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AS ELEIÇÕES NA BAHIA E A BOA POLÍTICA QUE FOI SE PERDENDO PELO CAMINHO, por Elias Sampaio*

AS ELEIÇÕES NA BAHIA E A BOA POLÍTICA QUE FOI SE PERDENDO PELO CAMINHO, por Elias Sampaio*

Por Elias Sampaio*

03/03/2022 às 17:44

Atualizado em 03/03/2022 às 17:44

Foto: Divulgação/Arquivo

Elias Sampaio

A retirada da candidatura do Senador Jaques Wagner ao Governo da Bahia, além de traumática para o Partido dos Trabalhadores, era algo fora do radar da grande maioria dos seus filiados, dos partidos aliados e analistas políticos. Na ausência de uma outra liderança capaz de aglutinar as mesmas forças que vinham dando sustentação aos governos do PT após os seus 4 mandatos, o nome de Wagner sempre foi uma reserva técnica robusta desde quando foi o criador da ideia de se ter Rui Costa como Governador, foi o principal patrocinador de sua vitória em 2014 e, em sequência, o grande puxador de votos para reeleger Rui e levar Ângelo Coronel para o Senado em 2018.

É óbvio que cada um desses atores políticos e os demais aliados, possuíram e possuem as suas próprias credenciais e ativos que foram também fundamentais para o sucesso da era PT à frente do Governo. No entanto, a história exige assertividade narrativa no presente para que possa ser melhor compreendida no futuro. Por isso, é necessário registrar o nosso entendimento de que foi a liderança política de Jaques Wagner e, num segundo momento, a de Otto Alencar, que amalgamaram as condições necessárias para esta caminhada do grupo político que vem conduzindo os destinos do 4º maior colégio eleitoral do país nos últimos de 16 anos.

Logo, o que deve ser fortemente salientado nesse momento é que, não é apenas a candidatura Wagner-Otto que está deixando de existir, mas, o que verdadeiramente está sendo desconstruído é o exitoso processo de construção político-eleitoral entre forças políticas de centro-esquerda e centro direita que dialeticamente se equilibraram durante quatro mandatos sucessivos no governo do Estado em contraposição as antigas forças carlistas derrotadas em 2006.

Sendo assim, essa não é uma situação que deva ser resolvida com mera mudança de posição de um dos componentes da chapa, no caso Otto Alencar (PSD), para a inclusão de Rui Costa (PT) como candidato a Senador, por um detalhe politicamente muito crítico: a entrega do governo do Estado para o vice governador João Leão (PP) - por eternos 8 meses de mandato em pleno ano eleitoral – significa também colocar à disposição do PP, Partido do vice-governador e hoje principal agremiação partidária de sustentação do governo Bolsonaro e mais importante artífice de sua reeleição, a possibilidade de articulação da gestão orçamentária federal com as entregas de programas, projetos e ações da máquina administrativa do mais importante colégio eleitoral do Nordeste, principal base eleitoral de Lula e do PT.

Essa foi uma contradição inerente as escolhas políticas inauguradas em 2006 que sempre existiu e que mais dia, menos dia, seria colocada a prova. Infelizmente, o momento de estressar essa “tensão essencial” é o mais inapropriado possível por estarmos num ano de uma dificílima disputa eleitoral e na atual conjuntura, fazer um exercício dessa natureza por sobre o contraditório republicanismo dessas relações partidárias e institucionais é algo que precisa se ter muita coragem para operar. E em se tendo, encarar as consequências dessas decisões perante o escrutínio da história. Mais importante ainda, é que este desenho sugere que o fim antecipado do protagonismo eleitoral do PT, açodadamente defendido até por alguns petistas, é apenas a fase preliminar do total esgotamento do conteúdo político original que justificou legendas com dispositivos programáticos muito diferentes terem marchado juntas em prol de um projeto político da centro-esquerda baiana, ainda que incompleto e com muitos ajustes a serem feitos.

