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Campanha é a menos engajada desde a volta da democracia, indicam eleitores e analistas

Campanha é a menos engajada desde a volta da democracia, indicam eleitores e analistas

Por Fabio Victor, Folhapress

02/10/2026 às 13:12

Foto: Divulgação/Arquivo

Imagem de Campanha é a menos engajada desde a volta da democracia, indicam eleitores e analistas

Em pesquisas qualitativas, votantes expressam cansaço e 'ressaca' das disputas de 2018 e 2022

Pesquisadora e consultora de campanhas há 12 anos, a cientista política Carolina de Paula percebeu na atual disputa uma mudança significativa nos eleitores dos grupos focais de pesquisas qualitativas que conduz. "Um certo ranço, uma certa preguiça, uma espécie de ressaca das eleições de 2018 e 2022", afirma.

"Não gosto de usar a palavra apatia, pois é um conceito muito ligado a indiferença, uma pessoa que não está nem aí com nada. Sinto que esse eleitor de hoje já se importou muito, em 18 e 22 houve um envolvimento grande, e tem uma parcela que ainda se importa, mas é como se ele tivesse cansado mesmo. Já teve aquele momento de engajamento e agora não quer se envolver mais."

Ao conduzir centenas de "qualis" (jargão para pesquisas com grupos de eleitores) nesta campanha, Carolina percebeu o mesmo traço em diferentes estratos. "Em classe, idade, gênero, região, existe essa sensação em todos os perfis", diz ela, doutora em ciência política pelo Iesp/Uerj (Instituto de Estudos Sociais e Políticos/Universidade Estadual do Rio de Janeiro).

Seria a campanha que chega à reta final do primeiro turno a mais chocha desde a redemocratização? Às evidências de que sim verificadas pelas "qualis", somam-se outros elementos, além da observação empírica de analistas e estudiosos. "Tive a sorte de acompanhar as nove eleições presidenciais realizadas entre 1989 e 2022. Não me lembro de uma em que as pessoas conversassem tão pouco sobre política, nem de uma campanha de rua tão desanimada. Sinto que muita gente tem preferido mudar de assunto quando a conversa ruma para as eleições", escreveu o cientista político Jairo Nicolau em sua newsletter.

À reportagem, Nicolau –professor e pesquisador do CPDOC/FGV– comentou possíveis causas dessa falta de interesse. Uma delas, diz, seria que Lula não entusiasma os lulistas tanto quanto em outras eleições, e Flávio Bolsonaro não mobiliza paixões como seu pai.

Ele observa ainda que muitos dos maiores partidos optaram por não lançar candidatos a presidente, priorizando usar as verbas do fundo partidário em candidaturas proporcionais, já que, com a cláusula de desempenho, é preciso eleger um número mínimo de deputados para ter acesso a recursos públicos e tempo de TV. "A gente tem uma eleição com uma oferta de candidatos muito pobre. O eleitorado não tem muitas opções."

O encurtamento das campanhas e a redução do tempo de propaganda de rádio e TV, às vezes apontados como causa de desengajamento, não são considerados por Nicolau porque não vêm de hoje, mas da minirreforma eleitoral de 2015.

Luciana Chong, diretora do Datafolha, concorda que a atual campanha é a menos mobilizada do passado recente do país. "Não lembro de uma eleição com um assunto paralelo de tão grande repercussão como agora –a crise do STF e o escândalo do Banco Master–, o que acaba contribuindo para esse desânimo. Divulgamos uma pesquisa recente sobre a perda de confiança nas instituições. Acho que, com tudo isso, as pessoas deixaram de pensar nas eleições."

Numa campanha em que não houve debate envolvendo todos os principais candidatos, também chamou a atenção a escassez (e mornidão) dos eventos de rua –com exceções na reta final, sobretudo alguns comícios de Lula no Nordeste.

Emerson Urizzi Cervi, professor de ciência política da UFPR (Universidade Federal do Paraná), opina que a explicação para a falta de mobilização em campanhas costuma estar na oposição, e que Flávio Bolsonaro não foi capaz de apresentar propostas, priorizando atacar Lula. "Isso funciona até certo ponto, é pregar para convertidos. A oposição não conseguiu esquentar a campanha."

Assim como Luciana Chong, Cervi aponta a queda acentuada no número de candidatos (30% a menos que em 2022, sobretudo concorrentes a deputado) como outro fator de menor mobilização. "É menos estímulo para o eleitor que não é militante ir à urna, porque muitos só votam para presidente porque têm um deputado em quem votar."

O professor da UFPR aposta que o enfado da campanha deve se refletir na ampliação da abstenção, mas não na de brancos e nulos. "O eleitor brasileiro mudou a forma de se relacionar com abstenção, percebeu que não participar não precisa ser votar nulo ou branco, pode ser simplesmente não ir votar."

Jairo Nicolau arrisca que o chamado "não voto" virá de outra fonte. "Nenhuma pesquisa consegue estimar abstenção. Mas, intuitivamente, acho que é mais provável a gente ter um crescimento maior de brancos e nulos, sobretudo de voto nulo, que na última eleição foi muito baixo."

 

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