/

Home

/

Noticias

/

Brasil

/

Tebet diz que 'cansaço' com Lula deve ficar para depois da eleição e nega ser vice de Haddad

Tebet diz que 'cansaço' com Lula deve ficar para depois da eleição e nega ser vice de Haddad

Pré-candidata ao Senado por SP, ela afirma que é 'zero' a chance de ser vice na chapa de Fernando Haddad ao governo

Por Mônica Bergamo/Folhapress

28/04/2026 às 21:20

Atualizado em 28/04/2026 às 21:18

Foto: Lula Marques/Agência Brasil/Arquivo

Imagem de Tebet diz que 'cansaço' com Lula deve ficar para depois da eleição e nega ser vice de Haddad

A ex-ministra do Planejamento Simone Tebet

Ex-ministra do Planejamento de Lula, Simone Tebet, 56, desembarcou de mala e cuia em São Paulo para se lançar candidata ao Senado.

Natural do Mato Grosso do Sul, onde desenvolveu carreira política, ela afirma que não se sente uma forasteira, lembrando que SP é uma terra de imigrantes que acolhe brasileiros de todos os lugares.

Afirma que, como candidata em São Paulo, terá o papel de mostrar que Lula, se reeleito, seguirá governando com uma frente ampla de forças políticas —tanto é que a convidou para ser candidata, mesmo sabendo que ela pensa diferente dele e do PT.

Tebet se diz mais liberal e fiscalista que Lula e Fernando Haddad, que será candidato ao governo de SP pela mesma chapa, afirma que o MST já foi irresponsável, mas hoje mostra maturidade, diz que Flávio Bolsonaro, o principal adversário do PT na corrida presidencial, só tem a anistia do próprio pai para apresentar como proposta ao país, e afirma que Lula, apesar de visto como um líder de esquerda, é de centro e tem políticas de direita para o agronegócio e o latifúndio.

Diz ainda que um suposto 'cansaço' do eleitorado com o presidente deve ser deixado para depois das eleições, já que hoje ele é o líder mais forte para "derrotar a extrema direita no país".

A senhora está desembarcando como candidata em São Paulo. Afinal, a que cargo vai concorrer? Vai ser candidata a vice na chapa de Fernando Haddad? Vai ser senadora?

Sou pré-candidata ao Senado Federal. O convite que me foi feito para ingressar no PSB e ser pré-candidata em São Paulo foi para um único cargo. Não há nenhuma possibilidade de disputar qualquer outro cargo, pelo menos na eleição de 2026.

Há notícias de que o PT está testando o seu nome para ser vice de Haddad, e estão também colocados, para o Senado, os nomes de Marina Silva e do ex-governador Márcio França. A chance de a senhora ser vice é mesmo zero?

Zero chance de ser vice. Eu primeiro preciso entender qual é o meu papel. Nós estamos falando do maior colégio eleitoral do Brasil e da economia que dita a velocidade com que o país cresce, se a 80 km/hora ou a 120/km por hora.

São Paulo é estratégico eleitoralmente também. Numa disputa tão acirrada como a que se avizinha, é importante o governo e a campanha do presidente Lula mostrarem que este foi, e será, um governo centro, de frente ampla.

Eu quero dialogar com os eleitores indecisos. Com quem pensa diferente. Eu venho [disputar o Senado por São Paulo] como alguém que pensa diferente e que visa ampliar horizontes. Que vai dizer com o que concorda e com o que discorda em relação à própria candidatura do PT.

E em que a senhora pensa tão diferente, depois de quatro anos integrando o governo de Lula?

Aquilo que me assemelha ao que pensa o presidente Lula é infinitamente maior do que aquilo que me separa: a defesa da democracia, da soberania, dos valores, dos avanços em políticas públicas e dos direitos humanos. Agora, obviamente eu sou mais fiscalista e mais liberal na economia.

Mais do que o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad?

Eu acredito que sim. Eu me dei muito bem com ele porque Haddad tem a visão do mundo real, sabe a diferença entre o que gostaríamos que fosse e o que é possível fazer, ainda mais depois de quatro anos [de governo de Jair Bolsonaro] em que nós tivemos desarranjos políticos e econômicos de toda ordem.

