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Votos nulos e brancos caem com acirramento da polarização entre Lula e Bolsonaro
Votos nulos e brancos caem com acirramento da polarização entre Lula e Bolsonaro
Redução de votos inválidos em 2022 ocorreu para todos os cargos que estarão em disputa mais uma vez em 2026
Por Italo Nogueira/João Pedro Pitombo/Catarina Scortecci/Folhapress
02/08/2026 às 07:20
Atualizado em 02/08/2026 às 10:24
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/Arquivo
Urna eletrônica
Após uma tendência de alta desde 2002, os votos nulos e brancos caíram significativamente em 2022 para todos os cargos em disputa naquele ano. O movimento ocorreu em meio à eleição presidencial mais acirrada desde a redemocratização, entre o presidente Lula (PT) e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Especialistas apontam o acirramento da polarização como uma das hipóteses para a redução na invalidação dos votos. Não há, porém, clareza sobre como o eleitorado deve se comportar no pleito deste ano.
O percentual de votos inválidos para presidente, no segundo turno, caiu de 9,6% em 2018 para 4,6% em 2022, o menor desde a adoção integral das urnas eletrônicas nas eleições federais, em 2002.
"A literatura destaca que eleições muito competitivas, não necessariamente com polarização, mas em que as pesquisas mostram uma pequena margem de vantagem para um ou outro, aumentam a importância relativa do voto, o que motiva os eleitores a escolher um candidato. O fato de ter sido uma eleição muito competitiva e polarizada é possivelmente o que explica essa diferença [queda de votos inválidos]", afirma o cientista Julian Borba, da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).
A cientista política Luciana Santana, da UFAL (Universidade Federal de Alagoas), afirma que a polarização na eleição presidencial pode ter se refletido nas escolhas para deputado federal, estadual e distrital, senador e governador, que também apresentaram redução em votos em branco e nulos.
Ela diz que o aumento da força do Legislativo, tendo como principal símbolo o surgimento das emendas parlamentares impositivas, também é uma hipótese que pode ter contribuído para a queda dos votos inválidos para o Congresso.
"Quando tem um Legislativo mais forte e atuante, ele fica mais visível e as pessoas começam a dar mais importância. Essa alteração de relação de força entre Executivo e Legislativo pode ter contribuído para ter menos votos inválidos nas urnas", diz.
Desconsiderados em conjunto para o resultado das eleições, os votos nulo e branco podem ser sintomas de fenômenos distintos, apontam estudos recentes.
Especialistas afirmam que, no período em que o pleito ocorria em cédulas de papel, o voto nulo era mais associado ao protesto de eleitores, que por vezes escreviam nomes fictícios nos papéis. No Rio de Janeiro, ficou conhecida a votação em massa em 1988 no macaco Tião, símio do zoológico da cidade.
O voto branco, por sua vez, era explicado pela dificuldade de eleitores com baixo nível educacional em lidar com as cédulas de votação.
Pesquisas apontam que esse cenário se inverteu parcialmente com as urnas eletrônicas, universalizadas em 2002. A principal hipótese é que parte dos votos nulos para presidente decorra de erro de eleitores menos instruídos na hora de votar.
Essa possibilidade foi levantada pelos cientistas políticos Jairo Nicolau e Cesar Zucco, em razão da alta identificada nos votos de legenda para cargos proporcionais após a adoção das urnas eletrônicas.
A suspeita é que pessoas menos instruídas digitavam o número de seus candidatos a presidente ou governador logo no início da votação, que se inicia com a escolha dos postulantes a deputado federal. Isso levava ao registro do voto em legenda, com o número do partido, e erros nas escolhas para os cargos subsequentes (senador, governador e presidente).
Os brancos, por ter um botão específico na urna, passaram, por esta análise, a ser a manifestação mais clara de opção voluntária de não escolher nenhum candidato para aquele cargo.
Julian Borba, da UFSC, participou de uma pesquisa que buscou avaliar essa possibilidade a partir do cruzamento das taxas de votos nulos e brancos por cidade em 1994 e 2014 com os IDHs de educação e renda desses municípios nesses períodos.
"Votos nulos para presidente e votos de legenda para proporcionais podem estar majoritariamente associados a contextos de menor desenvolvimento educacional, ou seja, mais propícios ao erro dos eleitores. Votos nulos para cargos proporcionais parecem estar majoritariamente associados a contextos de maior renda e maior desenvolvimento educacional, ambientes esses mais propícios à emergência de contestação e protestos", diz o estudo, conduzido por Borba, Cíntia de Souza, da Unila (Universidade Federal da Integração Latino-Americana), Rafael da Silva, da UEM (Universidade Estadual de Maringá) e Yan Carreirão, da UFSC.
Em 2022, cerca de 25% dos eleitores que votaram nulo para governador de São Paulo digitaram o número 22 na urna. Para a campanha de Tarcísio de Freitas (Republicanos), esses eleitores queriam votar no atual governador, cuja legenda é número 10. A opção foi considerada inválida porque não havia nenhum candidato com número 22, do PL.
Jairo Nicolau, da FGV (Fundação Getulio Vargas), considera que o eleitor está cada vez mais habituado à urna eletrônica, reduzindo a possibilidade de erro. Ele destaca a dificuldade de pesquisar os votos inválidos em razão da dificuldade em identificar o perfil deste eleitor.
"A gente não tem como saber quem anula o voto em termos demográficos. Se são homens, mulheres", diz ele.
O cenário de polarização política também fez com que parcela dos eleitores que já votavam nulo decidissem se posicionar, ao menos na disputa presidencial.
Foi o caso do motorista de aplicativo Marivaldo Bittencourt, 55, que anulou os votos para todos os cargos na última eleição, exceto para a Presidência. Ele afirma ter votado no presidente Lula para marcar sua posição frente a um cenário polarizado com Jair Bolsonaro.
"Só tinha praticamente os dois candidatos e Lula é um cara que beneficiou muita gente. Não dava para não votar para presidente", afirmou o motorista, que mora e trabalha em Salvador.
Ele diz que pretende apoiar o petista novamente nas eleições deste ano, mesmo desanimado com o atual mandato. Para os demais cargos, diz que vai anular o voto.
Já Tayane Silva da Cruz, 25, estudante de direito em Curitiba, ainda tem poucas eleições na bagagem, mas é enfática ao dizer que sempre vai escolher um nome, rejeitando a possibilidade de votar em branco ou anular.
"Mesmo quando eu estava em dúvida, eu preferi votar e escolher alguém. Acho importante. E, quando a competição está acirrada, acho mais importante ainda", diz ela.
Mas a estudante ainda não decidiu em quem deve votar nas eleições de outubro e garante que a polarização não a pressiona. "Eu estou aberta. Quando começa o período da campanha, gosto de assistir debates, ver as posições deles. Só aí eu decido", explica Tayane.
