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Master sabotou controles para crescer, e sistema bancário ainda tenta corrigir falhas

Master sabotou controles para crescer, e sistema bancário ainda tenta corrigir falhas

Por Adriana Fernandes / Folhapress

26/04/2026 às 07:55

Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil

Imagem de Master sabotou controles para crescer, e sistema bancário ainda tenta corrigir falhas

No comando do Master, Daniel Vorcaro navegou por brechas regulatórias e falhas na fiscalização para sabotar os sistemas de controle do sistema bancário, de investigação policial e da Justiça do país.

A repercussão do caso e as descobertas mais recentes, incluindo o envolvimento de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) no escândalo, acionaram uma onda de revisão de normas na tentativa de fechar os pontos cegos da engrenagem que abriu espaço para a maior fraude bancária da história do país.

CEOs de bancos, representantes do setor, investigadores policiais e integrantes dos órgãos reguladores ouvidos para esta série da Folha na condição de anonimato avaliam que o aperto dos botões normativos está apenas começando, e que ainda há muitos caminhos a percorrer para evitar, no futuro, a repetição de novos casos Master.

Trata-se de um processo que pode demorar anos, com uma reforma mais ampla de todo o arcabouço regulatório --não só de bancos, fundos de investimento, fundos de previdência e do mercado financeiro em geral, mas também das regras de conduta de juízes, da lei da magistratura, da adoção de procedimentos para investigar ministros do STF e até do papel do TCU (Tribunal de Contas da União).

O diagnóstico é que o processo de revisão normativa, por enquanto, é paulatino e lento. Em alguns casos, é inexistente e, em outros, como a reforma do Judiciário, deve acabar ficando para depois da campanha eleitoral, enquanto as resistências às medidas também ganham forma.

Uma velocidade maior pode acontecer diante do avanço das investigações, que devem exigir respostas no curto prazo, segundo integrantes da Polícia Federal.

Enquanto o Banco Central já começou a revisar normas ligadas à garantia do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) e estuda a adoção de uma revisão mais ampla do seu arcabouço legal, a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) vive um momento de letargia, envolvida em disputas internas e um colegiado decisório desfalcado, com meses de interinidade na presidência.

O órgão regulador do mercado de capitais deixou passar ao largo da sua fiscalização o esquema de fraudes praticado pelo Master com apoio de fundos de investimento, criando somente em fevereiro passado um grupo de trabalho para buscar falhas na atuação do Master.

Apesar dos indícios de vazamento de informações de dentro do órgão diretamente para Vorcaro, que estão sendo investigados pela Polícia Federal e pela CGU (Controladoria-Geral da União), a CVM só abriu uma sindicância depois que foi procurada pela Folha.

"A CVM não havia sido formalmente comunicada, até o momento, de quaisquer indícios de vazamento de informações do órgão em favor do Sr. Daniel Vorcaro ou de representantes do Banco Master. Não havia, por consequência, procedimento interno de apuração instaurado especificamente sobre esse suposto fato", respondeu a CVM.

"Contudo, diante dessa informação, iniciaremos apuração rigorosa para identificar eventual ocorrência do vazamento, bem como nos colocamos à disposição para colaborar com as autoridades de outras esferas que estejam conduzindo ou venham a conduzir investigações correlatas", diz.

O regulador reconheceu que há pontos a aprimorar e informou que há estudos em andamento para aumento amplo da transparência na CVM em diferentes frentes. Um dos pontos de atenção no diagnóstico está relacionado aos ofícios de alerta emitidos pelas áreas de supervisão.

O BC não se manifestou e a assessoria de Vorcaro disse que a defesa está focada em fechar a delação premiada do ex-banqueiro.

INAÇÃO DO CONGRESSO

Afeito a reagir rapidamente quando um tema abala a sociedade e tem alcance nacional, o Congresso também está parado, sem dar resposta ao caso Master. Os parlamentares não aprovaram nenhuma proposta legislativa de combate às falhas que facilitaram as fraudes.

Por enquanto, a atuação do Parlamento, envolvido na aprovação de bondades eleitorais, se resumiu ao vazamento de informações do banco pelas CPIs do INSS e do Crime Organizado.

As discussões no Congresso também foram marcadas por embates com ministros do STF, após o relator do segundo colegiado, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), propor o indiciamento dos ministros Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes. O parlamentar atribui aos três magistrados crimes de responsabilidade, que poderiam fundamentar pedidos de impeachment, sem citar outros envolvidos.

As relações próximas de lideranças partidárias com o dono da Master e o ano eleitoral devem dificultar qualquer providência, admitem integrantes do Senado e da Câmara. Há também um clima de ansiedade em relação ao que chamam de "o que vem por aí" com a delação de Vorcaro e do ex-presidente do BRB (Banco de Brasília), Paulo Henrique da Costa, este último preso há duas semanas.

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), ensaiou, em março, uma tentativa de aprovação do projeto de lei que aperfeiçoa os instrumentos do BC para lidar com instituições financeiras em dificuldades para dar segurança no cenário atual de questionamentos das fragilidades do sistema. Mas a votação do projeto não avançou diante de resistências, inclusive do PT.

