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A propaganda de Lula no horário eleitoral vai resgatar e valorizar tudo o que já foi feito, diz Luiz Dulci em Salvador

A propaganda de Lula no horário eleitoral vai resgatar e valorizar tudo o que já foi feito, diz Luiz Dulci em Salvador

Por Política Livre

25/08/2022 às 13:56

Atualizado em 25/08/2022 às 14:17

Foto: Adson Brito

Professora Regina Célia, presidente da SPD, e Luiz Dulci

Um dos fundadores do PT, ex-ministro chefe da Secretaria Geral durante os oito anos de governo Lula e membro da coordenação de campanha do presidenciável petista, Luiz Dulci passou o último final de semana em Salvador. Veio participar do Seminário do PT de Todas as Lutas, com o deputado estadual Jacó (PT) e um conjunto de movimentos sociais. Também se encontrou com o candidato do PT ao governo, Jerônimo Rodrigues, e fez duas visitas: à sede do bloco Ilê Aiyê, no Curuzu, e à Sociedade Protetora dos Desvalidos (SPD), no Largo de São Francisco. Nesta entrevista exclusiva que concedeu ao Política Livre, ele fala sobre a agenda e alguns pontos do Programa de Transformação e Reconstrução do Brasil, proposto pelo PT.

Política Livre - Com que propósito o senhor se reuniu em Salvador com a SPD e o bloco afro Ilê Aiyê?

Luiz Dulci - Eu já vim várias vezes à Bahia, mas desta vez fiz vários contatos que considero importantes, e um deles foi a visita à SPD, que eu só tinha notícia vaga da existência, e está lá, um prédio belíssimo no Pelourinho. Eu não sabia que era uma instituição criada somente por negros, e tudo indica que seja a primeira do Brasil e até na América Latina, organizada para a defesa e proteção das comunidades negras. Mostra que a resistência negra, as lutas pela libertação, tinham uma dimensão urbana forte de autoproteção e solidariedade. Querem fazer um filme que está buscando se viabilizar. Conversei com a presidente e outros integrantes da equipe para poder contribuir com a divulgação da entidade. Tivemos também um bom contato com (Antônio Carlos) Vovô, presidente do Ilê Aiyê. Nos dois lugares, conversamos sobre a importância de um projeto nacional das esquerdas que dê a devida centralidade à cultura negra brasileira. Lula e também Dilma fizeram muita coisa em defesa dos direitos da população negra, como a criação do Ministério da Igualdade Racial, a política de cotas, mas na minha opinião, num próximo governo, além de resgatar direitos que foram abolidos pelo governo Bolsonaro e consolidar direitos que não foram consolidados, deveremos dar um passo além: afirmar de maneira vigorosa a cultura negra como dimensão estrutural da cultura brasileira.

P- No Seminário do PT de Todas as Lutas, o senhor comentou sobre o programa de governo de Lula e o capítulo dedicado ao meio ambiente. Como é do conhecimento geral, mais da metade do território da Bahia está dentro do semiárido. O Ministério do Desenvolvimento Agrário é acusado de ter desaparecido no atual governo, as políticas públicas voltadas para agricultura familiar em nível federal minguaram. Qual a expectativa de políticas para convivência com o semiárido, como políticas de acesso à água e à moradia, num eventual governo Lula?

R- Os programas de governo de Lula sempre trataram com respeito a questão ambiental. No Programa de Transformação e Reconstrução do Brasil, temos um capítulo dedicado à transição ecológica, e isto representa um salto de qualidade, porque é um programa muito mais amplo e abrangente, diz respeito ao país inteiro, e não somente à Amazônia. O PT está defendendo um modelo de desenvolvimento sustentável em todos os níveis. E não se trata só de preservar a floresta e a mata atlântica, vai além. No caso da Amazônia, trabalha com a ideia de uma indústria sustentável, não com o padrão clássico da siderurgia e da mineração, que são destrutivos. Esse capítulo contém propostas que possam assegurar o desenvolvimento do semiárido sustentável, que implica investimento hídrico, por exemplo. Criando condições para a produção e sobrevivência digna da população. No governo Lula, houve uma reinteriorização demográfica, pessoas que haviam migrado para as capitais voltaram porque havia financiamento, houve titulação de terras, crédito agrícola e a garantia de que pelo menos 30% da merenda escolar seria da agricultura familiar. A agricultura familiar precisa de uma política completa, que vai da questão hídrica à propriedade da terra. Tivemos um programa no BNDES para a venda de tratores de pequeno porte em condições muito favoráveis. Só no segundo governo, Lula vendeu 80 mil tratores. Tem que ter uma politica completa de seguro, crédito, garantia, mercado e facilidade tecnológica.

P- A questão ambiental envolve os povos originários e os indígenas, que acusam o governo federal de promover várias violações a seus direitos. E Lula também acenou com uma nova pasta, que seria o Ministério dos Povos Originários. Mas esse problema, que envolve a posse da terra, grupos de ambientalistas, fazendeiros, o agronegócio, garimpeiros, madeireiros, não parece que irá desaparecer tão facilmente. 

