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'Eu disse não'; ex-comandante da FAB revela em livro bastidores da crise que levou ao 8/1

'Eu disse não'; ex-comandante da FAB revela em livro bastidores da crise que levou ao 8/1

Tenente-brigadeiro Carlos Baptista Junior narra em primeira pessoa como formou ‘trincheira antigolpista’ e resistiu às pressões para que os militares aderissem a uma ruptura institucional

Por Fausto Macedo/Felipe de Paula/Estadão

03/08/2026 às 17:30

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/Arquivo

Imagem de 'Eu disse não'; ex-comandante da FAB revela em livro bastidores da crise que levou ao 8/1

O tenente-brigadeiro Carlos Baptista Junior, ex-comandante da Aeronáutica no governo Jair Bolsonaro

O tenente-brigadeiro Carlos Baptista Junior, ex-comandante da Aeronáutica no governo Jair Bolsonaro, decidiu contar, em livro, o que viveu por dentro de um dos períodos mais delicados da história recente do país. Comandante da Força Aérea Brasileira entre abril de 2021 e janeiro de 2023, ele enfrentou uma etapa de forte tensão e uma atmosfera hostil protagonizada por Bolsonaro e a cúpula das Forças Armadas - um período em que a manutenção da ordem democrática dependeu, em parte, de decisões tomadas nos quartéis.

Em "Eu Disse Não“, que sai em setembro - publicação da Autêntica Editora -, Baptista Junior narra em primeira pessoa como formou a “trincheira antigolpista” e resistiu às pressões para que os militares aderissem a uma ruptura institucional, tentativa que teria seu desfecho nos atos golpistas do 8 de Janeiro de 2023. É a primeira vez que um integrante da alta cúpula militar daquele período expõe, em livro, os bastidores da crise.

Piloto de caça com mais de 4.500 horas de voo e quase cinco décadas de carreira na Força Aérea, que iniciou em 1975, Baptista Junior fala com a segurança e autoridade de quem esteve na sala de decisão - não como espectador, mas como um dos atores que, segundo seu próprio relato, ajudou a manter as Forças Armadas longe do rompimento.

O testemunho do oficial foi crucial nos autos da ação penal 2668, no Supremo Tribunal Federal, que impôs ao ex-presidente a pena de 27 anos e três meses de reclusão. O julgamento foi concluído em setembro do ano passado.

Baptista Junior indicou com detalhes três momentos em que a tentativa de golpe acabou frustrada. Ele confirmou encontros no Palácio da Alvorada e no Ministério da Defesa em que se discutiram medidas de exceção e os termos de uma minuta golpista - da qual se recusou a receber cópia. Contou que o general Freire Gomes, então comandante do Exército, alertou Bolsonaro de que ele seria preso se insistisse no golpe para impedir a posse de Lula.

E, ainda, revelou que o almirante Almir Garnier, então chefe da Marinha, colocou tropas da Força à disposição do plano golpista.

"Eu disse não" mostra em suas páginas que a resiliência das instituições em 2022 não foi automática, mas resultado de escolhas individuais de oficiais de alta patente em posições estratégicas.

‘Páginas muito importantes da nossa história’

“A decisão de escrever este livro consolidou-se a partir da percepção de um fenômeno social ainda mais inquietante, revelado por duas pesquisas do Instituto AtlasIntel”, disse Baptista Junior ao jornal O Estado de São Paulo.

Segundo ele, o primeiro levantamento, realizado entre 6 e 9 de janeiro de 2023 – período que compreendeu a invasão das sedes dos Três Poderes –, revelou que 39,7% da população não acreditava na vitória de Lula sobre Bolsonaro.

“Em um dado ainda mais preocupante, 36,8% dos entrevistados declararam ser favoráveis a uma intervenção militar que anulasse o resultado das eleições de 2022”, diz o oficial.

Dois anos e meio depois, destaca Baptista Junior, ao comentar uma nova pesquisa sobre a confiança da população nas instituições, o presidente do AtlasIntel, Andrei Roman, foi enfático, durante uma entrevista no programa WW, da CNN Brasil.

“Uma boa parcela da população não entende que, nas investigações sobre o golpe de Estado, na postura do Bolsonaro, na possibilidade, por exemplo, de ele ter declarado estado de sítio para, com isso, cancelar o resultado da eleição, uma boa parcela da população não entenderia isso [como] um ataque à democracia”.

Roman afirmou que o percentual dos que assim pensavam estaria em torno de 30%.

“Em suma - avalia o tenente-brigadeiro - já com a ação penal que levaria Jair Bolsonaro à condenação por golpe de Estado em sua fase final, com todos os depoimentos de testemunhas e réus já encerrados, cerca de um terço dos brasileiros ainda não interpretava que Bolsonaro se manter no poder após o dia 1.º de janeiro de 2023 seria um ataque à democracia”.

“Juntei todos esses fatos e decidi dar minha contribuição para que os acontecimentos fossem disponibilizados mais claramente a toda a população e, principalmente, às gerações futuras”, anota Baptista Junior.

“Concluí que este livro seria a melhor opção”.

O militar conta que, após 12 horas de depoimento na Polícia Federal nos autos do inquérito que culminou na ação penal 2662, conversou com dois jovens agentes federais que acompanhavam a audiência. “Ao acabar, eles me sugeriram que tudo aquilo deveria ficar registrado para as gerações futuras, como páginas muito importantes da nossa história”.

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