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Pela primeira vez em 10 eleições, só um candidato a presidente terá alianças com outros partidos
Pela primeira vez em 10 eleições, só um candidato a presidente terá alianças com outros partidos
Por Raphael Di Cunto, Folhapress
06/08/2026 às 14:25
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil/Arquivo
O presidente Lula (PT)
A falta de alianças em torno de Flávio Bolsonaro (PL), principal adversário de Lula (PT), criará uma situação inédita nesta eleição: será a primeira desde a redemocratização em que apenas um candidato terá apoios para além do seu próprio partido, enquanto os demais estão isolados.
Nas outras nove eleições presidenciais desde 1989, pelo menos dois candidatos tinham alianças com outros partidos. O maior número foi em 2018, na primeira eleição após a operação Lava Jato, quando oito concorrentes tiveram coligações.
Neste ano, Lula concorrerá em aliança com sete legendas, o que lhe garantirá o maior tempo de propaganda eleitoral na TV e no rádio. Terá o apoio de PSB e PDT, além das federações PT/PCdoB/PV e PSOL/Rede. Flávio contará apenas com o PL e ficará com 20% menos publicidade do que o petista nos canais oficiais.
Até esta quarta-feira (5), 13 candidaturas à Presidência foram anunciadas, das quais 12 com um único partido na cabeça de chapa e vice. O prazo final das convenções partidárias acabou na quarta, mas o registro pode ocorrer até o dia 15, o que permite que composições sejam feitas entre os candidatos.
Autor do levantamento sobre as candidaturas presidenciais, o cientista político Murilo Medeiros, da UNB (Universidade de Brasília), afirma que o cenário inédito tem como um dos motivos o deslocamento do eixo de poder do Executivo para o Legislativo, com o fortalecimento das emendas parlamentares e dos fundos eleitoral e partidário baseado no resultado da eleição para o Congresso.
"Os partidos tornaram-se menos dependentes da eleição presidencial para garantir sua sobrevivência política e financeira. Em vez de investir antecipadamente em uma aliança nacional, as legendas preferem preservar sua autonomia e negociar apoio quando o resultado eleitoral estiver mais claro", disse à Folha.
Ele destaca que a política brasileira deixou de gravitar em torno da Presidência para funcionar cada vez mais sob uma lógica parlamentarizada, na qual o poder é medido sobretudo por quem chega ao Congresso com maior capacidade de influenciar, negociar e ditar a agenda.
A neutralidade na eleição presidencial também permite que cada diretório estadual dos partidos do centrão construa o palanque da forma mais competitiva para a realidade estadual como, por exemplo, alie-se a Lula no Nordeste e a Flávio Bolsonaro no Sul.
"Os partidos ganham liberdade para apoiar, em cada estado, o presidenciável que melhor contribua para eleger deputados federais, senadores e governadores, sem amarras. A prioridade passa a ser a maximização da representação parlamentar", afirmou Medeiros.
Outro motivo é a reforma eleitoral de 2017, que, desde a eleição do ano seguinte, tem diminuído gradualmente o número de partidos com representação no Congresso (e que, por consequência, têm ativos a oferecer numa coligação com outras legendas).
A reforma de 2017 impôs a cláusula de desempenho para os partidos. Aqueles que não ultrapassarem um número mínimo de votos ou de eleitos para a Câmara dos Deputados perdem direito ao fundo partidário e propaganda eleitoral na TV e rádio. Além disso, foram proibidas as coligações nas eleições de deputados e vereadores, o que dificulta que siglas menores montem chapas e elejam seus representantes.
Em 2026, apenas quatro candidatos terão direito a propaganda na TV e rádio: Lula, Flávio, Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante). Os outros, como Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão), não contam com apoio de partidos que tenham superado a cláusula de desempenho na eleição passada.
Siglas como União Brasil, PP, Republicanos, MDB e Podemos, que poderiam fornecer tempo de propaganda eleitoral para algum desses candidatos, preferiram ficar neutros nacionalmente e liberar os diretórios estaduais para quem declarem voto em quem for mais conveniente para a realidade local.
De acordo com levantamento de Medeiros, esta é a primeira vez desde 2006 que tantos partidos com representação no Congresso ficam alheios à eleição presidencial.
Naquela disputa, marcada pelo escândalo do mensalão e pela primeira reeleição de Lula, apenas sete siglas se envolverem diretamente: PT, PRB (hoje Republicanos) e PCdoB, apoiando Lula, PSDB e PFL (hoje União Brasil), com Geraldo Alckmin, e PSOL, PSTU e PCB, na chapa de Heloísa Helena.
Desta vez, só dez partidos ou federações com representação congressual vão participar diretamente da disputa, seja com um candidato, vice ou com o apoio formal a uma coligação. Há quatro anos, 16 legendas ou federações se envolveram na disputa presidencial. Em 2014 e 2018, o número foi ainda maior, com 28 partidos com representação no Congresso atuando na eleição nacional.
