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Master causou tensão do TCU ao STF e virou elefante grande demais para caber embaixo do tapete

Master causou tensão do TCU ao STF e virou elefante grande demais para caber embaixo do tapete

Por Adriana Fernandes, Lucas Marchesini e Raquel Lopes/Folhapress

18/04/2026 às 08:06

Foto: Rovena Rosa/Arquivo/Agência Brasil

Imagem de Master causou tensão do TCU ao STF e virou elefante grande demais para caber embaixo do tapete

Sede do Banco Baster

Na virada do ano, o ministro Dias Toffoli, do STF (Supremo Tribunal Federal), estava no resort Tayayá, no Paraná, para a festa de Réveillon de 2026.

Relator do caso Master na época, o ministro tinha marcado para o dia 30 de dezembro uma acareação entre o dono do banco, Daniel Vorcaro, o ex-presidente do BRB (Banco de Brasília), Paulo Henrique Costa, e o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino. Do Tayayá, ele acompanhou as tratativas para os depoimentos.

O ambiente em Brasília estava nervoso, incomum para este período do ano, diante dos desdobramentos diários do escândalo Master e do estranhamento geral com a decisão inusual do relator de convocar uma acareação antes que investigados e testemunhas tivessem prestado depoimentos individuais.

Vorcaro havia sido preso, em novembro, no dia da liquidação do Master, mas solto 10 dias depois. Com o uso de tornozeleira eletrônica, passou a comandar, do seu apartamento em São Paulo, uma ofensiva contra o Banco Central e a Polícia Federal, além de pressão a ministros da Corte que tinham ou tiveram alguma relação com ele.

Para a empreitada, tinha o apoio de um exército de escritórios de advocacia contratados para a sua defesa —todos muito bem pagos por meio de contratos milionários de prestação de serviços.

A investida envolveu também uma movimentação no TCU (Tribunal de Contas da União) e ataques coordenados com pelo menos 46 perfis em redes sociais fazendo um bombardeio digital contra o BC, bancos e investigadores no caso Master.

A prática já vinha sendo observada durante o processo de análise pelo órgão regulador da venda do Master para o BRB (Banco de Brasília), mas cresceu em meio à guerra jurídica, e levou a PF a abrir um inquérito para investigar os envolvidos.

A intenção da ação era clara para os investigadores: condenar a condução feita pelo BC, que vetou a compra do Master pelo BRB; trocar o liquidante; impedir a venda dos bens bloqueados; e conseguir a nulidade do processo de liquidação do banco para diminuir o risco de Vorcaro ser condenado, de acordo com relatos colhidos nos últimos dois meses pela reportagem da Folha com pessoas envolvidas diretamente nos episódios.

Assim como Toffoli, o relator do caso no TCU, o ministro Jhonatan de Jesus, também decretou sigilo máximo ao processo e passou a pressionar por uma inspeção no BC. Recebeu apoio do presidente do TCU, Vital do Rêgo, que defendeu a auditoria. Outros ministros da corte demonstravam em grupos reservados de WhatsApp, no entanto, desconforto com a movimentação do relator.

O decano do Tribunal, Walton Alencar, era um dos mais ativos nas ligações para os colegas. Se o relator concedesse uma medida cautelar a favor de Vorcaro —o tribunal estava em recesso de fim de ano— uma sessão extraordinária deveria ser convocada para barrar o ato.

Ligado a lideranças dos partidos do centrão, com relações conhecidas com Vorcaro, Jhonatan é hoje alvo de um pedido do subprocurador-geral do MP de Contas, Lucas Furtado, para que a sua conduta no caso seja apurada.

"As ramificações e interferências indevidas do Banco Master levam a desconfiar da própria sombra. Há muito dinheiro envolvido. Qualquer preocupação ou desconfiança pode ser justificada", diz Furtado.

Procurada nesta sexta-feira (17), a assessoria do TCU respondeu que já se manifestou sobre o tema em nota do dia 5 de janeiro, que afirma que o BC está submetido à fiscalização da Corte de Contas. A defesa de Vorcaro disse que não iria se manifestar. O BC não respondeu ao pedido de informações. Já o ministro Jhonatan negou que tenha atendido pedido de Vorcaro para abrir uma inspeção.

O relator diz que aguarda relatório do BC sobre a sindicância aberta contra dois ex-chefes da área de fiscalização do BC, Paulo Sérgio de Souza e Belline Santana, alvos da operação Compliance Zero, para levar o processo ao plenário. A área técnica deu parecer favorável ao BC.

"A própria unidade técnica disse que as decisões do banco estavam normais. Eu faço a crítica: como é que estava normal com dois diretores envolvidos e vários ofícios feitos por diretores que estavam lá? E eu é que estou envolvido?", questiona.

Ao mesmo tempo em que crescia a pressão do TCU sobre o BC, a indústria financeira decidiu reforçar seu apoio ao órgão regulador numa carta aberta. A união, considerada inédita pelos participantes do mercado, reuniu associações de cinco segmentos do setor e teve papel importante para frear a ofensiva.

