Em busca de votos, Flávio Bolsonaro promete afrouxar leis ambientais
Por João Gabriel/Folhapress
02/10/2026 às 08:43
Foto: Charles Vieira/Arquivo/Divulgação
Flávio Bolsonaro
"Vamos acabar com essas amarras ambientais." A frase é do senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, em um vídeo de campanha publicado em agosto no qual defende a exploração de terras raras no Norte do país.
Flávio tem entre suas bandeiras eleitorais críticas às leis de proteção e às operações de combate ao crime ambiental, flexibilização da proteção à floresta e defesa da exploração dos recursos naturais em locais de preservação, como terras indígenas, inclusive com a legalização do garimpo.
No mês passado, o senador disse que regras ambientais travam a construção de resorts, defendeu mineração e turismo em territórios indígenas e relativizou o aquecimento global, que classificou como eventos extremos e cíclicos.
Em abril, já em pré-campanha, prometeu não demarcar terras indígenas —repetição do compromisso assumido e cumprido por seu pai, Jair Bolsonaro (PL), preso por liderar a tentativa de golpe contra as eleições de 2022. Questionado pela Folha por meio do canal oficial para demandas de imprensa desde o último dia 22, Flávio não respondeu até a publicação deste texto.
Seu principal adversário na disputa eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) adota a defesa da questão ambiental em sua campanha. A gestão dele, no entanto, é criticada por incentivar a exploração de petróleo na Foz do Amazonas. Em agosto, o petista prometeu adotar cuidado ambiental nas atividades na costa do Amapá.
Quando o assunto é terras raras e minerais críticos, Flávio defende a exploração com investimentos de capital estrangeiro e até por indígenas. A campanha lulista associa a atividade à soberania nacional.
No seu plano de governo, Flávio não menciona os termos "mudança climática" ou "aquecimento global". Defende zerar o desmatamento até 2029, fala em fiscalização sem prejudicar o produtor, investimentos em novas economias, enxugar órgãos ambientais, exigir transparência de ONGs do setor e ampliar o saneamento.
O petista, por sua vez, menciona a emergência climática. Promete zerar o desmatamento até 2030, defende as atuais leis de proteção ambiental, o cumprimento de metas de descarbonização, investimento em novas economias e a busca por cidades mais resilientes e resistentes a desastres.
"Você tem hoje um cenário muito diferente do que aconteceu há alguns anos, em que ser acusado de destruir o meio ambiente era algo que um candidato queria evitar a qualquer custo. Hoje tem parlamentares que fazem da destruição ambiental um palanque eleitoral", afirma Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.
Guilherme Syrkis, diretor-executivo do Centro Brasil no Clima, defende aliar a fiscalização com mecanismos de desenvolvimento sustentável, o que poderia angariar apoio local.
"Em alguns lugares o Estado é percebido quase só pela multa e pela operação policial, enquanto faltam crédito e alternativas econômicas. Quando o Estado só chega para proibir, quem promete tirá-lo do caminho soa como defensor das famílias. Só que esse discurso beneficia quem tem capital para abrir grandes áreas, o crime organizado, garimpo e madeira ilegais e a grilagem", acrescenta.
"Enquanto não se chegar ao bolso das pessoas, o discurso da flexibilização vai continuar ganhando voto."
Críticas a regras se repetem em campanhas ao Congresso
Em agosto, a Assembleia do Pará aprovou uma lei que permitiu pecuaristas dentro da terra indígena Ituna-Itatá, área com presença de povos isolados.
Atualmente, a Polícia Federal e o Ministério Público Federal investigam um grupo de 300 fazendeiros agindo de forma coordenada contra os indígenas; a Justiça Federal aponta o pagamento de prêmios para "invasores armados".
Em plena campanha, políticos locais apelidaram o local de Terra Prometida, fizeram ali um ato e instalaram uma nova placa no lugar, em cima da sinalização da Funai.
A Defensoria Pública da União diz que a lei estadual deu origem a uma nova leva de invasões no território.
Nesse mesmo período, a cerca de 1.500 km dali, o deputado federal e candidato à reeleição Lucio Mosquini (PL-RO) criticava as operações de desintrusão na terra indígena Uru-Eu-Wau-Wau, que foi determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Procurado pela reportagem, ele defendeu a demarcação e "descer a porrada" em invasores e afirmou que fazendeiros com títulos de propriedade dentro dessas áreas devem ser "intocáveis".
Em Roraima, estado com as duas mais populosas terras indígenas do país (Yanomami e Raposa Serra do Sol), a defesa do garimpo criou um engarrafamento de candidaturas ao Senado.
"Por que o garimpo é ilegal? Porque nada é legal nessa Amazônia, na Amazônia não pode nada, então tudo é ilegal", disse em março Plínio Valério (PSDB), que tenta se reeleger ao Senado no Amazonas. Ele comandou a CPI das ONGs, que investiu contra organizações defensoras do meio ambiente, bandeira que ele mantém para se reeleger.
Plínio disse à Folha ser contra o garimpo das "máfias" e do "narcotráfico", mas que os "cadeados ambientais" e o lobby de ambientalistas impedem a regularização da atividade em territórios indígenas.
Em entrevista na TV, o senador e candidato à reeleição Chico Rodrigues (PSB-RR) —ex-vice-líder do governo Bolsonaro e hoje base de Lula— chamou "essa questão de garimpo" de "verdadeira paranoia dos ambientalistas".
Deputado federal mais votado pelo Rio de Janeiro em 2018, o bolsonarista Hélio Lopes (PL) transferiu seu título para Roraima em 2026 e agora quer ser senador. Uma de suas pautas é o "marco do extrativismo mineral sustentável".
Na corrida para o Senado, o hoje deputado federal Nicoletti (PL-RR) diz que a atividade, atualmente proibida, não é crime e defende sua legalização.
Também da disputa do Senado, Marcio Junqueira (PSDB) concorre como "o maior defensor da não demarcação" de terras indígenas.
A Folha também procurou todos os outros candidatos citados na reportagem, por meio de suas equipes de comunicação e mensagens para seus números profissionais.