Do lugar de onde observo, tudo do que está sendo dito e defendido pelas lideranças políticas que estão escolhendo essa (des)arrumação me parece estar sendo motivada fundamentalmente por perspectivas eleitorais imediatistas cujo resultado mais direto será a destruição de toda a razão de ser de uma concertação política (inicialmente inconsciente, creio) que paulatinamente passou a existir a partir da vitória de João Henrique (PDT)-Marcelo Duarte (PSDB) sobre as forças carlistas em 2004 para prefeitura de Salvador, seguida da eleição de Jaques Wagner (PT)-João Durval (PDT)-Edmundo Pereira (PMDB), nas eleições estaduais dois anos depois.

É todo este contexto histórico - importantíssimo ponto de inflexão na política baiana recente - que está sendo atirado à lata do lixo e de nada vai adiantar estabelecer nenhuma argumentação baseado em critérios poucos confiáveis de pesquisas eleitorais e indicadores de aprovação de governo ou desse ou aquele ator político, para tentar justificar uma solução que não permitirá fácil correção no futuro próximo, uma vez que ao meu ver, trata-se de uma resposta profundamente inadequada ao ataque especulativo sofrido, não apenas pela chapa Wagner-Otto, mas a todo um processo de construção de um projeto político eleitoral exitoso das forças mais progressistas da Bahia que, a rigor, remontam ao corajoso enfrentamento ao carlismo realizado pela Prefeita Lídice da Mata nos anos de 1990.

Com efeito, pelo que se vê nos noticiários nacionais e locais sobre todo esse imbróglio, é de impressionar que os articuladores partidários da hora estão trabalhando de forma muito convicta sobre um cenário onde tem se dado como certo uma vitória de Lula (para alguns até mesmo no 1º turno); que Bolsonaro já está eleitoralmente derrotado; que não há possibilidade de uma candidatura nacional própria do PSD e/ou, o surgimento de uma terceira opção entre Lula e Bolsonaro seja algo totalmente irrelevante para em termos percentuais para definição de um segundo turno nas eleições de outubro.

É claro que tudo isso é perfeitamente possível, mas como todo cenário, essa é tão somente uma realidade imaginada dentre inúmeras outras possibilidades. Uma delas, por exemplo, é chance de que uma candidatura própria nacional do PSD seja, ela mesmo, a tal terceira via que tanto se especula. E, em isto acontecendo, a cautela nos indicaria refletir sobre qual seria o efeito deste cenário alternativo por sobre a aliança PT-PSD e demais partidos da Base na Bahia, no contexto de Otto Alencar encabeçar a chapa majoritária, sem um vice do PT, por exemplo, e ainda tendo o PP de João Leão à frente do governo do Estado?

Um terceiro e mais tenebroso cenário para as eleições nacionais e baianas é que a estabilidade na queda de popularidade e aprovação de Bolsonaro e seu governo, já detectadas em pesquisas recentes, tenha qualquer inflexão positiva ainda neste primeiro semestre. Ora, a mera expectativa de um segundo turno entre Lula e Bolsonaro a mais de sete meses da eleição pode transformar a disputa em um jogo de “cara ou coroa” ou, como dizem no jargão futebolístico, num clássico onde tudo pode acontecer e onde todo resultado é possível.

Com efeito, com mais de 30% nas pesquisas eleitorais, sendo hoje as eleições e havendo um segundo turno seria entre Lula e Bolsonaro e, sendo assim, mesmo para aqueles que já estão arrumando os seus ternos para a posse do terceiro mandato de Lula em 2023, é sempre bom lembrar que a existência de um Bolsonaro presidente está longe de ser um ponto fora da curva por sobre os mapas do conservadorismo histórico e característico da sociedade brasileira que foi estruturada desde sempre pelo racismo-escravismo, mas que vem revelando um caráter ainda mais reacionário e mais violento por todas as classes sociais nos últimos quatro anos, sob as orientações e oportunidades criadas pelo bolsonarismo, de forma jamais vista.