A leitura foi a de que estava em curso uma operação para constranger o BC, o que poderia desqualificar a decisão da autoridade de liquidar o Master, com risco de repercussões no futuro. CEOs de grandes bancos, antes críticos à atuação do BC no processo do Master, dessa vez se uniram para defender a independência do regulador ante o perigo de o TCU reverter a decisão da liquidação.

A DERROCADA DO MASTER

Enquanto a temperatura subia em Brasília, pipocaram notícias de que Vorcaro estaria disposto a falar e que teria mantido nos seus celulares muitas mensagens e vídeos de amigos, entre eles autoridades políticas e líderes do Centrão, como mais tarde mostraria o vazamento de áudios e conversas privadas de Vorcaro com sua ex-noiva, a influenciadora Martha Graeff.

Na acareação ao STF, o próprio Vorcaro no seu depoimento ao STF passou o seu recado ao ser questionado sobre quais políticos frequentavam a sua casa: "Tenho alguns amigos de todos os Poderes". Já era conhecido o contrato milionário do escritório da esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes, Viviane Barci, revelado pela jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo.

Documentos da Receita Federal mostrariam mais tarde que o escritório de Viviane recebeu R$ 80,2 milhões em dois anos do Master. Em nota, a banca respondeu que "não confirma essas informações incorretas e vazadas ilicitamente, lembrando que todos os dados fiscais são sigilosos."

Naquele momento não era pública ainda a ligação de familiares de Toffoli com Vorcaro, revelada pela Folha no dia 11 de janeiro. A reportagem representou uma virada na ofensiva. Duas empresas ligadas a parentes de Toffoli tiveram como sócio um fundo de investimentos conectado à teia usada pelo Master em fraudes investigadas por autoridades.

À época, a defesa de Vorcaro negou qualquer irregularidade ou envolvimento do Master com fraudes, fundos ilícitos ou operações destinadas a beneficiar terceiros. Toffoli ficou em silêncio.

O ministro só foi esclarecer a sua relação com o Tayayá e o fundo ligado ao Master em fevereiro, ao reconhecer que recebeu dinheiro da empresa Maridt, da qual era sócio com seus irmãos.

No dia 12 de fevereiro, ele deixou a relatoria das investigações após semanas resistindo a se afastar do caso. A decisão foi acertada com outros ministros depois que a PF apresentou evidências contra Toffoli em relatório entregue pessoalmente pelo diretor-geral do órgão, Andrei Rodrigues, e ao presidente do STF, Edson Fachin. O ministro André Mendonça assumiu a relatoria.

Esse período foi descrito por um dos investigadores como um dos mais tensos e sensíveis de todo o escândalo Master pela peculiaridade do caso e os riscos de abalo na República. Policiais tinham feito achados contra ministro do Supremo em atividade. Toffoli e Moraes não são hoje investigados pela PF, que não tem atribuição para isso.

Para investigadores, os trabalhos de apuração foram prejudicados durante o período em que Toffoli foi responsável pelo processo e designou peritos para atuar na análise das provas colhidas.

Após a mudança de relatoria, Vorcaro foi preso novamente na 3ª fase da operação, deflagrada em março de 2026, acusado de participação em organização criminosa, lavagem de dinheiro e obstrução de investigações.

A PF encontrou no celular mensagens apontando que o ex-banqueiro mantinha uma milícia privada chamada "A Turma" com o objetivo de coagir e ameaçar seus desafetos. Ele segue preso.

O celular de Vorcaro revelou ainda que ele trocou mensagens com Moraes no dia da primeira prisão dele, em novembro de 2025. O ministro do STF não negou o contato, mas rejeitou ter falado sobre investigações contra o ex-banqueiro.

A investigação conduzida pela PF ainda está em estágio inicial, caminhando para uma fase intermediária, segundo integrantes do órgão. O avanço depende da análise de um volume massivo de dados extraídos de celulares apreendidos, que ainda passam por etapas de extração, organização e cruzamento técnico.

Apenas um dos aparelhos atribuídos a Vorcaro concentra cerca de 400 gigabytes de informações em análise, e ao menos outros sete celulares ligados a ele já foram apreendidos. Além disso, há dispositivos de familiares e de funcionários sendo periciados, o que amplia significativamente as frentes de apuração.

Cada nova fase pode abrir novas linhas investigativas, o que torna inviável, neste momento, prever quando o caso Master será concluído.

A 4ª fase da operação ocorreu nesta semana com a prisão do ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, acusado de ter negociado com o Vorcaro o recebimento de seis imóveis em troca de operações favoráveis para o Master no banco do governo do Distrito Federal.

Para uma pessoa envolvida no caso, a ofensiva de Vorcaro para abafar o caso só não foi bem-sucedida porque o Master era um elefante grande demais pra caber embaixo de um tapete.

Este é o quarto de uma série de cinco capítulos sobre a derrocada do Master. As reportagens tratam de episódios anteriores ao momento em que BRB chamou a atenção do mercado financeiro ao anunciar compra de fatia do banco de Daniel Vorcaro e avançam sobre detalhes revelados nas investigações sobre a maior fraude bancária da história do Brasil.

Colaboraram Lucas Marquesini e Raquel Lopes  

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