R- A criação do Ministério dos Povos Originários não resolve o problema, mas é um passo muito significativo, superior à existência de um organismo como a Funai ou mesmo a secretaria de outras áreas, passa a integrar as reuniões ministeriais, a ter um canal direto com o presidente da República, a elaborar orçamento. Também seria o reconhecimento do conceito de povos originários, que o Estado brasileiro nunca reconheceu. Ao dizer isso, o Lula está dizendo: o Brasil nasceu daí, esses são os povos que deram origem ao nosso país. É um reconhecimento político, cultural e institucional. Fui ministro da Secretaria Geral e colaborei muito com as Secretarias de Combate Racial, Direitos das Mulheres e Cultura, e havia uma preocupação de que esses ministérios pudessem dialogar com outros ministérios a fim de afirmar dentro do governo uma politica transversal. O Ministério da Saúde, por exemplo, começou a trabalhar com saúde negra; Educação incluiu a história da África, que não fazia parte dos currículos. Reconheço que a questão dos indígenas tem um agravante: Bolsonaro legitimou a invasão e o garimpo indiscriminado nas terras indígenas. Legitimou um massacre e uma guerra. Esse pessoal se sentiu legitimado para praticar o crime, perseguir e matar os índios. Não é problema ideológico, se deve ou não fazer isso, eles estão desrespeitando a legalidade e precisam ser reprimidos.O governo Lula terá de tomar medidas imediatas em diversos níveis, inclusive na segurança pública. Acho que teremos de criar uma operação policial e social para enfrentar o crime organizado na Amazônia e em outras regiões também. E tem outra coisa: volta e meia lideranças de outros países falam que a Amazônia deveria estar subordinada a uma gestão supranacional, e nós do PT sempre nos opusemos com muito vigor a isso, por entender que a soberania sobre a região é total. Agora para que a defesa da Amazônia seja eficaz e aceita pelas forças democráticas do mundo inteiro temos que demonstrar. Não basta fazer como Bolsonaro, dizer que não aceitava ingerência e depois entregar para o crime organizado. A defesa da soberania não pode ser apenas retórica, tem que ser traduzida na política.

P- Passando para um outro tema, como a campanha do governo Lula vê a questão da educação em tempo integral como estratégia para o enfrentamento e redução da violência urbana?

R- Somos inteiramente favoráveis a isso. Não só como estratégia para defender os jovens e as crianças, que passam o dia inteiro nas escolas e estão mais protegidas do crime, mas também como estratégia educacional, pois o tempo integral permite, e falo isso como professor de carreira, ensinar mais coisas e melhor, de maneira mais equilibrada, respeitando as necessidades lúdica, de lazer e esportiva que os jovens têm. Os países com sistema educacional mais avançado têm educação de tempo integral. O primeiro passo foi dado pelo Fundeb, criado pelo governo Lula para financiar os estados com menos recursos na educação. Como não dá para fazer de imediato, acho que deveremos ter um plano nacional para a implantação gradativa no país, com metas parciais. Está no nosso programa de governo, é uma necessidade do Brasil. Com a digitalização, a escola precisa fazer a formação geral e, ao mesmo tempo, preparar os jovens e crianças para uma formação profissional nesse mundo que se transformou tanto tecnologicamente.

P- O que esperar de Lula no horário eleitoral que se inicia a partir desta sexta-feira (26) no rádio e na TV?

R- O programa Lula resgata tudo que foi feito de bom em diversas áreas, boa parte destruída pelo governo Bolsonaro, o que terá de ser reconstruído, então tem essa preocupação com o resgate e a valorização do que já foi feito. Dezenas de milhões de pessoas votam no Lula porque gostam dele, porque respeitam, têm confiança na dignidade e honestidade dele, mas também pelo que o seu governo já fez, comparam com o que o governo Bolsonaro fez e desfez. Mas além de resgatar o legado na saúde, na educação, combate à fome, agricultura familiar e grande agricultura, valorização do salário mínimo, acesso à universidade, o programa combina o resgate das enormes realizações que deram ao Brasil um prestígio inédito no mundo. Lula virou uma referência mundial a exemplo do que era o Mandela. O programa também procura dar respostas novas a problemas novos, como apontar para o futuro, avançar em ciência e tecnologia, formação profissional dos jovens. O Lula se preocupa muito com isso. O país precisa ser reindustrializado, investir em setores de ponta.

P- E comício de Lula na Bahia? É possível ser realizado antes de 7 de setembro?

R- Data ainda não sei porque tem que ser combinada. Certamente ele virá. O Lula ja veio à Bahia para o lançamento do nosso querido Jerônimo. A campanha do Fernando Haddad foi encerrada na Bahia. O maior evento da campanha presidencial de 2018 foi aqui, aquela lindíssima caminhada na orla. Para o PT nacional e Lula, a Bahia é uma referência em vários sentidos: referência de ótimo governo estadual e colaboração com o governo federal muito criativa. O PT baiano gerou lideranças nacionais em diversas áreas, a exemplo do ministro Jaques Wagner e outros companheiros baianos. Além de ser um estado grande, o mais populoso no Nordeste.

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