Ele tem o senso de realidade do Brasil tão diverso, tão desigual, em que você faz o ajuste daquilo que é possível.

O PT já conseguiu eleger senadores em SP, mas é sempre derrotado para o governo de Estado. Como vê esse cenário?

Quando o presidente Lula conversou comigo [sobre a possibilidade de disputar o Senado por SP], ele disse: "Você teve uma votação surpreendente [como candidata a presidente em 2022] em São Paulo. Você dialoga com o público feminino, com o público do interior, do agro".

E o Estado de fato acolheu as minhas ideias. Um terço dos meus votos [para presidente] vieram daqui.

O Edinho [Silva, presidente do PT], baseado em pesquisas, me disse: "O seu é o perfil que o eleitorado de SP tem buscado, do equilíbrio, da moderação, de alguém que represente o novo, mas com responsabilidade".

Conversei na mesma época com a [deputada federal] Tabata [Amaral, do PSB], que me convidou para entrar no partido, com o vice-presidente Geraldo Alckmin [da mesma legenda]. Ele me disse "Simone, não tem a menor possibilidade de eu ser candidato [ao Senado ou ao governo]. Pode vir [para SP] com tranquilidade.

E, afinal, qual será a chapa aqui em São Paulo? Quem será vice de Fernando Haddad, quem serão os dois candidatos ao Senado?

Já que um homem, Haddad, será candidato ao governo, eu particularmente gostaria que uma mulher fosse vice, para dialogar com o eleitorado feminino.

Eu sou candidata em uma das vagas ao Senado. A escolha para a outra vaga [de senador] envolve conversas com o PT, com a Rede, com o PSB.

Ambos [Marina Silva e Márcio França] estão absolutamente credenciados para qualquer cargo. Ambos são experimentados, têm história. Marina já foi senadora, Márcio já foi governador. Só o tempo vai dizer [a que cargo cada um deles cai vai concorrer]. Quem arriscar [cravar] um nome agora estará jogando na loteria. A escolha depende ainda de pesquisa, de conversa.

Haddad disse diversas vezes que não queria ser candidato ao governo de SP. Como agora vocês vão convencer o eleitor a votar nele?

Ele, como eu, é professor. Ele tinha um sentimento que eu já tive também, aquela sensação de dever cumprido [na política].

"Já cumpri a minha missão, vou voltar para a paixão da minha vida que é a sala de aula." Só que o professor é um ser essencialmente político. Para ser bom, ele tem que ser um abnegado. Tem que saber se doar, não pode ser egoísta. Por isso, professor não foge de missão.

Na cabeça dele, havia vários nomes que poderiam ser candidatos. Mas bastou uma conversa com o presidente Lula que ele se convenceu.

Ele era o nome mais competitivo para concorrer contra o Tarcísio. E acho que se surpreendeu com a aprovação que está tendo nas pesquisas.

Ele virou um outro Haddad. Se convenceu de que a nossa missão política ainda não se encerrou. É a luta pelo Brasil que nós queremos versus aquele que não queremos ver de novo. Isso bastou para que Haddad mudasse.

Como a senhora vai lidar com a resistência do agronegócio de SP ao PT? É real a possibilidade de uma liderança do setor ser vice de Haddad?

Realmente houve uma conversa de a [ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira] Teresa Vendramini [ser vice de Haddad]. Não sei em que grau está isso. Ela está filiada a um partido que estará conosco no palanque [o PDT].

De qualquer forma, eu e o próprio Alckmin teremos um papel importante na conversa com o interior de SP.

O agro de SP tem, digamos, horror ao MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra). Como a senhora vê essa organização, e também a rejeição do setor a ela?

Nós tivemos um MST, a meu ver, irresponsável no passado, que achava que a invasão [de terras] pela invasão resolveria alguma coisa.

No Brasil as coisas só se resolvem pela lei e pelo diálogo. O radicalismo, de esquerda ou de direita, nos afasta da democracia e do país que queremos.

Mas hoje o MST está muito mais amadurecido. É um movimento que dialoga e que conversa, que consegue sentar numa mesa de negociação e dizer "nós precisamos de uma reforma agrária".

