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Nordeste reafirma força da esquerda e mira protagonismo nacional no pós-Lula

Nordeste reafirma força da esquerda e mira protagonismo nacional no pós-Lula

Por João Pedro Pitombo, Folhapress

04/11/2026 às 14:45

Foto: Ricardo Stuckert / Divulgação/Arquivo

Imagem de Nordeste reafirma força da esquerda e mira protagonismo nacional no pós-Lula

Lula em ato de campanha na Praça da Bandeira, em Fortaleza

Eram 21h10 de 25 de outubro quando o Tribunal Superior Eleitoral confirmou a vitória do presidente Lula (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL). No quartel-general da campanha em Brasília, Rafael Fonteles e Camilo Santana sacaram seus respectivos celulares e gravaram vídeos, em festa, para as redes sociais.

Rui Costa estava na Bahia, onde horas antes abriu uma live em uma garagem de ônibus e cobrou a Prefeitura de Salvador sobre a oferta de transporte público no dia da votação. Confirmada a vitória, seguiu para a comemoração no Rio Vermelho, reduto da esquerda.

A trinca petista formada pelo governador do Piauí e pelos ex-governadores do Ceará e da Bahia reforçou a campanha de Lula no segundo turno. Agora, os três buscam ampliar a projeção nacional, em meio às articulações sobre a composição do novo governo e a sucessão do presidente.

O Nordeste manteve nas urnas seu viés lulista e deu ao presidente 24,45 milhões de votos no segundo turno ante 10,8 milhões de Flávio Bolsonaro. A mobilização nos nove estados fez com que o petista tivesse cerca de 3 milhões de votos a mais na região em comparação ao primeiro turno.

O resultado confirma a força eleitoral da esquerda na região, mas ocorre em um cenário de mudanças na representação política dos estados e no perfil de voto dos eleitores para os demais cargos.

Para o Senado, foram eleitos nomes abertamente de direita como Lahesio Bonfim (Novo-MA) e Arthur Lira (PP-AL). Na Câmara, a bancada nordestina de direita mudou de perfil: deputados alinhados ao centrão perderam espaço para nomes mais ideológicos e estridentes.

Os partidos de esquerda não serão maioria entre os governadores da região pela primeira vez desde 2006. O PT elegeu os governadores da Bahia, Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte, repetindo o feito de 2018 e 2022. Mas o PSB, que elegeu dois governadores há quatro anos, agora não terá nenhum.

O PSD saiu vencedor em Pernambuco, Maranhão e Sergipe, o PSDB vai comandar Alagoas e o PP ganhou na Paraíba. Destes, dois estavam no palanque de Lula: Lucas Ribeiro (PP), da Paraíba e Fábio Mitidieri (PSD), de Sergipe.

Raquel Lyra, reeleita em Pernambuco, Eduardo Braide vencedor no Maranhão e JHC, que vai governar Alagoas, ganharam nas urnas adotando uma estratégia de neutralidade em relação à eleição presidencial.

A fragmentação também aparece nas prioridades dos eleitores. Embora Lula tenha mantido uma vantagem expressiva na região, a identificação com o presidente e com os governos petistas divide espaço com preocupações mais imediatas, como segurança pública, inflação e preço dos alimentos.

A trajetória do caminhoneiro Jairo dos Santos, 56, caminhoneiro de Jaçanã, no interior do Rio Grande do Norte, ajuda a mostrar essas contradições.

Semanas antes do início da campanha, ele estava de passagem por Salgueiro, em Pernambuco, e decidiu ir até o canal da transposição do rio São Francisco para ver de perto a obra iniciada no primeiro governo Lula de que tanto ouvira falar.

Sua relação com o presidente é de idas e vindas. Ele votou em Lula em 2002 e 2006, mas em 2018 e 2022 foi para o outro lado do espectro ideológico e escolheu Jair Bolsonaro (PL) por seu discurso sobre segurança pública – antes de ser caminhoneiro, Jairo trabalhou com segurança privada.

Sua avaliação era que Lula tinha deixado a desejar no combate à criminalidade que Jair Bolsonaro foi melhor nessa área. Ainda assim, não cogitava votar em Flávio, indicado pelo pai para concorrer à Presidência.

"Se fosse o velho, eu votava. Mas o filho dele é fraco. Acredito que Lula vai levar esta eleição e deve ser com o meu voto", disse Jairo à Folha dois meses antes da eleição. Já naquela época, citava as suspeitas de corrupção como motivo para não apoiar o senador: "Não vale a pena arriscar."

Edielza Santos, 43, havia decidido abandonar o voto tradicional em Lula para apoiar Flávio. Ela mora na zona rural de Salgueiro, próximo ao eixo norte da transposição, mas sua casa segue dependente de caminhões-pipa.

Da porta para dentro, a vida da família prosperou. Há três anos, Edielza abriu o primeiro mercadinho da comunidade Santana, onde mantém uma funcionária e atende moradores que antes precisavam percorrer estradas empoeiradas para comprar produtos básicos.

Edielza reconhece a importância das políticas sociais e das obras dos governos petistas, mas a mudança na condição econômica também alterou sua maneira de enxergar a política. Temas como economia ganharam prioridade.

"Eu enxergo um Lula diferente, não é mais aquele Lula. Ele fez bastante coisa no passado. Mas foi no passado, já está no passado", disse.

Eleitores com Elielza levaram a um resultado no primeiro turno que assustou os aliados de Lula na região. Flávio Bolsonaro, que terminou a primeira rodada da disputa dois pontos percentuais à frente, reduziu a vantagem de Lula em 98% dos municípios nordestinos comparado ao pai em 2022.

No segundo turno, com as bases mobilizadas, Lula melhorou o desempenho e ampliou sua vantagem em relação a Flávio em 1.771 dos 1.794 municípios da região.

A votação reafirmou Lula como principal ativo eleitoral da esquerda na região. Para o próximo ciclo, a prioridade é avançar com obras e políticas públicas, manter a fidelidade dos eleitores e renovar os quadros para o pós-Lula, que vai cumprir seu último mandato como presidente.

Além de Camilo Santana, Rafael Fonteles e Rui Costa, também saiu fortalecida neste eleiçãoa governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra (PT), também cotada para ser ministra.

No cenário mais desafiador entre as principais candidaturas petistas da região, ela ajudou a eleger para o governo seu ex-secretário Cadu Xavier (PT), o Cadu de Lula, que conquistou votos até mesmo entre bolsonaristas.

Principal aposta do PSB, João Campos foi derrotado em Pernambuco, tornando mais distante o projeto de uma candidatura nacional. Por outro lado, Marília Arraes (PDT) ascende no cenário local ao ser eleita para o Senado em dobradinha com Humberto Costa (PT).

Para todos esses quadros, o desafio será ampliar a projeção e transformar a força eleitoral regional em influência nacional. Camilo Santana deve sair na frente caso seja confirmado para ocupar a Casa Civil do governo Lula.

Fonteles é cotado para o Ministério da Fazenda, mas assumir o cargo demanda um movimento ousado de renunciar ao mandato. Rui Costa deve ficar no Senado, onde Lula vai precisar de uma bancada experiente para enfrentar uma maioria de direita.

 

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