Com EUA sob Trump, China é parceira natural, diz presidente da COP30
Por João Grabriel/Folhapress
23/01/2025 às 18:30
Atualizado em 23/01/2025 às 18:30
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil/Arquivo

A COP30, conferência climática global que acontecerá de 10 a 21 de novembro em Belém, herdou de sua antecessora, sediada em Baku (Azerbaijão), a missão de resolver o principal entrave das negociações nos últimos anos: a efetivação dos compromissos dos países ricos para o financiamento climático.
O Brasil terá que fazê-lo sem o engajamento da maior e, historicamente, mais poluente economia do mundo, os Estados Unidos, que vão deixar o Acordo de Paris —tratado global de metas de descarbonização, de 2015— sob comando do presidente Donald Trump.
"Os EUA estavam numa direção muito interessante, de favorecimento da transição energética, e entraram numa fase inversa", diz ao jornal Folha de São Paulo o embaixador André Corrêa do Lago, escolhido pelo presidente Lula (PT) para presidir a COP de Belém.
"Muitas das soluções talvez apareçam em outros contextos e graças ao setor privado. Evidentemente, a China é um parceiro absolutamente natural, alguns países europeus também, a Índia… E há outros países em desenvolvimento querendo caminhos parecidos com o Brasil", avalia o diplomata.
A saída dos EUA do Acordo de Paris prejudica as negociações da COP30 e pode influenciar outros atores, como bancos e empresas, a fazer um movimento contra a descarbonização?
Há várias indicações de que nós estamos passando por uma fase de questionamento de uma tendência que vem acontecendo há vários anos: o fortalecimento do compromisso ambiental de bancos e empresas. Não há a menor dúvida que nós estamos entrando numa fase em que há vários questionamentos, principalmente por interpretações sobre os custos que isso têm representado.
Como resolver o impasse do financiamento climático sem a maior economia do mundo?
A gente tem que, antes de mais nada, discutir o que é financiamento climático, um tema muito complicado que a gente ainda não conseguiu abordar de maneira racional. Se forem considerados somente os recursos concessionais de países ricos para países em desenvolvimento, aí sim, de fato, está saindo o país mais rico do mundo que, em princípio, se esperaria que fosse um dos maiores contribuidores.
No entanto, o financiamento climático é muito mais do que isso. A gente tem que continuar um trabalho que o Brasil começou e funcionou muito bem no G20, na força-tarefa de clima, que é pensar os tipos de recursos que são necessários para combater a mudança do clima.
Países ricos querem ampliar a base de doadores para os fundos climáticos. O Brasil pode propor isso?
Todos os países em desenvolvimento são contrários a esse argumento, porque os doadores que têm obrigações no Acordo de Paris [os países ricos] não cumpriram com a sua parte. Se tivessem cumprido, seria razoável. Como não, eles querem, na verdade, ser substituídos por países em desenvolvimento, o que é errado.
E inserir outras entidades financeiras nessa conta, como bancos internacionais?
Nós já vimos que se fôssemos contar só com recursos dos países ricos para os países em desenvolvimento, nós não iríamos chegar ao que é necessário, por causa da escala e da urgência do tema. Precisamos ver de que maneira os recursos financeiros podem favorecer projetos de combate à mudança do clima.
A UNFCCC [divisão climática da ONU], por mais que considere a questão de financiamento como central, não é um organismo internacional da área financeira. Então, essa questão tem que ser tratada também em outros contextos. Por exemplo, com os bancos de desenvolvimento e mesmo com o próprio setor privado que, como já se sabe, vai ter que ter um papel essencial.
Mas se os países doadores nunca cumpriram as decisões do Acordo de Paris, como construir um acordo de credibilidade agora, sem os EUA?
Vamos voltar e ver o que pode acontecer para que as decisões sejam cumpridas de maneira efetiva. O grande desafio do Brasil é conseguir que os órgãos que têm verdadeira influência sobre decisões financeiras levem em consideração as decisões da COP.
Para chegar a esse US$ 1,3 trilhão [nova meta de financiamento acordada em Baku], vamos trabalhar muito com o Ministério da Fazenda e o Banco Central, além do Ministério do Meio Ambiente e de Minas e Energia.
Foram órgãos que trabalharam juntos no G20. Vamos dar continuidade a isso. Então, a ação do Brasil este ano não vai ser uma negociação que vai acontecer só em Belém, mas um esforço ao longo de todos estes meses até lá. Essa mudança de foco vai trazer para a COP soluções que outros órgãos vão contribuir para encontrar.
Na COP28 [em Dubai, em 2023], foi aprovado que é preciso fazer a transição dos combustíveis fósseis, mas até agora isso não foi aplicado. Qual a proposta brasileira para isso?
É um tema que tem que ser tratado não necessariamente no contexto da UNFCCC, porque energia é um dos assuntos mais delicados do ponto de vista político e geopolítico. A discussão tem que ser muito específica para cada país.
E quem o Brasil vai buscar, sem os EUA, para amparar esses acordos?
Se nós pensamos que esse trabalho tem que ser feito não necessariamente no contexto da COP, a ausência dos Estados Unidos não tem o impacto que teria. Muitas das soluções talvez apareçam em outros contextos e graças ao setor privado.
Evidentemente, a China é um parceiro absolutamente natural, alguns países europeus também, a Índia… E há outros países em desenvolvimento querendo caminhos parecidos com o do Brasil, inclusive com biocombustíveis.
É uma pena porque os Estados Unidos estavam numa direção muito interessante, de favorecimento dessa transição energética, e entraram numa fase inversa. Então vai ser um país com o qual não vamos ter tantos temas a discutir como tínhamos.
Mas, mesmo assim, há tantos investimentos nos Estados Unidos, tantas empresas importantes, tantas universidades, tantas pessoas pensando a transição energética, que há muito ainda que a gente pode fazer com os americanos.
