Entenda a relação entre Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro em 6 pontos
Por Christian Policeno/Folhapress
17/06/2026 às 07:30
Foto: Divulgação/Arquivo
Daniel Vorcaro sendo transferido
Documentos da Polícia Federal revelaram novos vínculos entre o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. As informações fazem parte da Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de fraude financeira, corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo o conglomerado bancário.
Os documentos descrevem uma relação marcada por "elevado grau de intimidade, confiança e proximidade", com registros que vão de hospedagens em hotéis de luxo na Europa a repasses milionários.
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), também aparece nos documentos como beneficiário de hospedagens custeadas por Vorcaro. Ciro Nogueira não se manifestou sobre nenhuma das acusações até a publicação desta matéria.
1. AS HOSPEDAGENS PAGAS POR VORCARO EM LISBOA
Em junho de 2024, Vorcaro bancou as hospedagens de Ciro Nogueira e de Hugo Motta no hotel Four Seasons Ritz Lisboa. Em mensagem enviada no dia 18 de junho a um auxiliar, o ex-banqueiro informou que precisaria de reservas em Lisboa entre os dias 24 e 30, para ele próprio e "mais dois quartos para Ciro e Hugo". Foram cinco diárias em suítes júnior para cada um dos parlamentares, com custo total de aproximadamente R$ 91,3 mil por hóspede —cerca de R$ 18 mil por noite.
Questionado sobre o episódio nesta terça-feira (16), Hugo Motta disse não ver problema na hospedagem custeada pelo ex-banqueiro. "É um evento corporativo, um encontro jurídico que inclusive participei neste ano como presidente da Câmara, então não vejo problema algum", afirmou. O deputado acrescentou ter tranquilidade sobre suas relações e defendeu que as investigações possam seguir seu curso.
Ciro Nogueira, por sua vez, não se manifestou. A hospedagem em Lisboa, no entanto, não foi um episódio isolado para o senador. Ela se insere em um padrão de benefícios identificado pela PF ao longo de toda a investigação, no qual Vorcaro custeava despesas pessoais do parlamentar de forma sistemática, mantendo o nome de Ciro fora das faturas diretas.
2. O PAGAMENTO DE R$ 350 MIL EM DINHEIRO VIVO
Para além das hospedagens, a PF encontrou mensagens que indicam pagamentos em espécie ao senador. Em agosto de 2025, Vorcaro ordenou ao seu cunhado, Fabiano Zettel —operador do esquema e ex-pastor da Igreja Lagoinha —que resolvesse uma lista de pendências financeiras. Entre os itens constava o registro "Espécie Ciro 350k", identificado pelos investigadores como referência a um pagamento em dinheiro vivo.
A PF inicialmente tentou correlacionar esse pagamento a um voo de aeronave que, segundo reportagem do portal ICL, teria como destinatário Ciro Nogueira. O piloto relatou que um dos passageiros mencionou diversas vezes o nome do senador e, após o desembarque, quis saber se ele aguardava a chegada da aeronave. Posteriormente, porém, a investigação afastou a correlação temporal direta, já que o voo ocorreu em 2024, um ano antes da troca de mensagens.
Ainda assim, a PF reafirma o teor das conversas e mantém o registro como parte do conjunto de indícios que apontam para repasses irregulares ao parlamentar. A polícia diz, contudo, que não há comprovação de que o valor tenha sido efetivamente entregue a Ciro.
3. AS VIAGENS DE LUXO POR PARIS E OS ALPES FRANCESES
Os documentos apreendidos pela PF registram uma sequência de viagens internacionais custeadas por Vorcaro em benefício do senador. Em abril de 2024, de acordo com os documentos, Ciro jantou no restaurante italiano Gigi, em Paris, com conta de US$ 1.981. Mensagens mostram que Vorcaro orientou expressamente seu auxiliar para que o senador não arcasse com a despesa: "Não vai deixar eles pagarem, ok?". No mês seguinte, o senador participou do Lide Brazil Investment Forum, em Nova York, hospedado por seis noites no Park Hyatt em suíte royal, com custo total de US$ 47,7 mil.
Hugo Motta também esteve em Lisboa no mesmo período em que Vorcaro organizava as movimentações internacionais com o grupo. Embora os documentos da PF não detalhem outras viagens do presidente da Câmara custeadas pelo ex-banqueiro além da hospedagem portuguesa, sua presença no mesmo hotel e no mesmo evento reforça, segundo os investigadores, o alcance da rede de relacionamentos mantida por Vorcaro com parlamentares.
