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Flávio Bolsonaro terá programa para endividados e regra fiscal, diz Daniella Marques
Flávio Bolsonaro terá programa para endividados e regra fiscal, diz Daniella Marques
Assessora econômica evita detalhar cortes de gastos e afirma que isso será decidido na transição: 'Não sou Mãe Dináh'
Por Adriana Fernandes/Idiana Tomazelli/Mariana Carneiro/Folhapress
26/08/2026 às 17:15
Foto: José Cruz/Agência Brasil/Arquivo
Daniella Marques, assessora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro
O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) fará, caso eleito, um programa de renegociação de dívidas e recomposição da capacidade financeira para mais de 100 milhões de brasileiros, diz a assessora econômica da campanha para as eleições de 2026, Daniella Marques.
Ex-presidente da Caixa e braço direito de Paulo Guedes no governo Jair Bolsonaro, Marques é a primeira entrevistada da edição especial C-Level, videocast da Folha, com os coordenadores econômicos dos presidenciáveis.
Ela rejeita a comparação com o Desenrola, do governo Lula, que, segundo ela, "não funciona".
De acordo com Marques, Flávio se comprometeu a propor uma PEC para reunir representantes dos três Poderes em um conselho para uma autocontenção de gastos. Ela não quis detalhar como chegar à economia prometida de 1,5% do PIB. Em alguns momentos, subiu o tom diante de perguntas que buscavam entender como a proposta ficaria de pé.
"Quem vai fazer esse detalhamento vai ser o Congresso, é o que vai sair de lá e que vai definir. Eu não sou a Mãe Dináh", diz. "Não falaremos. A gente vai para o chão do Congresso trazer todo mundo para a mesa para cortar na carne, fazer autocontenção. Depois a gente vai discutir o que sobra".
Qual a proposta para controlar as despesas e evitar a escalada da dívida pública de forma crível? No final do governo Bolsonaro, o teto de gastos acabou flexibilizado.
Assumimos o governo com uma dívida/PIB de 75,27%, entregamos com 71,67%. O PT assumiu e, em junho de 2026, já está em quase 82%. Se não houver mudança de direção de modelo econômico, a dívida engole o PIB inteiro.
A gente está num colapso absoluto de contas públicas, o que nos levou ao maior juro real do mundo e arrastou empresas e famílias brasileiras. São mais de 6.000 empresas em recuperação judicial, extrajudicial e falência neste semestre. Na pandemia não foram nem 1.500. As famílias estão com cerca de 40% da renda comprometida em dívida.
Nosso plano econômico e o do PT têm direções opostas. Eles não veem um problema de gasto, apesar de todos verem.
O programa do PT fala em reformar o arcabouço fiscal.
Eles não citam nenhum problema de gasto. [Falam em] Manter essa regra, que é inócua. Nós, ao contrário. Não há política mais social do que controle de gastos.
A gente só não está em dominância fiscal [quando a dívida é tão grande a ponto de a política de juros do BC perder eficácia] porque a pesquisa está empatada e existe uma probabilidade relevante de haver mudança de direção na política econômica.
O Flávio Bolsonaro se comprometeu com uma PEC ainda na transição. A gente quer propor três eixos. O primeiro, criar um conselho superior da República. Não há como controlar gastos se não trouxer os três Poderes para a mesa. Essa autocontenção é absolutamente necessária.
A ideia é que se traga transparência e dados para racionalizar a decisão, mostrar que o cobertor está curto e que será necessário cortar na carne. E aí ir para o colégio de líderes negociar uma PEC que envolve a revisão desse arcabouço fiscal, para que se tenha um mecanismo de controle de trajetória da dívida/PIB.
Seria uma regra de limitação de gastos vinculada a um patamar de dívida?
Uma trava de relação dívida/PIB que pode ser escalonada ou não, mas está sendo estudada. E vai ser dialogado na via política.
O segundo pilar é um cardápio de corte de despesas focado em privilégios, regalias, fim de supersalários, corte de cargos comissionados, de ministérios. O terceiro seria ter governança e capacidade de reestruturar os ativos da União.
Aí teria uma parte do ajuste feito pela própria curva de juros. Uma vez que se retoma a credibilidade e os agentes antecipam, tem uma inflexão da curva. Alguns estudos discutidos no Conselho Econômico da Fiesp apontam que um corte de 1,5% do PIB gera um ajuste na curva da ordem de 2,5%.
Onde haveria mais corte de gastos para chegar a 1,5% do PIB?
Um país que tem 761 mil imóveis com valor contábil acima de R$ 1,5 trilhão. Um país que tem 44 estatais que chupam R$ 30 bilhões por ano. Um governo que recriou 22,5 mil cargos comissionados estando endividado. Um país onde juízes têm férias de 60 dias e mais 30 dias de recesso. Um país que se endivida à inflação mais 8,5% enquanto mais de 200 voos da FAB com um passageiro foram feitos não tem moral para discutir nenhum outro ajuste.
Enquanto a gente não enfrentar essa discussão, não existe moral de nenhum governo, da classe política para enfrentar qualquer outro tipo de discussão. Não há de se falar sobre outros ajustes enquanto não houver uma reestruturação drástica dos ativos da União. Créditos de dívida ativa, imóveis, estatais, contratos de petróleo que podem ser securitizados, contratos de recebíveis da União, e por aí vai.
