Lula usa cinema nacional como vitrine, mas efeito eleitoral deve ser baixo
Por Gustavo Zeitel/Folhapress
22/01/2026 às 06:39
Foto: Ricardo Stuckert/Arquivo/PR
O presidente Lula
É a primeira-dama, Rosângela Lula da Silva, a Janja, quem inicia a ligação e anuncia a presença do marido, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Do outro lado da linha, estão Kleber Mendonça Filho, diretor de "O Agente Secreto", e Wagner Moura, ator protagonista do longa. No início do mês, eles receberam dois prêmios no Globo de Ouro —melhor filme em língua não inglesa e melhor ator de drama.
No viva-voz, Lula cumprimenta os artistas e promete mais políticas para o setor audiovisual, ao que o cineasta responde lembrando o financiamento público empregado em sua produção. A ligação é filmada, editada com trilha sonora de frevo e publicada nas redes sociais, assim como tantas outras feitas pelo governo, celebrando a temporada de vitórias do cinema nacional, iniciada por "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles.
Segundo especialistas, o Planalto usa os prêmios para validar os investimentos em cultura.Tenta, assim, estabelecer um contraponto ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), sugerindo que o terceiro mandato de Lula reinseriu o Brasil no cenário internacional. Contudo a estratégia seria limitada em termos eleitorais.
"A lógica é o Brasil voltou. Todo mundo tem orgulho, acompanha os prêmios e gosta de prestígio. O Planalto trabalha os prêmios menos para ter uma expansão no eleitorado do que para construir a própria reputação", diz Mariana Bonjour, consultora de marketing político.
Ambientado no Recife, nos anos da ditadura militar, "O Agente Secreto" segue os passos de Marcelo, um professor universitário vivido por Moura que retorna à sua cidade natal, perseguido por assassinos de aluguel. O filme iniciou sua jornada vitoriosa na 78ª edição do Festival de Cannes, onde estreou e ganhou prêmios nas categorias de melhor diretor e melhor ator. Espera-se agora mais de uma indicação ao Oscar.
Não é exagero dizer que o governo, liderado pelo ministro-chefe da Secom, Sidônio Palmeira, orquestrou uma campanha paralela àquela da produção. O telefonema foi antecedido por três postagens, sempre com linguagem descontraída. Uma delas tem a imagem de Moura e a inscrição "o baiano tem o Golden Globes", referência ao hit "O Baiano Tem O Molho", de O Kannalha. Em agosto, o Alvorada sediou uma sessão do filme, com direito a tapete vermelho, frevo e elogio do protagonista a Lula.
A fórmula foi repetida no ano passado, com "Ainda Estou Aqui", inspirado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, que também remonta à ditadura. O filme lembra como a família do autor foi abalada pelo desaparecimento da figura paterna, o deputado Rubens Paiva, encarnado por Selton Mello, e a luta de Eunice Paiva, papel de Fernanda Torres, por justiça. No Globo de Ouro de 2025, Torres foi considerada a melhor atriz de drama, e a obra rendeu ao país o Oscar de melhor filme internacional. No ano passado, Lula chegou a mencionar a obra na cerimônia do 8 de Janeiro.
"Os filmes conversam muito bem com o desejo do governo de mostrar a importância da democracia", afirma Bonjour.
Especialista em marketing político e produtor audiovisual, Felipe Soutello conta que o Planalto usa o ufanismo ora em alta, assim como acontece quando a seleção vence a Copa do Mundo. O sentimento pode indicar prosperidade, diz ele, mas o rendimento eleitoral para o petista, no caso do cinema, não deve ser elevado.
"Há uma carga ideológica, porque o sucesso no exterior desses filmes valida uma subvenção da cultura, algo que o PT tem o direito de comemorar", diz Soutello. "Isso funciona mais para mobilizar a militância."
De fato, a visibilidade do cinema brasileiro aumenta no exterior em um contexto de retomada do fomento ao setor audiovisual. Levantamento da Ancine, feito a pedido da Folha, mostra a liberação de recursos do FSA (Fundo Setorial do Audiovisual), ano a ano, ao longo da década passada. Operado pela agência reguladora, o FSA é o principal mecanismo de financiamento de produções cinematográficas. O fundo é mantido por meio da Condecine, contribuição paga por toda a indústria.
A partir de 2022, quando Lula ganhou a eleição presidencial, o gráfico indica uma tendência de crescimento na liberação dos recursos. Na Ancine, a rubrica "investimento" refere-se aos editais disputados pelas produções, enquanto "crédito" é o financiamento que se destina à infraestrutura. Há ainda a liberação via leis de incentivo, o chamado fomento indireto.
Em paralelo, Lula promoveu uma cerimônia, há dois anos, para anunciar o investimento de R$ 1,6 bilhão no audiovisual e também sancionou a lei de cota de tela para produções brasileiras até 2033.
A liberação dos recursos diminuiu no governo Bolsonaro, interrompendo a alta verificada na presidência de Michel Temer (MDB). Bolsonaro ameaçou extinguir a Ancine e, em 2019, contingenciou 43% do FSA. Também é verdade que uma pandemia começou no ano seguinte e atrapalhou sua gestão cultural. Reportagem da Folha mostrou que, nessa época, o Prodav, uma linha de financiamento a roteiros, chegou a ser paralisada.
Quanto aos filmes premiados, "Ainda Estou Aqui" foi rodado com verba privada, e "O Agente Secreto" venceu um edital, dois anos atrás, e usou R$ 7,5 milhões via FSA. Ao todo, o longa, que também teve aportes privados, custou R$ 28 milhões. Coordenador e professor da pós-graduação em gestão cultural e indústria criativa da PUC-Rio, Miguel Jost entende os prêmios aos filmes brasileiros como resultado de uma reestruturação do audiovisual, iniciada nos anos 1990.
"Bolsonaro usou todos os mecanismos que tinha para esvaziar o fomento, mas, com a reestruturação do MinC, voltou a ter uma institucionalização", afirma. "É um setor com potencial de crescimento, mas colher dividendos políticos disso é mais difícil, porque há um grande desconhecimento sobre a importância desse investimento."
Professor de cinema da UFC (Universidade Federal do Ceará), Marcelo Ikeda diz que ainda há muito a ser feito. Segundo ele, falta um planejamento sistêmico, porque se investe muito na produção, e não em todo o ecossistema.
Do mesmo modo, o governo tinha a expectativa de votar, no fim do ano passado, o PL do Streaming, para regular as plataformas estrangeiras, mas nem a classe artística entrou em consenso. O próprio Moura fez um vídeo para criticar a taxação de 4%, um valor baixo para as empresas, na visão do ator.
"Nem oito nem 80. As políticas desse governo são mais favoráveis, porque houve uma criminalização das políticas públicas no governo anterior", afirma Ikeda. "No caso do PL do Streaming, foi importante Wagner Moura se posicionar, porque havia expectativa de um percentual maior. Qualquer medida do governo pode ser questionada."