Em janeiro de 2025, os gastos chegaram aos Alpes franceses. A PF identificou despesas em Courchevel na França, estação de esqui de luxo, com R$ 63,6 mil em um restaurante e R$ 58,5 mil em outro. Registros de cartões de Vorcaro na região somam R$ 1,85 milhão, incluindo compras na grife italiana Loro Piana. No total, apenas os benefícios diretos em viagens internacionais atribuídos a Ciro somam R$ 468,7 mil, sem contar os deslocamentos em jatos particulares.
4. O EVENTO SECRETO EM LISBOA COM POLÍTICOS
O mesmo período das hospedagens em Lisboa foi marcado por um evento organizado por Vorcaro com acesso estritamente controlado. Em mensagem de áudio a um auxiliar, o ex-banqueiro foi explícito: "Pode ser o papa que não pode entrar ninguém que não esteja na lista." Ele pediu ainda que o espaço em frente ao restaurante fosse privatizado para impedir qualquer visualização externa. O encontro coincidiu com o Fórum Jurídico de Lisboa, o chamado Gilmarpalooza, capitaneado pelo ministro do STF Gilmar Mendes.
A lista de convidados confirmados por Vorcaro ao auxiliar incluía Ciro Nogueira, Hugo Motta, o ex-ministro Fábio Faria e o líder do PP na Câmara, Dr. Luizinho (RJ). O ex-banqueiro indicou que os demais convidados seriam informados posteriormente. Fábio Faria afirmou não ter viajado a Lisboa em 2024. Ciro, Motta e Luizinho não se manifestaram quando procurados.
5. A "EMENDA MASTER" E O PAPEL DE CIRO NO SENADO
A relação entre Ciro e Vorcaro não se limitou a benefícios pessoais. Em 2024, o senador apresentou no Congresso uma proposta para ampliar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura de investimentos garantidos pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos). Segundo a PF, o texto da proposta reproduzia na íntegra um documento produzido pelo próprio Banco Master — instituição que se beneficiaria diretamente da medida, pois vendia CDBs de alta remuneração usando a cobertura do FGC como atrativo para captar recursos.
Mensagens apreendidas mostram que Vorcaro acompanhava a tramitação com expectativa. Um ex-diretor jurídico do banco chegou a dizer: "Você sextuplica seu negócio. Bora." Um ex-diretor do Banco Central também disse a Vorcaro, em mensagem, que o mercado financeiro associava a emenda ao nome do ex-banqueiro e ao então presidente do BC, Roberto Campos Neto.
A proposta foi rejeitada. A assessoria de Campos Neto afirmou que ele atuou institucionalmente contra a medida desde que tomou conhecimento de sua existência, tendo determinado uma força-tarefa interna para fundamentar uma manifestação técnica contrária —na mesma linha da Febraban e do próprio FGC.
6. AS MESADAS MENSAIS E OS INDÍCIOS DE LAVAGEM DE DINHEIRO
O conjunto de benefícios identificado pela PF chega ao que os investigadores descrevem como o núcleo central da relação entre Ciro e Vorcaro: repasses milionários. Entre 2024 e 2025, o ex-banqueiro transferiu ao menos R$ 6 milhões ao senador por meio de empresas ligadas às duas famílias. Os valores começaram em R$ 300 mil mensais e chegaram a R$ 500 mil. Em troca de mensagens, o primo de Vorcaro questiona se deve "continuar os 500k ou pode ser os 300k?", sugerindo aumento nos repasses.
Os investigadores identificaram indícios de lavagem de dinheiro nessas operações. Empresas da família do senador, como a CN Motos e a CNLF Empreendimentos Imobiliários, teriam sido usadas para ocultar os recursos, com depósitos fracionados em espécie —padrão associado pela PF a tentativas de burlar mecanismos de controle financeiro.
A PF aponta indícios dos crimes de corrupção passiva, corrupção ativa, organização criminosa, lavagem de dinheiro e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. O caso segue sob relatoria do ministro André Mendonça no STF, onde nesta terça-feira (16) a Segunda Turma manteve, por maioria, as prisões do pai e do primo de Vorcaro. O ministro Gilmar Mendes foi o único a votar pela soltura dos dois, ficando vencido.