Há dificuldade em detalhar esses cortes com o cenário eleitoral?
Não, nenhuma. Eu só não quero…
A gente está num debate de medidas…
Está dada a direção.
Já que a sra. falou que não tem problema fazer esse detalhamento, a gente está aqui para esclarecer o eleitor.
Eu não falei que não tem problema, eu falei que não tenho como fazer. Quem vai fazer esse detalhamento vai ser o Congresso, é o que vai sair de lá e que vai definir. Eu não sou a Mãe Dináh.
O novo governo levaria uma proposta?
Temos um vasto cardápio. Tem 300 economistas no país, mesmo os que não apoiam a nossa candidatura, que têm um consenso sobre a direção, exceto os de esquerda. Pode pegar todas as outras candidaturas, assim como economistas como Arminio Fraga, Marcos Lisboa e outros renomados, todo mundo aponta para a mesma direção.
Muitos deles defendem medidas como a desvinculação de benefícios [ao salário mínimo], desindexação [fim de aumentos automáticos].
Por isso sou otimista com a nossa candidatura.
A candidatura endossa esse tipo de proposta?
As nossas diretrizes estão dadas. Não há moral para discutir [diante de] uma casta de servidores e privilégios e aviões, viagens, férias de 60 dias e outras regalias, dando tapa na cara dos brasileiros, de vocês falarem em outras medidas. Não falaremos. A gente vai para o chão do Congresso trazer todo mundo para a mesa para cortar na carne, fazer autocontenção. Depois a gente vai discutir o que sobra.
A sra. já disse que Flávio vai manter o aumento do salário mínimo acima da inflação. O mínimo corrige a maior parte das despesas. Como conciliar com a promessa do "tesouraço"?
Eu não disse isso. Eu disse que não há moral e não há como discutir medidas que mexam na Previdência, no salário mínimo, enquanto a gente vê o dinheiro do pagador de impostos ir pelo ralo.
Então esses temas podem vir a ser alvo de discussão?
Gente, 94% do Orçamento está carimbado. Pode fechar a Esplanada [dos Ministérios] inteira, ela roda automático.
A gente queria esclarecer a questão do salário mínimo.
Já está esclarecido.
A sra. disse que o debate sobre o fim da escala 6x1 é inócuo e populista. Qual é a posição da campanha?
Ninguém é contra o fim da escala 6x1, é uma obviedade. Mais uma vez o Lula mente e não está levando [em conta] o custo de produtividade e não leva opções para que o brasileiro tenha liberdade de exercer que tipo de contratação ele quer. Falava o ministro da Fazenda [Dario Durigan] de combater a pejotização. Agora eles vão arrumar mais um jeito de taxar e botar lá, dito por ele, que se você tem até 20% contratado pejotizado não contribui, mas se tiver 80% você pode [ser cobrado], gerando outra taxação.
Eu não acho essa questão cabível em período eleitoral. Eu sou a favor da 6x1, mas sou a favor também de quem quiser trabalhar 5x2, 7x7, 3x3, 2x2. Cada um tem liberdade de ser e fazer o que quiser, o governo não tem que interferir.
A desoneração da folha foi uma promessa da campanha de 2018 que não se realizou. Qual é o plano para cortar o custo das empresas com encargos trabalhistas?
Vai ter que ser gradual. A gente vai ter que arrumar as contas, tem um trabalho que antecede. Vai ter que fazer um ajuste na reforma tributária, botar as contas no azul, e aí vai transformando o excesso de arrecadação em redução de encargos, sem retirar direitos.
O governo Lula lançou medidas de crédito subsidiado para públicos específicos: motorista de apps, MEI. Flávio manteria essas políticas?
Vai reformular. Assim como fizemos o Pronampe e o FGI, [nos quais] o governo atuou como fiador de micro e pequenas empresas, tem várias medidas sendo estudadas para que a gente seja fiador e use toda a força da Caixa, do Banco do Nordeste, do Banco da Amazônia, para fazer um grande programa de recomposição da capacidade financeira, para reorganizar usando parte do patrimônio dos próprios brasileiros como instrumento de garantia.
É um novo Desenrola?
Não, o Desenrola não funciona. Enrolou todo mundo. É uma chupeta de bateria.
Pode detalhar esse plano?
Não, o Flávio vai dar. Vai ser para mais de 100 milhões de pessoas. Uma reestruturação completa e uma recomposição da capacidade financeira, envolvendo inserção nos mercados, formalização, reestruturação de dívida. Vai ser um programa não de curto prazo. Essa é a prioridade máxima do governo Flávio Bolsonaro.
O governo Bolsonaro discutiu reunir imóveis num fundo e usar parte do dinheiro para fortalecer programas sociais. Seria isso?
Não só os imóveis. Créditos de dívida ativa, as próprias estatais, contratos de petróleo que podem ser antecipados e outros recebíveis. São mais de R$ 5 trilhões em ativos. A ideia é que um terço da realização desses ativos seja utilizado para ser um motor de ascensão das famílias.
