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Frei Betto, na Feira do Livro, diz que a política e a religião não podem ser separadas

Frei Betto, na Feira do Livro, diz que a política e a religião não podem ser separadas

Por Isadora Laviola, Folhpress

31/05/2026 às 20:00

Foto: Allison Sales/Folhapress

Imagem de Frei Betto, na Feira do Livro, diz que a política e a religião não podem ser separadas

O escritor Frei Betto durante o debate 'A Perda da Inocência', no Palco da Praça, durante a Feira do Livro 2026, na praça Charles Miller, no Pacaembu, em São Paulo

Frei Betto chegou, neste domingo, ao segundo dia da Feira do Livro, em São Paulo, numa cadeira de rodas. No começo do debate com a jornalista Thais Reis Oliveira, explicou a situação culpando os "filhos" —como chama seus livros.

"Carreguei uma pilha de livros muito mais pesada do que minha coluna com hérnia de disco aguentava", contou, arrancando risos de uma plateia com leitores entusiasmados.

Um desses filhos foi tema da conversa, "O Voo da Locomotiva", sexta obra do frade sobre a Ditadura. O tema recorrente vem de experiências próprias, já que Frei Betto foi preso e torturado pelo regime.

"Passei por oito prisões diferentes, dois anos junto com presos políticos e dois com presos comuns. Vi muitas atrocidades nos dois mundos, mas entre os comuns vi algo inédito, a violência entre os próprios presos."

Ele escreve sobre o período num esforço de fazer o país que "clandestinizou" a Ditadura começar a falar sobre ela. "Se nós conhecermos esse passado, certamente haverá mais resistência em relação ao futuro."

Seus próximos rumo ao objetivo, reforça, são "reeleger Lula e renovar o congresso".

Questionado sobre como equilibra religião e política, Frei Betto respondeu que a regra de ouro é jamais "confessionalizar" o estado ou partidarizar a religião.

Apesar disso, reforça que as coisas não podem ser separadas. "Todos nós cristãos somos discípulos de um prisioneiro político. Que eu saiba, Jesus não morreu nem de hepatite, nem de desastre de camelo."

Na mesma tarde, a jornalista Beatriz Muylaert mediou uma mesa que evidenciou a diferença entre as literaturas de Natalia Timerman e Camila Appel. Ambas escrevem sobre a morte iminente de mães e guiam os respectivos "Antes que Apague" e "Enquanto Você Está Aqui" por caminhos muito distintos.

Enquanto a primeira romanceia a dor através de um livro de ficção, a segunda conta seus temores em primeira pessoa e complementa o livro com respostas práticas para pessoas próximas da morte.

Enquanto Timerman trouxe relatos mais emocionados sobre o apagamento da mãe, Appel debatou a biologia da morte e tirou risos da plateia ao listar os muitos destinos possíveis para as cinzas de um ente querido –opções que vão desde fogos de artifício a passeios pelo espaço sideral.

Outro ruído recorrente, e que rendeu risos discretos durante o debate, foi a dúvida quanto à classificação do livro de Timerman como ficção. Por vezes, Muylaert e Appel se corrigiram ao perguntar sobre vivências da narradora de "Antes que Apague" como se fossem da autora.

Coisa que Timerman pareceu levar com bom humor pois, como disse, a ficção é uma das melhores formas de dizer a verdade.

Acima disso, a mesa foi levada com o tom de cumplicidade que só é criado entre pessoas que falam sobre morte, como afirmou Appel.

 

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