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Anvisa mantém proibição a Ypê e determina plano para a devolução gradual dos produtos vendidos
Anvisa mantém proibição a Ypê e determina plano para a devolução gradual dos produtos vendidos
Fabricante terá de apresentar plano de recolhimento escalonado; medida atinge produtos de fábrica de Amparo
Por Mateus Vargas/Folhapress
15/05/2026 às 13:20
Foto: Divulgação/Arquivo
Detergentes Ypê
A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) decidiu nesta sexta-feira (15) manter o veto ao uso, venda e fabricação de detergentes, sabão líquido e desinfetantes da Ypê que têm lote terminando com o número 1. Os produtos são feitos em Amparo (SP).
A agência orienta que a população guarde os produtos e espere orientação da Ypê sobre o recolhimento dos lotes. A agência decidiu flexibilizar a ordem de retirada dos itens que já foram vendidos. A Ypê irá apresentar um plano de mitigação de riscos e de recolhimento escalonado.
A fabricante começou a reembolsar clientes que entraram em contato com o SAC (Serviço de Atendimento ao Consumidor), sem exigência de nota fiscal.
O presidente da Anvisa, Leandro Safatle disse que se mantém a "inequívoca configuração de risco sanitário elevado, associado a falhas sistêmicas de boas práticas de fabricação" da empresa.
A Anvisa ainda julgará, em outra reunião, o mérito do recurso da Ypê. O debate desta sexta (15) se limitou à retirada de uma suspensão automática das restrições que ocorre quando o recurso é apresentado.
"A adoção de um plano escalonado de recolhimento previamente autorizado pela autoridade sanitária permite não apenas maior controle como assegura que medidas sejam conduzidas de forma organizada, transparente e efetiva", disse Safatle.
Durante a votação, Safatle afirmou que a inspeção feita no fim de abril localizou "deficiências estruturais e operacionais" e incapacidade da empresa de cumprir regras da Anvisa. O conjunto das evidências mostram comprometimento sistêmico", em vez de "desvios pontuais", afirmou.
O presidente da Anvisa disse que a Ypê foi alvo de medidas em 2008, 2024, 2025 e 2026 envolvendo possíveis falhas de controle de qualidade de lotes da empresa.
"Não é a primeira vez que a Anvisa adota medidas contra a empresa. Demonstra que a agência atua de forma contínua e preventiva sempre que identifica possíveis riscos à saúde da população".
Safatle disse que o contato com a bactéria Pseudomonas aeruginosa pode causar infecções na pele, nos olhos e nos sistemas urinário e respiratório, "especialmente em pessoas mais vulneráveis".
Ainda disse que lotes contaminados não foram devidamente notificados e separados pela empresa. A agência diz que localizou mais de 140 lotes contaminados em estoque.
No recurso à Anvisa, a empresa disse que os lotes não foram distribuídos e que as situações foram pontuais. Defendeu ainda que não haveria razão para caracterizar "risco iminente à saúde".
A Anvisa também detectou deficiência no sistema de água da empresa, "transformando em potencial fonte contínua de contaminação", segundo Safatle.
No último dia 7, a Anvisa determinou o recolhimento de detergente, sabão líquido para roupas e desinfetante da marca com a numeração final 1 de lote, que são fabricados em Amparo, a 130 km de São Paulo. A agência ainda suspendeu a fabricação dos produtos sob argumento de que havia falhas no controle de qualidade.
A interdição dos lotes se tornou munição para campanha movida por líderes e militantes bolsonaristas em defesa da Ypê, com divulgação de teorias fantasiosas e ataques à direção da Anvisa.
A Ypê conseguiu suspender as medidas restritivas após ter entrado com o recurso administrativo, mas a própria fabricante paralisou a produção para fazer ajustes na fábrica. A Química Amparo, dona da marca Ypê, propôs um plano de ação com 241 ações corretivas após a fiscalização.
Durante a reunião desta sexta-feira (15), a Ypê pediu o adiamento do julgamento. "O que se busca é assegurar prazo necessário para avanço das tratativas", afirmou o advogado Omar José Amazonas, representando a empresa.
O advogado afirmou que a Ypê não concorda com ataques à agência. "Na internet, todo mundo se esconde atrás dela e fala o que quer. A Ypê não concorda com isso."
"A Ypê, apesar do efeito suspensivo, parou a operação fabril. E isso por si só diz bastante coisa", disse o advogado. Amazonas firmou que a determinação da Anvisa foi ampla, atingindo 400 mil unidades.
Durante a reunião, o diretor Daniel Meirelles, que comanda a área de fiscalização, disse que "o problema não se restringe a lotes específicos, mas revela um comprometimento estrutural do sistema de controle sanitário".
"Embora se reconheça a relevância econômica e social da empresa recorrente, sua expressiva atuação no mercado e sua significativa contribuição para a geração de empregos, tais fatores não podem se sobrepor ao dever institucional de proteção da saúde pública", disse Meirelles.
As inspeções sanitárias feitas em Amparo em 2025 e 2026 foram desdobramentos de denúncias apresentadas à Anvisa e à Senacom pela multinacional anglo-holandesa Unilever, dona de marcas como Omo, Comfort e Cif.
As acusações afirmam que testes feitos pela Unilever nos produtos da concorrente detectaram a presença de uma bactéria identificada como Pseudomonas aeruginosa. A Anvisa diz que a presença da bactéria foi confirmada por análises laboratoriais contratadas pela própria Ypê.
Em dezembro de 2025, após a primeira ordem para recolher lotes de lava roupas líquido da marca, a Química Amparo, dona da marca Ypê, apresentou à Anvisa um plano de reestruturação do parque fabril para tentar atender às exigências sanitárias.
Em reunião feita em abril do ano seguinte, a empresa disse à agência que o plano envolveria investimentos de até R$ 110 mil. Após a interdição dos lotes, as medidas foram reformuladas, e a Ypê estima que irá desembolsar cerca de R$ 130 milhões.
Além da reforma, a Ypê tem argumentado à Anvisa e para a Senacon (Secretaria Nacional do Consumidor) que eventual presença da bactéria "não necessariamente representa a periculosidade do produto".
A Anvisa, porém, afirmou também à Senacon que localizou localizado "fragilidades sistêmicas" na fábrica de Amparo durante a inspeção feita em abril. As falhas representam "situação de alto risco sanitário relevante em razão da potencial exposição da população consumidora a produtos com desvio de qualidade microbiológica", disse a agência, que também informou havia 142 lotes de produtos nos estoques da Ypê com análises microbiológicas insatisfatórias.
