/

Home

/

Noticias

/

Brasil

/

Campanhas miram combate às bets de olho nas pesquisas e com discurso de proteção ao bolso do eleitor

Campanhas miram combate às bets de olho nas pesquisas e com discurso de proteção ao bolso do eleitor

Estratégia aparece em entrevistas e planos de governo de candidatos ao governo de São Paulo e à Presidência da República

Por Vinícius Valfré/Estadão

29/08/2026 às 07:40

Foto: Joédson Alves/Agência Brasil/Arquivo

Imagem de Campanhas miram combate às bets de olho nas pesquisas e com discurso de proteção ao bolso do eleitor

Site de apostas

Logo no início das campanhas eleitorais, as bets ganharam espaço nos discursos dos candidatos e capítulo nos planos de governo. A estratégia tem servido ao propósito de marcar posição diante de um fenômeno que aparece com destaque negativo em pesquisas de opinião e de confortar as inseguranças financeiras dos eleitores.

As propostas mais radicais, como a de proibição geral das casas de apostas, costumam vir desacompanhadas de explicações sobre viabilidade ou efeito prático, e por isso são consideradas populistas pelo mercado de apostas.

Mas esse tipo de postura eleitoral tem um respaldo técnico. As casas de apostas são mencionadas em pesquisas sobre o eleitorado como nocivas e fortemente associadas ao endividamento, o que obrigou o tema a ganhar prioridade na agenda dos candidatos.

Apontadas como vilãs da renda, as bets retiraram R$ 62,5 bilhões das famílias brasileiras em 2025, segundo o Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados (Comsefaz). A PF também tem feito operações que vinculam empresas a crimes como lavagem de dinheiro e sonegação fiscal. Nesta sexta-feira, 28, o Ministério Público Federal e a Receita Federal deflagraram a Operação Jogo de Sombras para desarticular um suposto esquema ligado ao grupo empresarial NSX, responsável por sites de apostas esportivas como Betnacional, Mr. Jackbet e PagBet.

As sondagens eleitorais têm indicado que não demarcar distância das empresas de apostas pode prejudicar na corrida por votos. A pesquisa Latam Pulse Brasil, elaborada pela AtlasIntel, indicou que 86,7% dos brasileiros enxergam as apostas online como nocivas à sociedade. E nesse grupo 63,2% afirmam que a atividade traz “somente prejuízos”, enquanto 23,5% entendem haver “mais prejuízos do que benefícios”.

A percepção negativa em alguma medida se converte para as campanhas. E os eleitores atribuem uma parte das responsabilidades aos candidatos. Uma pesquisa da More in Common em parceria com a Ipsos-Ipec apontou que 33% dos brasileiros acham que o governo Lula e o governo Bolsonaro são igualmente responsáveis pelo aumento das bets.

Já 18% dizem que a culpa é “mais de Lula”, contra 4% que apontam que é “mais de Bolsonaro”. A pesquisa mostrou também que 24% dos entrevistados disseram que teriam mais vontade de votar em um candidato que defende restringir bets.

Uma das conclusões da pesquisa foi a de que, do ponto de vista meramente político-eleitoral, Jair Bolsonaro (PL) acertou ao não encaminhar a regulação das bets. Uma lei de 2018, no governo de Michel Temer (MDB), legalizou as apostas online. A regulamentação só foi aprovada no governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 2023. Nesse intervalo, as bets se popularizaram sem obrigações e sem recolher impostos.

A disputa de “batata quente” apareceu na campanha de São Paulo. Candidato à reeleição ao Palácio dos Bandeirantes, Tarcísio de Freitas (Republicanos) responsabilizou o adversário, o ex-ministro Fernando Haddad (PT), pelo alastramento das bets.

“As pessoas estão endividadas, estão gastando o seu dinheirinho com as bets, que foram regulamentadas aí no governo Lula, pelo Haddad”, afirmou, em sabatina da Jovem Pan News.

Haddad devolveu a responsabilidade. “O governo Bolsonaro, do qual o atual governador Tarcísio de Freitas fazia parte, não estava nem aí pra saber o que estava acontecendo. Quem botou a mão na ‘cumbuca’ foi eu, como ministro da Fazenda. Quando eu vi o tamanho do buraco, eu já chamei de epidemia e disse: ‘é melhor proibir’. Não tem arrecadação que justifique o estrago que isso faz para a sociedade”, disse na sabatina à mesma emissora.

