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Consciência negra e violência política de gênero, por Fabrizia Queiroz*

Consciência negra e violência política de gênero, por Fabrizia Queiroz*

Por Fabrizia Queiroz*

20/11/2021 às 16:32

Atualizado em 20/11/2021 às 16:32

Foto: Divulgação/Arquivo

Fabrizia Queiroz é mestre e doutora em Educação pela UFBA

Neste Dia da Consciência Negra, eu gostaria de refletir um pouco sobre um trágico fato social que atinge todas as mulheres brasileiras, especialmente as mulheres negras e de origem popular. Trata-se da violência política de gênero.

A violência política de gênero se exerce através de todo e qualquer ato que objetiva excluir a mulher do espaço político, impedindo o seu acesso a espaços de poder ou induzindo-a e, até mesmo, forçando-a a tomar decisões contrárias aos seus interesses e à sua vontade livre e esclarecida.

As formas mais comuns de violência de gênero na política são agressões físicas e simbólicas contra mulheres, que passam por ameaças, chantagens, xingamentos, questionamento dos seus valores éticos e de sua capacidade intelectual, desmerecimentos e diminuição da relevância de seu trabalho. Além, obviamente, de violência sexual e assassinatos.

Assim exercida, a violência de gênero na política pode ser compreendida como o conjunto de ações patriarcalistas ainda presentes na sociedade brasileira que direciona ódio e aversão a todas as mulheres, tanto aquelas que são candidatas e eleitas para cargos públicos, quanto aquelas que sequer integram o mundo da política institucional. Evidentemente, esses atos de violência variam em grau e intensidade e tornam-se mais truculentos quando além de mulheres, suas vítimas são também negras, pobres e de origens étnico-raciais excluídas socialmente.

Restam poucas dúvidas de que essa violência de gênero é uma das principais causas da sub-representação das mulheres na política institucional no Brasil. Segundo levantamento da organização internacional União Interparlamentar o Brasil, em termos de participação política das mulheres, está na 140ª posição, de um total de 192 países.

Quando observamos a situação dos munícipios, a situação é ainda mais dilemática e mais de 900 cidades não tiveram sequer uma vereadora eleita nas eleições de 2020. Isso sem mencionar o caso das chamadas “candidatas laranja”, que tornam esses dados ainda mais dramáticos, já que além de não possuírem projetos políticos próprios são instrumentalizadas para atender aos interesses de caciques eleitorais, em muitos casos autoritários e patrimonialistas.

É contra esse quadro de violência política de raça e de gênero que precisamos nos posicionar. Enquanto homens autoritários continuarem destilando violências contra mulheres autônomas e protagonistas de suas próprias histórias não seremos efetivamente uma democracia.

A democracia não pode conviver com a violência e a exclusão. De outro modo, a democracia verdadeira é o espaço de construção de uma sociedade onde não só as mulheres, mas todas as pessoas, tenham direito a uma vida digna e plenamente realizada.

Com a violência política de gênero e de raça todos perdemos um pouco de nossa humanidade, as mulheres, os negros, os indígenas, os quilombolas, as pessoas em situação de rua, os agricultores. Mas, acima de tudo, a principal perda é da democracia.

* Fabrízia Pires de Oliveira Queiroz é mestre e doutora em Educação pela UFBA e, atualmente, ocupa o cargo de Diretora Territorial de Educação (NTE 01 Irecê).

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