E a senhora é a favor dela?

A reforma agrária nunca foi um problema para o agronegócio brasileiro. Mas a gente tem que fazer reforma agrária em áreas improdutivas, em áreas do próprio poder público, em áreas que sejam compradas pelo justo preço do produtor que queira vender. E tem muitos que querem vender.

E foi isso o que o governo do presidente Lula fez nos últimos tempos.

Nada na vida é oito ou oitenta. Inclusive no setor produtivo.

Eu falo pelo grande agro, que represento. O agronegócio brasileiro não coloca a maioria da comida na mesa do povo brasileiro. Nós somos exportadores de commodities, de açúcar, milho, cana, soja, celulose, carne. Quem coloca a maioria da comida na mesa do povo brasileiro, o arroz, o feijão, o hortifruti, é a agricultura familiar, que a gente tenta também auxiliar dentro do possível.

Aprovamos linhas de financiamento, de subsídios, para o grande e o pequeno. Se tem algo de nós, do agro, não podemos reclamar é dos governos do presidente Lula.

Os apoiadores de Tarcísio de Freitas não poderão dizer que a senhora é forasteira porque ele é do Rio de Janeiro. Mas, nós, jornalistas, podemos perguntar: o que a senhora, que nasceu e fez carreira no Mato Grosso do Sul, tem a ver com SP para representar os paulistas?

São Paulo é formado por quem? É o Estado que abraçou e acolheu todo mundo, o nortista, o nordestino nas grandes crises das décadas de 1980 e 1990, que vinham muitas vezes sozinhos para cá para ganhar um salário e sustentar toda a família que ficou longe.

É uma característica bonita, um exemplo para o Brasil. São Paulo não vive mais sem esse imigrante, que acabou virando paulista.

De alguma forma, São Paulo me escolheu ao me dar a votação que eu tive [para presidente] em 2022, quando as pessoas, nas ruas, me receberam com tanto carinho.

São Paulo entende o meu discurso moderado, equilibrado, de uma pessoa que é absolutamente de centro.

Eu fico muito confortável. Não me sinto uma estrangeira em SP.

Eu nasci na barranca do rio Paraná. O que me separava de SP era uma ponte. Vínhamos ao médico, fazer negócios, compras no Estado. Conheço muito o interior. Meu avô, quando veio do Líbano para o Brasil, recomeçou a vida na região de Marília. Meu marido é de Birigui. Minhas filhas estão há dez anos na cidade de São Paulo. Fiz mestrado aqui [na PUC-SP].

Por que a senhora acha que, com números positivos na economia, a aprovação do presidente Lula cai? As pessoas estão cansadas do presidente, depois de tantas décadas de sua liderança?

É um mix de questões. Saímos da eleição de 2022 com o país absolutamente dividido. Lula ganhou [de Jair Bolsonaro] por uma diferença de 1%.

Conquistar um eleitor que você não conquistou no período eleitoral é muito difícil.

Mas vai ficar muito claro na campanha deste ano que o governo do presidente Lula disparatadamente ganha do governo passado. É só comparar os números de ciência, educação, geração de emprego, melhoria da qualidade de vida. Batemos todos.

Qual foi a última vez na década em que, por três anos consecutivos, crescemos, em média, 2% ao ano? Somente no governo Lula 3. Isso é qualidade de vida.

Surgiram, porém, questões geopolíticas, o tarifaço [imposto ao Brasil pelo norte-americano Donald Trump], o endividamento das famílias.

Mas o governo Lula também incentivou o consumo.

Todo governo estimula o consumo dentro do limite do razoável, porque sem isso você não tem crescimento. Sem crescimento você não tem desenvolvimento, diminuição da desigualdade nem geração de emprego.

Andei por todas as capitais do país, mais de uma vez, para discutir nosso planejamento de médio prazo, no PPA participativo. Está muito claro para mim que a população brasileira não estava preparada para a legalização dos jogos.

As bets foram criadas no governo passado, nós apenas regulamentamos para cobrar, obviamente [impostos].

O governo não poderia proibir os jogos?

Eu sou radicalmente contra os jogos e pelo fim das bets. Mas acho que só conseguiremos proibi-los com a eleição de um novo Congresso Nacional, porque o lobby [das bets] é muito violento.