Para o coordenador do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV, Lauro Gonzalez, as bets entraram firme na agenda eleitoral porque se tornaram um fenômeno com tamanho impossível de ser ignorado.

Além disso, elas têm potencial de impactar a percepção geral sobre índices macroeconômicos que alcançaram patamares positivos, como crescimento real da renda e baixo desemprego.

“Uma série de analistas, eu inclusive, têm se surpreendido com o fato de os bons indicadores macroeconômicos do País não estarem apontando uma aprovação do governo maior do que a que tem. E nesse cenário duas coisas vêm à tona: superendividamento e bets. Não são a única explicação, mas minha percepção é que esses dois fatores jogam areia em dados positivos”, comentou.

Gonzalez destaca que o impacto das bets cresce em complexidade porque o endividamento é pior para as famílias com faixa de renda mais baixa. “Na baixa renda, a renda disponível é muito mais importante do que a renda bruta. E o endividamento e as bets drenam parcela da renda desse segmento”, frisou.

Todos os principais candidatos passaram a defender a proibição total ou pelo menos maiores restrições ao funcionamento das bets. A postura é criticada por representantes do mercado de empresas de apostas por classificarem a proposta como populista, que despreza possíveis efeitos negativos. Seria acabar com a oferta de serviços de empresas regulares, desconsiderando que existe uma sólida demanda, alegam.

O argumento do setor é o de que uma proibição levaria milhões de apostadores para o mercado ilegal, que não segue as regras da regulação e não recolhe impostos. Em 2025, o primeiro ano de funcionamento do mercado regulado de bets, o governo arrecadou delas cerca de R$ 9 bilhões.

O que os principais candidatos falam sobre bets

Com a proximidade do período eleitoral, o presidente Lula, candidato à reeleição, passou a subir o tom contra as bets. O petista tem defendido acabar com as empresas de apostas. “Se ninguém me mostrar uma razão social dessas bets continuarem, nós temos que acabar com elas”, disse, em entrevista no último dia 14.

O senador Flávio Bolsonaro (PL), principal concorrente de Lula, é o único que evita falar abertamente sobre o tema, mas a campanha dele defende restrições.

“Ainda não tem uma posição definida sobre a proibição total, mas tem (posição) sobre a regulamentação ser revisitada e ser realmente uma regulamentação que proteja as famílias brasileiras”, afirmou o candidato a vice, deputado Alfredo Gaspar (PL-AL). “Eu, pessoalmente, acho que nós temos que dar um freio de arrumação absoluto nisso.”

O ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) afirmou que as bets estão “empobrecendo” as pessoas. Ele não fala em proibição das empresas, mas promete “mão pesada” e duras restrições às propagandas. “As pessoas não têm dinheiro nem para cesta básica, tamanha essa dependência do jogo”, declarou durante o evento com o setor comercial, no dia 18.

O candidato Romeu Zema (Novo), ex-governador de Minas Gerais, tem afirmado que acabar com as bets será seu primeiro ato de governo, se eleito. A medida, entretanto, depende do Congresso.

“É uma praga, é um câncer que nós temos hoje dentro do Brasil”, afirmou o presidenciável, na semana passada.

O candidato Renan Santos (Missão) disse que, embora tenha sido um liberal na forma de ver a economia, pretende interferir nas bets. Ele promete

“Garanto para você, vou acabar com as bets, absolutamente todas. O brasileiro está gastando dinheiro com besteira, e essas empresas estão sendo usadas para lavar dinheiro”, disse em vídeo nas redes sociais gravado em frente a endereço da Pixbet, empresa da Paraíba alvo de operação da Polícia Federal por suspeita de evasão de divisas e lavagem de dinheiro.

Comentários
Importante: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião do Política Livre
politica livre
O POLÍTICA LIVRE é o mais completo site sobre política da Bahia, que revela os bastidores da política baiana e permite uma visão completa sobre a vida política do Estado e do Brasil.
CONTATO
(71) 9-8801-0190
SIGA-NOS
© Copyright Política Livre. All Rights Reserved

Design by NVGO

Nós utilizamos cookies para aprimorar e personalizar a sua experiência em nosso site. Ao continuar navegando, você concorda em contribuir para os dados estatísticos de melhoria. Conheça nossa Política de Privacidade e consulte nossa Política de Cookies.