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Mudança na LDO permite gasto de até R$ 10 bi dos Correios fora da meta das estatais
Mudança na LDO permite gasto de até R$ 10 bi dos Correios fora da meta das estatais
Por Idiana Tomazelli, Carolina Linhares e Raphael Di Cunto, Folhapress
04/12/2025 às 17:00
Atualizado em 04/12/2025 às 18:33
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/Arquivo
Na prática, empresa pode ter déficit no ano que vem sem necessidade de compensação por parte do governo
Uma mudança no texto da LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) de 2026 vai permitir um gasto de até R$ 10 bilhões dos Correios fora da meta fiscal das empresas estatais.
A modificação foi incluída nesta quinta-feira (4) pelo relator, deputado Gervásio Maia (PSB-PB), por meio de um adendo de plenário. Na prática, a empresa pode fazer um déficit de R$ 10 bilhões no ano que vem sem gerar qualquer necessidade de compensação por parte do governo, com a contenção de despesas com outras políticas públicas.
O texto desconta da meta das estatais as despesas do Programa de Dispêndios Globais (peça orçamentária das empresas que não dependem do Tesouro Nacional para custear suas operações) referentes a empresas que "possuam plano de reequilíbrio econômico-financeiro aprovado e vigente", até o limite de R$ 10 bilhões. Como resultado, a dívida líquida do setor público pode crescer mais em 2026.
Os Correios aprovaram há duas semanas um plano de reestruturação que prevê a regularização de pagamentos a fornecedores, quitação de dívidas com bancos, um novo PDV (programa de demissão voluntária), a reformulação do plano de cargos e salários e também do plano de saúde.
Para bancar essas iniciativas e reequilibrar sua situação financeira, a companhia negocia com bancos públicos e privados a contratação de um empréstimo de R$ 20 bilhões, como revelou a Folha em outubro.
O dinheiro da operação de crédito entrará no caixa dos Correios como uma receita financeira, que não é contabilizada na meta de resultado primário das estatais. Já os pagamentos efetuados com esses recursos serão uma despesa primária, entrando na conta e agravando o déficit.
Até quarta-feira (3), o relator manteve a meta fiscal das estatais em um déficit de até R$ 6,75 bilhões para o ano que vem, com uma autorização para gastos de R$ 5 bilhões extras em investimentos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), porém, via necessidade de afrouxar esse alvo para acomodar as despesas relacionadas ao plano de reestruturação dos Correios.
A meta das estatais é calculada de forma separada do alvo do chamado governo central, que reúne as contas do Tesouro Nacional, da Previdência Social e do Banco Central, mas pode haver necessidade de compensação em caso de estouro.
Neste ano, por exemplo, a equipe econômica precisou segurar R$ 3 bilhões em gastos para amortecer o déficit maior das estatais, decorrente principalmente da situação dos Correios.
Sem a flexibilização da meta das empresas para 2026, o Executivo ficaria sob risco de precisar segurar outras despesas do Orçamento em pleno ano eleitoral, o que seria um tema delicado para o governo.
A autorização para gastos de até R$ 10 bilhões fora da meta das companhias reduz esse risco. No entanto, técnicos do governo argumentam que é preciso ter cuidado para que essa flexibilização não seja lida pela empresa como uma desobrigação em relação ao ajuste que precisa ser feito nos Correios.
Na visão dessa ala, o mecanismo de compensação tem uma função importante: indicar aos Correios que, se a empresa perder o controle de seus gastos ou não conseguir implementar as medidas para recuperar receitas, outros ministérios e políticas públicas precisarão ser achatados para entregar o resultado fiscal do governo no fim de 2026.