Voltando à questão do cansaço da população com a liderança de Lula: que peso isso pode ter nas eleições?

É natural um cansaço. Só que ele tem que vir daqui a pouco. Ele não pode chegar agora.

Por que?

Porque eu não consigo ver moderação do lado de lá [de Flávio Bolsonaro]. Eu não consigo ver no sobrenome Bolsonaro nenhuma moderação.

Esse cansaço [com Lula] tem, portanto, que surgir lá para a frente, porque a gente ainda está em um período em que questões anteriores à economia ainda são fundamentais.

Sem democracia e sem soberania nós não temos uma economia que avance gerando qualidade de vida para as pessoas. Frente a que retrocessos estaremos diante de uma derrota de Lula? Tudo isso vai ter que ser muito bem colocado e posicionado.

A pergunta essencial que teremos que fazer para os nossos jovens, os nossos aposentados, os nossos trabalhadores é: que Brasil vocês querem para os próximos quatro anos? Uma janela de oportunidades está se fechando. Não esperávamos que o Brasil envelheceria tão rapidamente, e antes de ficar rico como nação.

Nossos jovens não querem ter filhos. Teremos apenas uma década para fazer a diferença.

Não dá para ficarmos, nos próximos quatro anos, falando em anistia, falando em armamento, falando em coisas que não interessam à vida das pessoas. Temos que seguir avançando em políticas públicas.

É verdade que temos que ser mais rigorosos no aspecto fiscal. Mas temos que falar numa educação de qualidade, na melhoria da produtividade do trabalhador, em ciência, tecnologia, inovação e terras raras.

O que o outro lado [Flávio Bolsonaro] tem para oferecer? É um samba de uma nota só. Primeira medida: anistiar o próprio pai. Que projeto já apresentou? Privatizar as praias. Isso é projeto de país?

Como vê a possibilidade de uma direita considerada moderada em relação ao bolsonarismo, como Ronaldo Caiado ou Romeu Zema, crescer nas pesquisas?

Não é questão de ser ou não moderado. É que eu não acredito que eles vão ter a coragem de enfrentar o bolsonarismo para chegar ao segundo lugar nas pesquisas [Caiado e Zema estão atrás de Flávio Bolsonaro nas sondagens eleitorais].

Há setores, inclusive do mercado financeiro, que apostam que Haddad poderia substituir Lula na corrida presidencial. Essa hipótese existe?

Lula é o líder de oposição à extrema direita mais forte para ganhar a eleição.

Com todo o respeito e reconhecimento que tenho pelo Haddad, você não constrói uma liderança à vésperas de uma eleição. Ele poderia ser tão bem avaliado e bem cotado quanto Lula no Sudeste? Pode ser. Mas e em regiões como o Norte e o Nordeste, em que o presidente lidera com folga?

Lula é um grande comunicador, um líder nato que tem uma lista de serviços prestados e vai ter a capacidade de mostrar ao Brasil o que fará nos próximos quatro anos.

Que não me escute o PT, mas não vejo Lula como um presidente de esquerda. Eu o vejo como centro-esquerda, mas com políticas de centro e de centro-direita.

No que ele é de centro-direita?

Ele avança fortemente em demandas do agronegócio. Muito claramente, dos latifúndios. Ao mesmo tempo, não deixa de fazer as demarcações que são consideradas legítimas e de colocar um limite para que áreas indígenas não sejam invadidas. Só quem tem um pensamento de centro governa desta forma.

Comentários
Importante: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião do Política Livre
politica livre
O POLÍTICA LIVRE é o mais completo site sobre política da Bahia, que revela os bastidores da política baiana e permite uma visão completa sobre a vida política do Estado e do Brasil.
CONTATO
(71) 9-8801-0190
SIGA-NOS
© Copyright Política Livre. All Rights Reserved

Design by NVGO

Nós utilizamos cookies para aprimorar e personalizar a sua experiência em nosso site. Ao continuar navegando, você concorda em contribuir para os dados estatísticos de melhoria. Conheça nossa Política de Privacidade e consulte nossa Política de Cookies.