A cachaça, essa brasileira que nunca precisou de passaporte, por Josias Gomes
Por Redação
11/07/2026 às 13:28
Foto: Manu Dias /GOVBA
Para os cachaceiros;
Durval Ângelo, mineiro de nascimento, produtor e cachaceiro por devoção.
Raimundo Primo, produtor de cachaça e embaixador brasileiro/baiano da cachaça.
O jornalista Henrique Rodrigues, correspondente internacional da Revista Fórum, em um de seus comentários em um vídeo postado da revista Fórum, chamou a atenção para uma curiosa contradição brasileira: o uso da palavra “cachaceiro” como ofensa política, como se a cachaça carregasse em si algum defeito moral. O insulto, segundo Henrique Rodrigues, revela mais sobre quem o pronuncia do que sobre quem é alvo dele. Por trás da expressão existe um velho preconceito de classe: aquilo que vem do povo é tratado como inferior.
E talvez não exista bebida que conheça melhor a alma brasileira do que a cachaça.
Antes de continuar esta história, faço uma confissão: como sabem aqueles que me conhecem, faço parte da grande confraria dos brasileiros apreciadores de uma boa cachaça. Sou, sim, um cachaceiro — no sentido mais nobre e mais brasileiro da palavra. Não daqueles que bebem para fugir da realidade, mas daqueles que sabem reconhecer uma boa bebida, apreciar um alambique bem cuidado, uma cachaça envelhecida em madeira nobre, uma conversa entre amigos e os momentos em que a vida pede um brinde.
Tenho orgulho de estar entre milhões de brasileiros que consomem essa bebida genuinamente nacional. E, sinceramente, prefiro uma boa cachaça brasileira, carregada de história e identidade, a um destilado estrangeiro tomado apenas como símbolo de status.
A cachaça nasceu aqui, antes mesmo de o Brasil saber que seria Brasil. Nas primeiras décadas da colonização portuguesa, nos engenhos de açúcar do Nordeste, o caldo da cana-de-açúcar encontrou o fogo dos alambiques e deu origem a uma bebida que atravessaria séculos de história. Enquanto o açúcar enriquecia senhores de engenho e movimentava o comércio colonial, a cachaça circulava entre trabalhadores, escravizados, soldados, tropeiros e gente simples que construía o país com as próprias mãos.
A cachaça nasceu no engenho, entre a fumaça da fornalha e o cheiro doce da cana moída. Foi bebida de negros escravizados que resistiam às durezas do cativeiro, de trabalhadores das lavouras, de sertanejos enfrentando a seca, de pescadores, vaqueiros e homens e mulheres anônimos que ajudaram a formar a cultura brasileira.
Mas a história tem suas ironias. A mesma elite que durante séculos lucrou com o açúcar produzido nos engenhos passou a olhar com desconfiança para a bebida que saía dos mesmos lugares. A cachaça virou “bebida de pobre”. O problema nunca foi a bebida; era quem bebia.
O preconceito contra a cachaça é uma velha mania brasileira: valorizar aquilo que vem de fora e desconfiar daquilo que nasce aqui. Um uísque escocês repousando em um copo de cristal parece símbolo de sofisticação. Uma tequila mexicana virou moda nas festas elegantes. Um vinho francês ganha aplausos antes mesmo de ser provado. Mas uma boa cachaça artesanal brasileira, envelhecida em madeira nobre, com aroma complexo e história centenária, muitas vezes ainda é recebida com um sorriso de canto de boca.
É como se o estrangeiro trouxesse automaticamente cultura e o brasileiro precisasse pedir licença para existir.
A verdade é que a cachaça não precisa disputar identidade com ninguém. Ela é filha da cana brasileira, irmã do samba, companheira das festas populares, como o forró nordestino, presença nas cozinhas de nossas avós e ingrediente fundamental de uma das maiores invenções nacionais: a caipirinha.
A própria caipirinha, hoje reconhecida mundialmente como um dos símbolos da cultura brasileira, tem uma história curiosa. Uma das versões mais conhecidas sobre sua origem relaciona a bebida ao período da gripe espanhola, que atingiu o Brasil em 1918. Segundo relatos históricos, uma mistura de cachaça, limão e mel era utilizada popularmente como uma espécie de preparado caseiro para aliviar sintomas da doença, especialmente no interior paulista.
Com o tempo, a receita foi se transformando. O mel foi substituído pelo açúcar, o gelo passou a fazer parte do preparo e aquilo que era uma mistura medicinal popular tornou-se um dos coquetéis mais conhecidos do planeta: a caipirinha.
E essa história revela algo muito brasileiro: a capacidade de transformar necessidade em criatividade. Até hoje, quando alguém aparece gripado, tossindo ou espirrando, sempre surge um parente, um amigo ou aquele conhecedor das “medicinas da vida” com a mesma recomendação: “Toma uma caipirinha que melhora”.
A ciência pode até fazer algumas ressalvas, mas a sabedoria popular continua firme. Se não cura a gripe, pelo menos ajuda a enfrentar o resfriado com mais alegria.
A cachaça já foi até personagem da política brasileira. Durante o período colonial, Portugal chegou a proibir sua produção porque ela ameaçava o mercado da aguardente portuguesa. A bebida, perseguida pelos poderosos, tornou-se também símbolo de resistência. Há quem diga que, se uma bebida sobreviveu a impostos, proibições e preconceitos por quase 500 anos, ela merece respeito.
A palavra “cachaceiro”, usada como arma de ataque, carrega esse velho preconceito. É uma tentativa de transformar uma característica popular em defeito. Como se a origem humilde fosse motivo de vergonha. Como se o Brasil verdadeiro, aquele dos trabalhadores, dos engenhos, das feiras, das festas de rua e dos sertões, fosse algo que deveria ser escondido.
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Curiosamente, muitas das pessoas que fazem esse tipo de crítica provavelmente já brindaram com bebidas caras importadas, compradas não apenas pelo sabor, mas pelo símbolo social que carregam. O problema nunca foi o álcool. O problema é o preconceito contra o copo que está na mão de quem bebe.
A cachaça, essa velha senhora brasileira, não precisa de título estrangeiro para provar seu valor. Ela atravessou o tempo, acompanhou revoltas, embalou músicas, inspirou poetas e esteve presente nos momentos de alegria e de tristeza do povo brasileiro.
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Ela não nasceu em uma adega luxuosa. Nasceu no engenho, no suor do trabalhador, no calor da terra.
Talvez seja justamente por isso que incomode tanto alguns preconceitos: porque a cachaça lembra que o Brasil também tem sabor popular.
E, quando alguém me chamar de cachaceiro, não vou me ofender. Vou apenas perguntar: você está falando daquela bebida brasileira que existe há quase quinhentos anos, que ajudou a construir nossa história, que acompanhou trabalhadores, artistas, revolucionários, que inspirou músicas e que deu ao mundo a caipirinha?
Se for essa, aceito o título com orgulho.
Porque pior do que apreciar uma boa cachaça brasileira é ter vergonha daquilo que é autenticamente nosso.
E eu, definitivamente, não tenho.
Josias Gomes, Engenheiro Agrônomo, ex-deputado Federal, devoto do Padim Ciço, atualmente Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
