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A falsa extinção dos jumentos no Brasil, por Alex Bastos*

A falsa extinção dos jumentos no Brasil, por Alex Bastos*

Por Alex Bastos

17/12/2025 às 08:11

Atualizado em 17/12/2025 às 11:21

Foto: Divulgação

Imagem de A falsa extinção dos jumentos no Brasil, por Alex Bastos*

Alex Bastos

“Para inglês ver” é uma conhecida expressão brasileira que significa fazer algo apenas para criar aparência. É exatamente isso que ocorre com a narrativa, defendida nos últimos anos, de que os jumentos brasileiros estariam prestes a entrar em extinção.

As duas maiores autoridades mundiais que monitoram especificamente animais domésticos em risco de desaparecimento são, indiscutivelmente, a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) e a UNEP (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), ambas agências da ONU que colaboram intensamente em iniciativas globais de sustentabilidade.

Na terceira edição do compêndio intitulado Lista de Vigilância Mundial para a Diversidade de Animais Domésticos, essas duas agências deixam muito claro, no capítulo “Critérios para determinar raças em risco”, o seguinte parâmetro de análise: se o número total de animais reprodutores for superior a 1.000 fêmeas e 20 machos em reprodução, a raça é considerada “fora de risco de extinção”. Exatamente isso. As próprias autoridades no tema afirmam que, quando existem “apenas” menos de 2.000 animais em reprodução, ainda assim não se pode falar em extinção de uma espécie ou raça.

No Brasil, existem três tipos reconhecidos. Um deles é o Jumento Pêga, que conta com uma associação sólida e atuante, fundada em 1947, com mais de 30 mil animais registrados em seu cadastro. Há também o Jumento Paulista, ou Brasileiro, cuja quantidade total de animais não é oficialmente divulgada, e o Jumento Nordestino, que em 2017 possuía um rebanho estimado em 376 mil animais. Esse número, inclusive, sofre com subcadastramento junto às Agências Estaduais de Defesa Agropecuária e ao IBGE, reflexo do abandono ocorrido no passado, quando muitos desses animais passaram a viver soltos na natureza — cenário que vem mudando nos últimos anos com a revalorização da espécie.

O Jumento Nordestino não apresenta características específicas de uma raça definida, sendo classificado como Sem Raça Definida (SRD brasileiro). Trata-se de animais com grande diversidade de pelagens, alturas e pesos, com origem genética ligada à região da Abissínia Africana, atual Etiópia.

Atualmente, o Jumento Nordestino encontra-se amplamente distribuído pelas margens do Rio São Francisco, pela Caatinga e por áreas litorâneas do Nordeste brasileiro, onde é possível observar bandos expressivos. Exemplos disso são localidades como Jericoacoara, Lagoa dos Jegues, Paraipaba, Cumbuco, Caucaia, Emboaca, Trairi e Canoa Quebrada, no Ceará; Mangue Seco, na Bahia; Praia do Amor, Tibau do Sul e Genipabu, no Rio Grande do Norte; e Pontal, no Piauí, entre tantas outras.

A conhecida e comprovada virilidade do jumento macho contribui de forma decisiva para a perpetuação da espécie, assim como a precocidade reprodutiva e a alta fertilidade das fêmeas, frequentemente observadas acompanhadas de seus filhotes, mesmo em situações de abandono às margens de rodovias ou em áreas de praia. Essas características biológicas, por si só, desmontam a ideia de extinção.

Um exemplo concreto da dimensão desse rebanho pode ser observado no estado do Ceará, com base em dados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran). O órgão realiza um trabalho consistente de recolhimento de animais das rodovias para prevenir acidentes. Em 2025, foram recolhidos, em média, 290 animais por mês, majoritariamente da espécie asinina. Esses animais são destinados a uma fazenda no município de Santa Quitéria, que se tornou um verdadeiro refúgio para os jumentos.

O Censo Agropecuário de 2017, último realizado pelo IBGE e que incluiu dados sobre a espécie asinina, apontou a existência de mais de 230 mil propriedades pecuárias criadoras de jumentos no país. A análise histórica da estratificação dos censos, desde 1980, indica que mais de 90% desses produtores possuem rebanhos com menos de 20 animais.

Trata-se de mais um dado oficial que comprova o caráter ilusório da narrativa de risco de extinção dos jumentos nas próximas décadas.

Na realidade, os números demonstram que o Brasil - país altamente competitivo no mercado internacional de proteína animal - possui plenas condições de estruturar uma cadeia produtiva para os jumentos, assim como já ocorre com os bovinos e outras espécies. Isso garantiria maior rentabilidade aos produtores, geração de empregos no campo e ampliação das exportações de matérias-primas.

*Alex Bastos é zootecnista formado pelas Faculdades Associadas de Uberaba (MG) e administrador do setor pecuário.

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