Dívida global bate recorde, traz risco de crise e põe crescimento em xeque
Por Folhapress
15/02/2021 às 09:54
Atualizado em 15/02/2021 às 09:54
Foto: Paulo Vítor/Estadão

A pandemia da Covid-19 acelerou em 2020 a tendência global de endividamento de governos e empresas e levou o mundo ao maior volume de dívidas da história.
Como consequência, o crescimento global nos próximos anos pode ser ainda menor do que antes da pandemia, com elevado risco de crises financeiras pelo caminho.
Entre 2011 e 2019, as economias avançadas já apresentavam baixo crescimento, de 1,9% ao ano, em média. Desde os anos 1980, todos os booms de endividamento —e o atual foi extremamente agudo— acabaram levando a crises em várias partes do mundo.
Atualmente perto de US$ 280 trilhões, as dívidas globais atingiram em 2020, em relação ao PIB (Produto Interno Bruto) mundial, mais do que empresas, cidadãos e países deviam ao final da Segunda Guerra —conflito que, entre 1939 e 1945, causou perdas materiais e humanas sem precedentes, mas seguido por fase de forte crescimento.
Segundo o IIF (Institute of International Finance, que reúne 400 bancos em 70 países), a dívida global aumentou mais rápido nos últimos anos e além do que se previa após o início da pandemia.
Sem precedentes na comparação com períodos anteriores, o salto de 2016 até ao fim de 2020 foi superior a US$ 50 trilhões (mais de US$ 15 trilhões só no ano passado). Entre 2012 e 2016, o aumento havia sido de US$ 6 trilhões.
No total, o mundo deve hoje, em média, o equivalente a cerca de 365% de tudo o que produz em um ano —435% do PIB nos países ricos e 250% nos em desenvolvimento.
Para governos de nações emergentes como o Brasil, essa montanha de débitos exigirá, já em 2021, um grande esforço de refinanciamento. Juntas, as 30 maiores nações em desenvolvimento têm cerca de US$ 7 trilhões em débitos estatais vencendo neste ano.
No Brasil, com R$ 5 trilhões de dívida pública federal, R$ 1,4 trilhão (28%) vencem em 2021.
Hoje rolada em prazos cada vez mais curtos, a dívida brasileira pode aumentar se o Banco Central iniciar um processo de alta dos juros, o que dependerá da inflação —pressionada não pelo aumento da atividade, mas pelo valor do dólar e dos preços de commodities agrícolas, cotadas na moeda americana.
Segundo organismos internacionais como o FMI (Fundo Monetário Internacional), o Banco Mundial e o IIF, a dívida global no patamar atual tem potencial para desacelerar o ritmo de crescimento mundial e, à medida que a inadimplência de créditos privados aumentar, obrigar governos a se endividar mais para resgatar os falidos.
“Uma crise silenciosa está ganhando força e pode prejudicar a recuperação nos próximos anos. Embora [esse tipo de crise] nem sempre inclua pânico e corridas, ela impõe custos múltiplos”, afirma Carmen Reinhart, economista-chefe do Banco Mundial.
“A reestruturação e a recapitalização dos bancos para restaurar a solvência podem ser caras para governos e contribuintes, e os novos empréstimos tendem a permanecer deprimidos, reduzindo a atividade.”
Reinhart ressalta que “a crise de crédito também tem efeitos distributivos, porque atinge de forma mais aguda as pequenas e médias empresas e as famílias de baixa renda”.
Extenso trabalho do Banco Mundial em 2019 mostrou que todas as grandes ondas de endividamento no passado terminaram em “crises financeiras”, sobretudo nos emergentes —incluindo a crise da dívida dos países latino-americanos nos anos 1980; a asiática, em meados dos anos 1990; e o estouro da “bolha” dos créditos “subprime” nos Estados Unidos, no final dos anos 2000.
O Banco Mundial já considerava que o mundo se encaminhava para algo parecido antes mesmo da disparada do endividamento com a Covid-19.
