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Campanha de Lula vai apostar em medo de fim de programas sociais para aumentar rejeição a Flávio
Campanha de Lula vai apostar em medo de fim de programas sociais para aumentar rejeição a Flávio
Presidente da República foi cobrado por mais ênfase nas falas sobre segurança pública
Por Catia Seabra/Caio Spechoto/Mariana Brasil/Folhapress
06/10/2026 às 12:35
Atualizado em 06/10/2026 às 12:21
Foto: Ricardo Stuckert/Divulgação
O presidente Lula (PT) durante reunião com aliados em Brasília
A campanha de reeleição do presidente Lula (PT) vai investir no medo de perda de programas sociais na tentativa de reverter a liderança de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), seu adversário no segundo turno.
Segundo relatos, o próprio presidente orientou os aliados a alertarem os beneficiários para o risco de redução desses benefícios, além da desvinculação do valor das aposentadorias dos reajustes do salário mínimo.
Lula disse, de acordo com aliados, que a população dá como garantida a manutenção desses benefícios, sem saber do risco de redução.
A partir dessa recomendação do presidente, a campanha vai realçar que há, da parte do adversário, compromissos com reformas que devem interromper ações sociais e que os adversários só conseguirão o que prometeram para o mercado se fizerem cortes em programas.
O mesmo discurso será levado aos aposentados. Eles deverão ser advertidos de que existe a possibilidade de desvinculação do valor das aposentadorias ao salário mínimo. Os trabalhadores também deverão ser lembrados que, durante o governo Bolsonaro, não houve ganho real do valor.
O raciocínio expresso à reportagem por aliados de Lula foi o de que a população dá como já incorporados os benefícios sociais criados pelas gestões petistas. Por isso, o PT já não seria recompensado eleitoralmente por essas conquistas. Nesse raciocínio, seria necessário mostrar que só o atual presidente garante a manutenção desses programas.
A ideia apareceu na segunda-feira (5), em reunião de Lula com dezenas de aliados para reorganizar a campanha após ter terminado o primeiro turno atrás de Flávio. Uma parte do encontro, com discurso de Lula, foi transmitida na internet —a ideia era que o petista fizesse uma fala rápida a tempo de seus recados serem reproduzidos nos telejornais noturnos. As falas dos aliados, bem como outras intervenções do presidente, não tiveram transmissão.
Questionados sobre essa campanha do medo, aliados do presidente argumentam que existe o risco real de perda de benefícios e que ex-governadores presentes à reunião lembraram ter havido essa redução durante a gestão de Bolsonaro.
Em um trecho de seu discurso aberto, Lula tangenciou a retórica do medo. "Nós temos que ter muito cuidado, porque toda vez, nesse país, que se fala em dureza fiscal, o que está em jogo é a política de inclusão social. Não é tirar o benefício dos ricos, é tirar o benefício dos pobres", declarou.
Na reunião, o presidente da República foi cobrado por falas mais incisivas sobre segurança pública. A ideia é mostrar que Flávio Bolsonaro promete elevar penas e reformas da legislação, mas o governo de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), não investiu nas polícias, por haver uma preferência pelas seguranças privadas e facilitação da venda de armas.
A cobrança por mais ênfase na área de segurança partiu de governadores petistas, e o presidente afirmou que compreendia a necessidade de reformular o discurso nessa área. A cobrança e a concordância do presidente foram entendidas como uma crítica indireta ao ministro da Secom (Secretaria de Comunicação Social), Sidônio Palmeira, principal formulador da linha de comunicação do chefe do governo.
Segundo relatos, o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, falou diretamente a Sidônio sobre isso. Após reconhecer falhas na comunicação, Lula disse que não tinha assistido aos programas produzidos no primeiro turno. Mas que, daqui para frente, quer assistir às suas propagandas eleitorais e opinar sobre elas antes da exibição no horário eleitoral.
Além disso, o presidente disse que falará mais às rádios. Ao ouvir sugestões para realização de lives direcionadas ao eleitorado local, Lula disse que não deixará de ter contato com o povo nas ruas. Apesar disso, há a expectativa de que o presidente amplie sua presença em redes sociais.
Houve críticas à coordenação da campanha, sob a responsabilidade do presidente do PT, Edinho Silva. Na reunião, a ex-ministra Simone Tebet (PSB), derrotada na corrida pelo Senado em São Paulo, disse que continua à espera de orientação para a campanha no estado, hoje um dos alvos de preocupação dos petistas.
Governadores afirmaram que vão trabalhar pela ampliação dos votos de Lula em seus estados, independentemente do comando da campanha. A líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), disse que não era o momento de buscar culpados, mas que era necessário afinar mais o comando da campanha junto às coordenações estaduais, por exemplo.
Aliados vinham pedindo um pulso mais firme, do presidente ou de alguém indicado por ele, para unificar os discursos de campanha. A área da comunicação ao longo do primeiro turno teve três, às vezes quatro, núcleos diferentes, cada um com seus métodos.
O chefe do governo também buscou aumentar o ânimo de seus aliados, abalado depois de a apuração do primeiro turno terminar com 47% dos votos válidos para Flávio Bolsonaro e 45% para Lula.
A reunião da segunda foi importante nesse sentido porque teve a participação de lulistas que venceram suas eleições. Lula acompanhou a apuração no domingo em São Paulo, cercado principalmente de aliados paulistas que tinham acabado de ser derrotados.
Neste segundo momento da campanha, a equipe petista estabeleceu com seus aliados nos estados estratégias específicas para cada região, replicando fórmulas que consideraram bem-sucedidas em candidaturas estaduais.
Um dos principais objetivos da campanha petista é reduzir as abstenções de eleitores, principalmente as registradas na região Nordeste, reduto onde Lula teve melhor desempenho e onde aliados veem maior margem de crescimento.
Na linha de mitigar as abstenções, está o foco no público idoso, que já vinha sendo alvo da campanha. O objetivo é reforçar o estímulo para que aqueles com mais de 70 anos, que já não têm obrigatoriedade de votar, compareçam às urnas.
Durante a reunião, a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ), que perdeu a disputa ao Senado, levou a Lula a dificuldade que idosos tiveram ao votar no Rio de Janeiro, com mudanças em seções, por exemplo. Segundo a parlamentar, entraves como esse levaram a longas filas de espera para a população idosa e culminaram na desistência de várias pessoas.
Uma mudança que ocorrerá em relação ao primeiro momento da campanha é a intenção de Lula de, agora, comparecer a debates televisivos —aliados defendiam que ele participasse de pelo menos um no primeiro turno. Para eles, o atual momento vai exigir a disputa cara a cara contra Flávio para que o presidente consiga uma virada na eleição. Nas palavras de um aliado do petista, a eleição seria agora uma "disputa de CPFs".