A PEC de autonomia financeira do BC ainda não foi aprovada e tramita entre trancos e barrancos, com resistências do próprio governo, mesmo diante do pedido de socorro do presidente do BC, Gabriel Galípolo, para que a emenda avance. Além disso, a polêmica indicação do presidente Lula (PT) do nome de Otto Lobo à presidência da CVM está parada no Senado.

No Judiciário, a resistência é ainda maior em meio à crise de imagem do STF. O ministro Flávio Dino propôs uma nova reforma do Poder Judiciário, e a iniciativa abre uma nova frente de embate com o grupo do presidente da corte, Edson Fachin, em torno de uma agenda ética e moral para a magistratura.

Regras mais rígidas de investimentos para os regimes próprios de previdência de estados e municípios, após perdas com a compra de papéis do Master, foram aprovadas rapidamente no final de 2025, mas enfrentam resistências depois que entraram em vigor em fevereiro. Entre as mudanças, está a limitação dos investimentos desses fundos a títulos públicos soberanos, a menos que atendam a padrões de governança que hoje são cumpridos por apenas 8% deles.

BANCO SINTÉTICO

É no setor bancário que as medidas parecem avançar, mesmo que em ritmo gradual. O CMN (Conselho Monetário Nacional) aprovou, na quinta-feira (23), regras para captações com garantia do FGC, ao exigir das instituições financeiras que os recursos sejam lastreados em ativos de maior qualidade.

A cúpula do BC decidiu reforçar a área de supervisão ao alocar 25% dos servidores aprovados no último concurso público em departamentos que ficam sob o guarda-chuva da diretoria de Fiscalização.

Para o CEO de um grande banco, as mudanças são bem-vindas, mas ainda insuficientes. Outro dirigente de uma instituição do setor avalia que a dimensão do caso Master provou que a pressão por mudanças para mitigar os riscos identificados, como a compra de precatórios e uso do FGC como estratégia de negócios, mostrou que a pressão tinha mérito.

A avaliação é que o BC agora finalmente se convenceu e está adotando as medidas que vinham sendo discutidas há mais de cinco anos.

Entre as novas medidas em discussão, estão a limitação para o uso da estratégia de fundos que compram outros fundos, como ocorreu no caso do Master com a Reag. No Brasil, se um banco quebrar, é possível cobrar as perdas do patrimônio pessoal do controlador do banco. Se o controlador for um fundo, no entanto, a cobrança fica limitada ao patrimônio dele, sem atingir os cotistas. Hoje, existem bancos cujos controladores são fundos.

Outra medida em estudo visa impedir que investidores com uma grande quantidade de ações de um banco não façam parte do grupo de controle. Isso aconteceu no Master, com o caso de Augusto Lima, que foi sócio de Vorcaro. Ele chegou a ter uma participação elevada do Master, mas nunca pertenceu ao grupo de controle.

A expectativa é que novas regras contenham o avanço dos chamados bancos sintéticos, como é caracterizado o Master. Esse tipo de banco capta recursos só usando a plataforma de venda de terceiros e não tem clientes diretos.

O seu cliente, na prática, é o da plataforma. Quando o banco sintético capta dinheiro, ele investe em cotas de fundo com várias camadas. Esse é um negócio mais barato de operar porque o risco é colocado na garantia do FGC. Também há intenção de se dar mais transparência à remuneração paga pelos bancos para a distribuição de venda de papéis como CDBs. No caso do Master, fala-se que ela pode ter chegado a 5%.

SEM RESPOSTAS

Passados mais de cinco meses, o caso Master avança, mas segue com muitas pontas sem respostas. Por que os nomes de políticos com relações com Vorcaro não apareceram ainda nas investigações? Os ministros do STF envolvidos no caso serão investigados?

Por que há uma reação para limitar a atuação do Coaf, a unidade de inteligência financeira responsável por receber, analisar e disseminar informações sobre transações financeiras suspeitas de lavagem de dinheiro? Até onde o ministro relator André Mendonça acompanhará sozinho a investigação e quando levará o caso para o colegiado do STF? E, por fim, onde está o dinheiro das fraudes de Vorcaro?

Linha do Tempo

28 de novembro de 2025 Justiça manda soltar Vorcaro e outros quatro investigados na 1ª fase da Operação Compliance Zero, deflagrada 10 dias antes pela PF

2 de dezembro Dias Toffoli, do STF, impõe o grau máximo de sigilo às investigações

3 de dezembro de 2025 Toffoli decide que as diligências e medidas relacionadas à investigação contra Vorcaro e Master terão que ser avaliadas por ele. A decisão foi dada após pedido da defesa do banqueiro, feito no dia 28, para levar as investigações sobre o empresário ao tribunal

9 de dezembro de 2025 Vem à tona informação pelo jornal O Globo que o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes, firmou contrato com o Master de R$ 129 milhões

9 de dezembro de 2025 O ministro do TCU Jhonathas de Jesus dá prazo de até 72 horas para o BC explicar o que levou o regulador a decidir liquidar o Master, abrindo uma guerra jurídica

