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Capacidade do Brasil de ser ‘ponte’ está em xeque, afirmam analistas

Capacidade do Brasil de ser ‘ponte’ está em xeque, afirmam analistas

Por Com informações do Valor Econômico

25/02/2024 às 13:11

Atualizado em 25/02/2024 às 13:11

Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

Presidente Lula (PT)

A Política externa do Governo Lula 3 e as polêmicas declarações do presidente colocam em questão a capacidade do Brasil de se apresentar como uma ponte entre países pobres e ricos, Ocidente e Oriente, Norte e “Sul Global”, na visão de analistas ouvidos pelo Valor.

Essa habilidade será posta à prova em dois eventos esta semana: a viagem de Lula à Guiana, da qual Lula participa como convidado da Cúpula da Caricom (Comunidade Caribenha), e a São Vicente e Granadinas, onde haverá um encontro de chefes de estado Celac (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos); e na reunião de presidentes dos Bancos Centrais do G20, em São Paulo. Os eventos servirão como um teste à capacidade do Brasil de exercer sua liderança regional, mediar a disputa territorial entre a Venezuela e a Guiana e obter mais financiamento dos países ricos para as nações em desenvolvimento.

Os encontros acontecem num momento em que a Política externa brasileira é questionada sobre sua neutralidade em conflitos como a guerra em Gaza, especialmente depois que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comparou a ofensiva israelense no enclave palestino ao Holocausto. Há também acusações relacionadas com o processo eleitoral venezuelano, em que Lula reluta em condenar a prisão de opositores e a contestação de candidaturas por rivais do Presidente Nicolás Maduro. O presidente também foi acusado de adotar uma postura pró-Rússia na guerra com a Ucrânia e de oprimir os oponentes de Vladimir Putin.

“Nominalmente, o objetivo estratégico da Política externa do atual Governo Lula é transformar o Brasil em uma ponte entre ricos e pobres, entre poderosos e fracos, entre o Norte e o Sul globais. A questão é: o que ele está fazendo na prática ajuda ou atrapalha esse objetivo?”, diz Matias Spektor, professor da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas.

Para Spektor, o padrão adotado nesses conflitos tem sido “em vez de se posicionar como mediador, o Brasil se posiciona tomando partido de uma das duas partes”.

“Tudo bem se o objetivo da Política externa for tomar partido. Agora, se o objetivo é virar ponte, isso é altamente problemático”, afirma.

Para ele, a dificuldade de Lula em condenar os abusos cometidos por Maduro e suas críticas à “pressa” em apontar Moscou como culpada pela morte do opositor Alexei Navalny geram questionamentos dos dois lados do tabuleiro geopolítico.

“Todos respiraram aliviados quando Lula venceu (Jair) Bolsonaro nas Eleições. Porque ele é visto como um líder do Sul Global que possui credenciais democráticas inquestionáveis ​​para os ocidentais. E, por outro lado, os chineses o veem como um líder com capacidade de ser firme contra o Ocidente, mas ao mesmo tempo extrair concessões”, afirma Spektor. “As declarações de Lula sobre Navalny e Maduro fazem o Ocidente questionar essas credenciais. E a questão na China é se o Brasil continua a ser capaz de organizar o Sul Global para dialogar e arrancar as coisas do Ocidente.”

Felippe Ramos, pesquisador da New School for Social Research de Nova York, considera que o contexto atual — de um mundo mais polarizado e conflituoso — contribui para levar o Governo brasileiro a adotar posições mais fortes do que nas décadas anteriores. Para ele, o Brasil aposta nos Brics (bloco liderado conjuntamente por Rússia, China, Índia e África do Sul) como principal plataforma para sua projeção no mundo, “o que não é errado, mas traz dificuldades para o lado ocidental”. .

“O mundo era diferente nos governos Lula 1 e Lula 2. Há uma fragmentação geopolítica e geoeconómica global, com a desconexão entre os EUA e a China”, afirma. “Em 2005, era possível ser aliado dos EUA, da China e da Rússia simultaneamente. Mas é muito mais difícil e complexo manter uma relação equilibrada entre o Ocidente e o Oriente neste momento.”

Fontes governamentais consultadas pelo Valor, porém, discordam, pelo menos em parte, dessas avaliações. No Planalto e no Itamaraty afirma-se que, embora o Brasil tradicionalmente se posicione como uma ponte entre lados antagônicos, o país também sempre foi uma voz crítica em relação às deficiências da ordem internacional.

“O Brasil está fazendo o que fez em outros momentos. O país tem um vínculo histórico com o processo de descolonização na África e com a causa palestina, que se fortaleceu ao longo do período democrático no Brasil, com exceção do Governo Bolsonaro. Mas a ênfase do Brasil mudou (em Lula 3), o tom mudou”, diz uma fonte.

Para este interlocutor, a mudança de ênfase é determinada “por retrocessos na ordem internacional e nos espaços de cooperação e governação internacional”. É o caso da OMC (Organização Mundial do Comércio), “que foi inviabilizada pela ação deliberada dos países desenvolvidos”, e também da ONU, que é incapaz de resolver conflitos como os de Gaza e da Ucrânia. Além disso, o fortalecimento dos laços comerciais com a China e outros países da Ásia e do Médio Oriente nas últimas décadas reflete-se também na Política externa.

“Estamos descobrindo e desenvolvendo parcerias com países com nível de desenvolvimento semelhante ao nosso. Este é um elemento adicional para aproximar estes países”, afirma a fonte. “Agora, deixa de ser apenas um movimento dos países menos desenvolvidos para criar caminhos de desenvolvimento e passa a ser algo para dar um salto maior.”

Mas membros do Governo argumentam que esse movimento não significa que o Brasil esteja se afastando do Ocidente. Prova disso, afirma um deles, são as visitas de Lula a Washington e a capitais europeias, como Londres e Madrid, e também a sua participação na reunião do G7 em Tóquio, em 2023.

Fontes do Planalto destacam ainda o fato de Lula ter recebido na semana passada os chanceleres da Rússia, Sergei Lavrov, e dos EUA, Antony Blinken, como prova de que o Brasil ainda consegue dialogar com países antagônicos.

“Em nenhum momento houve qualquer sinal de que a nossa Política externa nos distanciasse do Ocidente”, afirma uma segunda fonte governamental. “Mas o mundo está num momento de maior intensidade. Isso exige que atuemos com mais intensidade. O que não significa deixar de ser um país moderado, equilibrado e que constrói pontes.”

Em entrevista ao Valor em janeiro, o principal assessor internacional de Lula, Celso Amorim, descreveu os Brics como “a transformação mais importante nas relações internacionais dos últimos tempos”. E acrescentou que a consolidação do bloco servirá para fortalecer o G20, formado por economias ricas e emergentes, em detrimento do G7, que é um fórum exclusivo dos países desenvolvidos.

“Isso reforça o papel da ponte. Porque o Brasil joga de um lado, mas para criar um arranjo maior entre os dois lados”, afirma a fonte.

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