Qual será o efeito eleitoral desse ambiente mais conservador e reacionário, cada dia mais robustecido, tendo um legitimo represente seu articulando discursos de ódio anti-esquerda e anti-petista num possível segundo turno?

Diante disto, parece-nos evidente que os efeitos de um recrudescimento da disputa nas eleições nacionais serão sentidos em tempo real nas eleições baianas de forma muito objetiva à medida que a saída de Rui Costa (PT) do Palácio de Ondina significa a assunção de João Leão (PP) – líder da agremiação mais à direita de todo espectro da base de governo, frise-se - ao total controle de toda a máquina administrativa do Estado, num dificílimo ano eleitoral para as forças progressistas locais e de todo o país. Isto é, será o PP de João Leão, mas também, de Ciro Nogueira (Ministro da Casa Civil de Bolsonaro) e de Arthur Lira (Presidente Bolsonarista da Câmara dos Deputados) – para ficarmos apenas em três de seus “big shots” - que fará as principais escolhas de onde, quando e de que forma os projetos e investimentos públicos irão acontecer em pleno momento das disputas das eleições proporcionais para a Assembleia Legislativa e Câmara de Deputados.

Esse não um detalhe a ser desconsiderado em todo esse processo. Ao contrário, essa “tensão essencial” sempre esteve presente entre partidos e deputados que foram temeristas no passado e bolsonaristas no presente em nível nacional, mas também, não só apoiadores, mas legítimos construtores do projeto político baiano junto com o PT e demais partidos da chamada base do governo durante os últimos 16 anos. A questão de momento, no entanto, é que o “republicanismo” que permitiu essa convivência relativamente pacifica entre interesses tão dispares nunca foi testado num ano eleitoral tão peculiar como agora em 2022, sem o PT ou qualquer outro partido de esquerda de sua Base, estivesse a frente da Gestão em nível estadual ou federal.

Considerando o contexto político atual e guardadas as devidas proporções, a intenção de Rui Costa de dar “a joia da coroa nordestina” ao PP, será construir as mesmas condições eleitorais para Dilma na sangrenta eleição de 2014, mas, com todos os sinais trocados e contrários ao PT e a sua própria Base. Ou seja, imaginar que um alinhamento político-partidário-institucional do Governo da Bahia, com a Casa Civil do Palácio do Planalto e da Chefia da Mesa Diretora Bolsonarista da Câmara dos Deputados – com seus bilhões de emendas parlamentares, por exemplo - não trará fortes efeitos para disputa no 4º maior colégio eleitoral do Brasil e 1º do Nordeste, para Lula, o candidato ou candidata a Governador, Senador e principalmente os deputados federais e estaduais, é, ao meu vez, uma fantasia pueril difícil de ser realizada.

Ademais, mesmo com a popularidade de Lula, o PT nunca ganhou uma eleição nacional no primeiro turno e a partir de 2006, os votos baianos foram se tornando cada vez mais significativos para as vitorias nacionais do PT até 2014 e a ida de Haddad para o segundo turino em 2018 devido ao protagonismo dos governos do PT e de seus aliados, mas tendo sempre o PT à frente da máquina administrativa. Por isso, a questão política e eleitoral mais relevante em todo esse debate são os efeitos objetivos imediatos e de médio prazo de uma possível troca de guardas no Governo da Bahia, num momento tão particular. Sendo assim, diante do complexo cenário político eleitoral nacional ainda em franco processo de construção, a saída de Rui Costa antes da hora, além de ser algo profundamente antagônico ao que Jaques Wagner e o PT fizeram pela sua eleição em 2014, pode se constituir num desastre político e eleitoral de difícil correção. Inclusive para ele próprio, que se levar esse desejo adiante passará a ser um mero cidadão soteropolitano e militante petista a partir de abril e, a partir daí, e como todo político na face da terra, a mercê das contingências da velha conhecida dinâmica das nuvens e das circunstâncias políticas.

* Elias Sampaio é economista | Mestre em Economia |Doutor em Administração | Autor de Dialogando com Celso Furtado (2019) e Política, Economia e Questões Raciais (2017).

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