Prédio do conselho que decide sucessão de Khamenei é destruído, dizem agências
Por Victor Lacombe, Folhapress
03/03/2026 às 13:05
Foto: Airbus/Soar Atlas/Reprodução
Ataques indicam que Washington e Tel Aviv seguem mirando lideranças do regime
O prédio que funciona como sede da Assembleia de Especialistas, órgão constitucionalmente encarregado de selecionar um novo líder supremo do Irã, foi completamente destruído em um ataque aéreo nesta terça-feira (3), reportaram agências de notícias iranianas.
A autoria exata do bombardeio contra a cidade de Qom, ao sul de Teerã, ainda é desconhecida, mas Israel havia dito mais cedo ter atacado a sede da Presidência e do Conselho de Segurança do Irã, enquanto os Estados Unidos realizaram novas incursões aéreas na capital.
Também não se sabe se os membros da assembleia estavam reunidos no local no momento do ataque, uma vez que a convocação do colegiado não foi anunciada. Um funcionário israelense disse ao jornal The Times of Israel, sob condição de anonimato, que os clérigos foram atingidos —o órgão é composto por 88 autoridades islâmicas altamente graduadas que são eleitas por voto popular a cada oito anos.
Sua principal função é selecionar o líder supremo, uma atribuição que não é exercida desde 1989, quando Ali Khamenei, morto no sábado (28) em decorrência dos ataques israelo-americanos, chegou ao poder.
A destruição do prédio, junto com ataques contra a sede da Presidência e o Conselho de Segurança, indica que os EUA e Israel permanecem mirando lideranças iranianas. O conselho é responsável pela política de defesa nacional, e o presidente Masoud Pezeshkian é um dos líderes no comando do Irã no momento.
Especialistas, entretanto, não estão certos de que a estratégia de decapitação, ausente uma invasão terrestre do Irã —país montanhoso com área maior que toda a região Centro-Oeste do Brasil e com 90 milhões de habitantes— será suficiente para derrubar o regime.
Além disso, embora tanto o presidente Donald Trump quanto o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu tenham convocado o povo iraniano a tomar controle do país, o governo americano tem recuado desse objetivo.
Em fala na segunda (2), Trump não mencionou uma derrubada da teocracia, dizendo que a guerra está sendo travada para impedir que o Irã produza mísseis balísticos e desenvolva uma bomba atômica —arma que Teerã nega desejar, embora tenha enriquecido urânio a níveis muito superiores do que os necessários para usos civis.
O secretário de Estado, Marco Rubio, também disse que os EUA atacaram o Irã como uma forma de defesa, sugerindo que Tel Aviv já havia decidido bombardear o país persa e que, por isso, Washington não teve escolha a não ser agir.
A Assembleia de Especialistas, alvo do ataque desta terça, é liderada pelo clérigo Mohammad Ali Movahedi e vota para eleger o novo líder supremo a partir de uma lista previamente aprovada pelo Conselho Guardião. Esse órgão, por sua vez, é composto por 12 pessoas: seis clérigos, escolhidos pelo líder supremo, e seis juristas, selecionados pelo presidente da Suprema Corte iraniana.
Entre os requisitos constitucionais para que um clérigo se torne líder supremo, com controle completo do Executivo, Legislativo e Judiciário do país, estão conhecimento profundo da lei islâmica, capacidade comprovada de liderança, compreensão de assuntos políticos e sociais, e uma personalidade "justa e piedosa".
Antes de Khamenei ser escolhido para o cargo, a Constituição também exigia que o líder supremo fosse um aiatolá, um dos cargos mais elevados para clérigos do islamismo xiita, dominante no Irã. Entretanto, como o sucessor escolhido por Ruhollah Khomeini não era um aiatolá, o texto constitucional foi alterado para que Khamenei pudesse ser eleito.
