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Estudos do Conselho da Fiesp, chefiado por Campos Neto, embasam propostas de Flávio Bolsonaro
Estudos do Conselho da Fiesp, chefiado por Campos Neto, embasam propostas de Flávio Bolsonaro
Por Luany Galdeano e Adriana Fernandes, Folhapress
14/09/2026 às 13:25
Foto: Divulgação/Arquivo
Prédio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo
Estudos do Conselho Superior de Economia da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), que reúne ex-membros do governo de Jair Bolsonaro (PL), vão embasar propostas de política econômica do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL).
Assessora econômica da campanha de Flávio, Daniella Marques integra o conselho, presidido por Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central durante o governo Jair Bolsonaro.
Daniella Marques, que é próxima de Campos Neto, já disse publicamente que vai ouvir as contribuições técnicas de entidades, como a Fiesp. Nos bastidores, ela tem ressaltado a diversos interlocutores a importância dos estudos do Conselho Superior da Fiesp para o plano de governo de Flávio.
Sob a atual presidência de Paulo Skaf, a entidade passou a contar com ex-integrantes do governo Jair Bolsonaro em seus quadros. Além de Campos Neto e Daniella, a ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina e o senador —hoje candidato ao governo do Paraná— Sérgio Moro também integram conselhos setoriais da entidade empresarial.
Skaf já sinalizou em outras ocasiões ter proximidade com Flávio e sua família, tendo apoiado publicamente a reeleição de Jair Bolsonaro à presidência em 2022. Nas manifestações do dia 7 de setembro deste ano, na avenida Paulista, o prédio da Fiesp estava coberto por uma imagem da bandeira do Brasil.
O Conselho Superior de Economia conta ainda com outros ex-diretores do BC, que atuaram durante a gestão de Campos Neto, como Bruno Serra, Fernanda Guardado e Fabio Kanczuk.
Campos Neto não pode prestar ajuda oficialmente à campanha de Flávio por ser vice-chairman e diretor global de políticas públicas da Nubank. O compliance da empresa restringe posicionamento político das chefias.
Mas o ex-presidente do BC pode desenvolver, no âmbito do Fiesp, estudos que podem ser adotados pelos presidenciáveis.
Em nota, a assessoria de Campos Neto afirma que ele não tem nenhum tipo de colaboração com candidaturas políticas, nem integra projetos para composições de governo. "A participação do ex-presidente do Conselho Superior de Economia é atinente à elaboração de estudos técnicos, de distribuição pública e acessíveis à sociedade em geral."
Em agosto, durante reunião com a diretoria da Fiesp, Campos Neto afirmou que o Brasil precisa dar sinais de credibilidade institucional com uma mensagem mais clara de compromisso com ajuste fiscal, diante de uma dívida bruta próxima a 82% do PIB (Produto Interno Bruto).
O discurso do ex-presidente do BC está alinhado ao de Daniella Marques.
Ela tem repetido o modelo adotado pelo ex-ministro da Economia Paulo Guedes nas eleições de 2018, vencida por Jair Bolsonaro, de reunir grupos de economistas para discutir propostas, mesmo sem ligação direta com a campanha.
Boa parte deles depois integrou a equipe de Guedes no Ministério da Economia ou na presidência de estatais. Campos Neto fez parte dos grupos de debates e depois foi indicado para presidir o BC.
Em entrevista ao programa C-Level, da Folha, Daniella criticou a alta da dívida pública do governo Lula e fez menção a estudos feitos no âmbito da Fiesp que podem orientar a campanha de Flávio.
"Uma trava de relação dívida/PIB que pode ser escalonada ou não, mas está sendo estudada. E vai ser dialogado na via política", afirmou. "Teria uma parte do ajuste feito pela própria curva de juros. Uma vez que se retoma a credibilidade e os agentes antecipam, tem uma inflexão da curva. Alguns estudos discutidos no Conselho Econômico da Fiesp apontam que um corte de 1,5% do PIB gera um ajuste na curva da ordem de 2,5%."
Desde o início oficial da campanha para as eleições, em 16 de agosto, Flávio foi o único candidato à Presidência recebido na reunião de diretores da Fiesp, que costuma incluir convidados especiais. O encontro com o senador ocorreu em 25 de agosto, com quórum elevado de empresários da indústria.
O também candidato Ronaldo Caiado (PSD) e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) já participaram da reunião, mas antes do início da campanha.
O evento com Flávio recebeu destaque nas redes sociais de Paulo Skaf, que deu espaço à fala do senador sobre retomar a capacidade de investimento no setor privado.
"O que ouvi hoje de setores dos mais variados é a necessidade de fazer um governo com responsabilidade fiscal para que o Brasil retome a capacidade de investimento", afirmou Flávio Bolsonaro no encontro.
Procurada, a assessoria da Fiesp afirmou que a entidade é apartidária e "que todos os candidatos que a procurarem para ouvir sugestões e dialogar sobre o país serão bem recebidos". A entidade também diz não haver estudo em curso para ser entregue aos candidatos. A assessoria não respondeu se outros presidenciáveis serão chamados para a reunião de diretores.
Pouco antes de começar a campanha, em 6 de agosto, Daniella Marques foi a principal participante do evento Summit Mulheres nas Profissões, da Fiesp, sobre integração da presença feminina no mercado de trabalho. Ela segue também se reunindo no conselho de economia.
Outro convidado à reunião de diretoria foi Tarcísio de Freitas (Republicanos), candidato à reeleição para o governo de São Paulo. No evento, em 10 de agosto, Skaf elogiou o incumbente. "O governador está sempre preocupado com o estado de São Paulo", disse.
Já o candidato do PT ao cargo, o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, não aparece entre os convidados recentes da Fiesp para uma reunião de diretoria. Interlocutores da campanha de Haddad consultados pela reportagem afirmam que não tiveram oportunidade de diálogo com a atual gestão e que não têm ciência de ter recebido nenhum convite para participar do encontro com Skaf e outros diretores da entidade.