24 de dezembro Toffoli determina uma acareação entre Vorcaro, Ailton de Aquino, diretor de Fiscalização do BC, e Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB

30 de dezembro Uma acareação é feita entre Vorcaro e Costa. Aquino presta depoimento, mas é dispensado da acareação. Tensão aumenta na virada do ano

31 de dezembro Folha revela que o BC acionou o MPF após identificar indícios de fraude em negócios do Master com fundos administrados pela Reag

5 de janeiro Indústria financeira se une e reforça apoio ao BC após o presidente do TCU, Vital do Rêgo, determinar a inspeção in loco da documentação do Master. Em carta aberta, 11 associações do mercado bancário e de capitais vão reiterar que depositam plena confiança no trabalho do órgão regulador

6 de janeiro de 2026 Folha revela que ativos podres do antigo banco de SC (cártulas do Besc) alimentavam esquema de fraudes do Master na Reag.

9 de janeiro de 2026 Folha revela o nome dos seis principais fundos investigados no caso Master: Astralo 95, Reag Growth 95, Hans 95, Olaf 95, Maia 95 e Anna. A partir daí, novelo das fraudes começa a vir a público, enquanto Toffoli se fecha. O nome da primeira empresa envolvida na cadeia bilionária vem à tona: Brain Realty Consultoria e Participações e tomou um empréstimo de quase meio bilhão de reais do Master

11 de janeiro de 2026 Reportagem da Folha revela que empresas de irmãos e primo de Toffoli tiveram como sócio fundo ligado a suspeitas no caso Master

14 de janeiro de 2026 PF deflagra 2ª fase da Operação Compliance Zero que mira pessoas supostamente em fraudes realizadas pelo banco Master por meio do uso de fundos de investimento. A operação foi autorizada por Toffoli, após bombardeio da imprensa com mais revelações das fraudes

15 de janeiro de 2026 BC decreta liquidação da Reag, investigada por fraudes com o Master

21 de janeiro de 2026 BC decreta liquidação do Will Bank de Vorcaro

28 de janeiro de 2026 Toffoli autoriza abertura de inquérito para apurar a rede de influenciadores que teria sido usada para descredibilizar o BC

30 de janeiro de 2026 A PF abre investigação para apurar gestão fraudulenta no BRB e da holding financeira Fictor, após novo comando do banco público entregar relatório parcial da auditoria forense

9 de fevereiro de 2026 O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, entrega ao presidente do STF, Edson Fachin, relatório de 200 páginas mostrando uma troca de mensagens entre Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel, em que ambos discutem pagamentos para a empresa Maridt, que tem o ministro entre seus sócios.

11 de fevereiro de 2026 Toffoli admite que recebeu dinheiro por ser sócio da empresa Maridt, que vendeu sua participação no resort Tayayá em 2021 para um fundo da teia do Master.

12 de fevereiro de 2026 Toffoli deixa a relatoria do caso Master após uma reunião fechada de mais de duas horas com os demais colegas do STF. André Mendonça vira novo relator do caso Master após Toffoli se afastar de investigação

4 de março de 2026 Vorcaro é preso na 3ª fase da operação Compliance Zero. Ele mantinha, segundo a PF, milícia privada com o objetivo de coagir e ameaçar seus desafetos. Há o bloqueio de R$ 22 bilhões, com o objetivo de interromper a movimentação de ativos. A operação também atingiu dois servidores do BC, Paulo Sérgio Souza e Belline Santana, além de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro

4 de março de 2026 Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, integrante da milícia de Vorcaro conhecido como Sicário, se enforca na cela da PF, após ser preso. Ele foi socorrido e levado ao hospital, onde ficou internado por dois dias. Sua morte foi confirmada em 6 de março.

6 de março de 2026 As mensagens extraídas de seu celular revelam Vorcaro com trânsito livre entre os três Poderes. Documentos obtidos pela CPMI do INSS têm forte repercussão e mostram uma rotina marcada por luxo e deslumbre. O ex-banqueiro se aproximou de autoridades da cúpula dos três Poderes e adotou postura agressiva contra adversários.

19 de março de 2026 Vorcaro assina termo de confidencialidade para iniciar delação

23 de março de 2026 A CGU abre processo contra Paulo Sergio e Belline Santana, após receber relatório
da sindicância do BC. Os dois são investigados por suspeita de facilitar os interesses do Master no órgão regulador do setor bancário e devem ser expulsos do órgão.

31 de março de 2026 BRB não divulga balanço no prazo e situação do banco se agrava

16 de abril de 2026 Paulo Henrique Costa é preso na 4ª fase da operação Compliance Zero

18 de abril de 2026 TJSP aceita pedido de recuperação judicial da Fictor. A empresa chamou atenção ao fazer, em 17 de novembro de 2025, uma proposta de compra pelo Master e servir de escudo para Vorcaro.

Este é o quinto e último capítulo de uma série sobre a derrocada do Banco Master. As reportagens tratam de episódios anteriores ao momento em que BRB chamou a atenção do mercado financeiro ao anunciar compra de fatia do banco de Daniel Vorcaro e avançam sobre detalhes revelados nas investigações sobre a maior fraude bancária da história do Brasil.

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