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Dólar fecha em alta e Bolsa recua, com foco em negociações no Oriente Médio e facções na mira dos EUA
Dólar fecha em alta e Bolsa recua, com foco em negociações no Oriente Médio e facções na mira dos EUA
PIB do Brasil e formação da Ptax de fim de mês também afetaram negociações
Por Folhapress
29/05/2026 às 18:30
Atualizado em 29/05/2026 às 18:13
Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil/Arquivo
O dólar avançou 0,26% nesta sexta-feira (29)
O dólar avançou 0,26% nesta sexta-feira e encerrou a semana cotado a R$ 5,045, em meio a um noticiário agitado no Brasil e no exterior.
Lá fora, o foco esteve nas negociações para encerrar a guerra no Irã, que já dura mais de três meses. Aqui, investidores repercutiram a classificação do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas por parte dos Estados Unidos, bem como o resultado do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro no primeiro trimestre.
A formação da Ptax de fim de mês também afetou o câmbio: na mínima do dia, a moeda chegou a R$ 5,035; na máxima, a R$ 5,071. Calculada pelo Banco Central com base nas cotações do mercado à vista, a Ptax serve de referência para a liquidação de contratos futuros.
No fim de cada mês, agentes financeiros tentam direcioná-la a níveis mais convenientes às suas posições, sejam elas compradas (no sentido de alta das cotações) ou vendidas em dólar (no sentido de baixa).
Na Bolsa, o dia foi de perdas. O Ibovespa fechou em baixa de 0,57%, a 174.056 pontos, segundo dados preliminares.
As negociações entre Estados Unidos e Irã para encerrar a guerra continuaram como principal norteador para as decisões de investimento. Uma reportagem do portal Axios, na véspera, indicou que os países chegaram a um entendimento para estender o cessar-fogo por 60 dias, ainda que os dois lados tenham voltado a trocar ataques militares.
Segundo o site, EUA e o Irã chegaram a um acordo para estender a trégua, retomar o trafégo pelo Estreito de Hormuz e iniciar negociações sobre o programa nuclear iraniano. O novo cessar-fogo, porém, dependeria da aprovação do presidente Donald Trump.
A informação foi negada por pessoa próxima da equipe de negociação, segundo a agência iraniana Tasnim, mas confirmada por fontes ouvidas pela Reuters. Ainda na quinta, o vice-presidente norte-americano JD Vance disse a jornalistas que Washington "ainda não chegou lá" com o Irã em um acordo, mas que as partes estão próximas disso.
"É difícil dizer exatamente quando ou se o presidente vai assinar o memorando de entendimento. Estamos indo e voltando em alguns pontos de linguagem", disse Vance. "Não posso garantir que chegaremos lá, mas, no momento, estou bastante confiante."
As notícias contraditórias vêm em um momento em que o mercado já está calejado pelo vaivém das tratativas. Em Wall Street e nas praças europeias, o movimento é de alta tímida. O petróleo Brent também exibe leves perdas, com o contrato para agosto, agora o mais negociado, cotado em US$ 92.
"Os mercados seguem cautelosos devido a falsas expectativas anteriores e preferem aguardar resultados mais concretos antes de reagir a cada novo capítulo dessa longa disputa geopolítica", diz Matthew Ryan, chefe de estratégia de mercado global da Ebury.
Na ponta doméstica, foi destaque a decisão dos Estados Unidos de classificar o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas, em medida que passa a valer a partir de 5 de junho.
A decisão acontece após a visita do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, a Trump e outros membros do gabinete americano, como Marco Rubio, do Departamento do Estado, e JD Vance.
A medida traz riscos econômicos ao país. A designação ativa o mecanismo previsto na seção 219 da Lei de Imigração e Nacionalidade (Immigration and Nationality Act) dos EUA, cuja consequência mais importante é a criminalização de qualquer tipo de "suporte material" às organizações.
"E suporte material é interpretado de forma amplíssima. Inclui financiamento, logística, treinamento, serviços, consultoria, transporte e qualquer apoio econômico direto ou indireto", escreveu Welber Barral, sócio do Barral Parente Pinheiro Advogados e doutor em direito internacional pela USP.
Agentes ainda se dividem sobre os possíveis efeitos para o mercado. Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, afirma que existem riscos reputacionais em jogo, sobretudo para instituições que podem ter alguma ligação com as facções. O setor bancário na Bolsa, por exemplo, enfrenta perdas nesta sexta.
"Existem alguns grandes fundos de pensão que têm critérios ESG que excluem automaticamente qualquer país com instabilidade. Isso pode, sim, afetar diretamente países que têm organizações classificadas como terroristas, e um fluxo estrangeiro relevante pode deixar de vir para cá ou sair daqui pontualmente por conta disso", afirma Zogbi.
A medida ainda pode afetar a nota do Brasil junto a agências de classificação de risco, reduzindo a atratividade do país para investidores estrangeiros. "A tensão diplomática elevada entre Estados Unidos e Brasil, considerando os riscos de uma intervenção americana de qualquer espécie no Estado brasileiro, também aumenta o receio entre os investidores", diz Daniel Teles, sócio da Valor Investimentos.
Por outro lado, há quem veja o crime organizado na mira dos EUA como uma notícia de tiro curto, isto é, que traz volatilidade em um primeiro momento, mas que, no futuro, não tem tanta relevância.
"Macroeconomicamente falando, o mercado não está tão preocupado. O tema é mais político do que econômico e traz, sim, alguma volatilidade no curto prazo. Os bancos, por exemplo, estão sofrendo um pouco por conta dessa insegurança e por não sabermos quais serão as implicações práticas. Mas acredito que, ao longo do tempo, será um 'não-evento' para o mercado", diz Marília Fontes, sócia-fundadora da Nord Investimentos.
O foco do mercado, segundo Rodrigo Moliterno, sócio da Veedha Investimentos, ainda está na reversão da tendência do início do ano. "O estrangeiro está voltando para empresas de tecnologia e saindo do Brasil, e é isso que tem ditado mais o movimento da Bolsa. Juros altos e fiscal também afetam a atratividade", afirma.
Os investidores também repercutiram o PIB brasileiro, que avançou 1,1% no primeiro trimestre puxado pelo setor agropecuário e pelo consumo das famílias.
