Donald Trump diz que enviou 'uma grande força' rumo ao Irã
Mobilização de diversos recursos militares ocorreu enquanto mundo se ocupava do caso da Groenlândia
Por Igor Gielow/Folhapress
22/01/2026 às 21:45
Foto: Reprodução/Instagram
O presidente dos EUA, Donald Trump
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, admitiu pela primeira vez que está mobilizando o que chamou de "grande força" contra o Irã, rival histórico a quem havia ameaçado atacar devido à repressão aos protestos contra o regime teocrático vigente desde 1979.
"Temos uma grande flotilha indo naquela direção e veremos o que acontece. Temos uma grande força indo em direção ao Irã", disse Trump a repórteres que voavam no Air Force One de Davos (Suíça), onde o presidente participou do Fórum Econômico Mundial, para os EUA. "Eu preferiria que nada acontecesse, mas estamos monitorando-os de perto", disse, sugerindo que pode ir às vias de fato.
O envio de diversos ativos militares necessários para um ataque de larga escala começou a ocorrer de forma concomitante à escalada retórica de Trump contra a Groenlândia, que causou alarme entre seus aliados.
Enquanto exigia o controle da ilha da Dinamarca, o americano reforçou suas posições no Oriente Médio com aviões de ataque F-15E e de apoio próximo A-10, montou uma frota com mais de 30 reabastecedores necessários para uma ação em profundidade, dezenas de cargueiros, defesa antiaérea e mobilizou dois grupos de porta-aviões.
Nesta quinta, segundo analistas militares israelenses, o grupo do USS Abraham Lincoln, formado pelo gigantesco porta-aviões e pelo menos um cruzador, três destróieres e um submarino de ataque, entrou na região sob a jurisdição do Comando Central das Forças dos EUA, no mar da Arábia.
Já o outro grupo mobilizado, do USS George H. W. Bush, está sem instrumentos de localização acionados e em algum lugar entre o Atlântico Norte e o Mediterrâneo. Se for participar de alguma ação, pode chegar à costa de Israel em talvez uma semana.
Trump havia dito que ajudaria os manifestantes que protestam, desde o dia 28 de dezembro, no Irã. Os atos contra a crise econômica aguda se transmutaram na maior movimentação contra o regime desde sua fundação.
Trump disfarçou suas intenções. Na semana passada, disse que tinha recebido informações de que não haveria execuções de manifestantes, sugerindo assim que as ameaças de atacar Teerã não seriam concretizadas.
Ao mesmo tempo, subiu a temperatura do caso Groenlândia, fazendo seus aliados na Otan se mobilizarem para demovê-lo de qualquer ação mais radical, que fundamentalmente acabaria com a aliança militar ocidental.
Na quarta (21), em Davos, voltou a exigir a ilha, mas disse que não usaria a força. Mais tarde, removeu as tarifas de 10% sobre importações da Dinamarca e outros sete aliados europeus que enviaram pequenos contingentes ao território ártico.
Esse caso está inconcluso, mas ao longo desta quinta o tom de negociação mais ponderada parecia predominar, restando saber os próximos capítulos. A partir daí, o Irã volta à baila.
Se for apenas um jogo retórico de Trump para sua base, para tirar foco do recuo aparente na Groenlândia, é um jogo caro e perigoso. A mobilização é maior, em poder de fogo, do que a feita em torno da Venezuela nos meses que precederam a operação que capturou Nicolás Maduro e sua mulher em Caracas, no dia 3.
Aliados de Trump no Oriente Médio haviam também aconselhado o adiamento do ataque. Países árabes não querem a disrupção do estreito de Hormuz, controlado em boa parte pelo Irã, por onde passam 20% do petróleo e do gás liquefeito do mundo.
Já Israel, maior parceiro dos EUA na região, pediu para esperar. Aqui, versões divergem sobre o motivo: ou o Estado judeu ainda está recuperando suas defesas aéreas após a desgastante guerra de 12 dias com o Irã em junho, ou sugeriu a Trump usar uma força mais eficaz para derrubar os aiatolás.
Se repetisse o ataque pontual de 22 de junho, quando bombardeiros furtivos B-2 atingiram instalações nucleares iranianas, dificilmente o regime cairia. Mesmo matando sua cúpula religiosa, a poderosa Guarda Revolucionária poderia assumir o poder, numa ditadura militar ainda mais desafiadora. Outra opção é uma guerra civil.
Por evidente, não se sabe o que Trump quer fazer: pressionar ou atacar. O regime disse nesta quinta que os protestos acabaram, tendo deixado 3.000 mortos. ONGs falam em mais de 4.500, fora milhares de outras mortes suspeitas.
Seja como for, o apagão da internet a que o país está submetido pelo regime há duas semanas impede uma visão clara da situação. Aqui e ali surgem relatos de protestos no Irã, mas de forma geral parece que a repressão fez cessar os atos de maior porte.
