
A inflação acumulada desde que Milei assumiu o poder até o primeiro semestre deste ano é de cerca de 235%, ou seja, os preços mais do que triplicaram; no caso de Lula, ela está próxima dos 15%.
DESEMPREGO
A taxa de desemprego do Brasil caiu para 5,1% no trimestre encerrado em dezembro de 2025, e a média anual de 2025 ficou em 5,6%. Esses números são os mais baixos da série histórica iniciada em 2012, de acordo com dados do IBGE, ainda que se discuta que o mercado de trabalho dê sinais de estagnação. No trimestre encerrado em maio, a taxa era de 5,6%.
A queda no desemprego ocorre mesmo com juros altos que visam controlar a inflação. A Argentina passa pelo movimento contrário, com a taxa de desemprego tendo subido para 7,5% no fim de 2025, o maior nível desde 2020. Os economistas locais alertam para uma deterioração na qualidade do emprego, no momento em que o país aprovou uma dura reforma das regras trabalhistas.
PIB PER CAPITA
Enquanto o PIB é um indicador que mostra o valor agregado gerado por um país, o PIB per capita reflete a relação entre a renda e a população, sendo um dos dados que ajudam a mostrar o padrão de vida.
O PIB per capita argentino é maior, mas em 2025, ele ficou abaixo do pico de 2011 (de US$ 27,8 mil ante US$ 29,4 mil, em valores constantes e com Paridade do Poder de Compra).
Analistas apontam que o país vive duas décadas perdidas e está entre os poucos da região com PIB per capita menor do que em 2011. No Brasil, desde 2022 o indicador cresceu de US$ 18,7 mil para US$ 20 mil, segundo o Banco Mundial.
DÍVIDA PÚBLICA
Segundo os critérios do FMI (Fundo Monetário Internacional), que incluem títulos públicos que o Banco Central retém em sua carteira, a dívida bruta do Brasil ultrapassou o patamar de 90% do PIB em 2025, enquanto o vizinho está na casa dos 80%.
Já pela ótica dos BCs dos dois países, Brasil e Argentina estavam em patamares semelhantes (de 78,7% e 78,4% do PIB, respectivamente) no ano passado.
Em ambos os critérios, a diferença é a trajetória nos últimos anos. A do Brasil é ascendente e um ponto de preocupação. Em 2025, a dívida bruta teve o terceiro ano seguido de aumento, crescendo de 7 a 9 pontos percentuais desde o retorno de Lula.
Na Argentina, sob o choque feito por Milei, a dívida caiu US$ 17,3 bilhões desde o início de seu mandato, quando consideradas as obrigações com organizações privadas, as do Banco Central e a acumulação de reservas.
Ainda assim, enquanto as notas de crédito globais do Brasil pelas agências de classificação (Moody's, S&P e Fitch) estão a um ou dois passos do chamado grau de investimento, a Argentina sob Milei fica até cinco passos distante do selo de bom pagador, apesar de o país ter recebido uma elevação recentemente.
INVESTIMENTO ESTRANGEIRO DIRETO
A chegada de Milei ao poder e o início de seu ciclo de profundos cortes de gastos foram recebidos com entusiasmo pelo capital estrangeiro, que também se empolgou com as promessas de facilitação de investimentos em exploração de recursos naturais, sobretudo petróleo e gás.
O investimento na Argentina cresceu no primeiro ano de governo, mas regrediu em 2025. Apesar dos esforços de estabelecer um regime de atração de recursos, sobretudo para a mineração, eles atingiram uma mínima histórica. Isso reflete a dificuldade de Milei em construir um ambiente de negócios atraente para o capital de longo prazo.
No mesmo ano, segundo a OCDE, o Brasil foi o terceiro principal destino de investimento estrangeiro (US$ 77 bilhões), enquanto a Argentina ficou em último lugar na região (US$ 3,1 bilhões).
