Não é crível que Rui planeje derrotar Wagner, por Raul Monteiro*
Por Redação
10/12/2020 às 08:13
Atualizado em 10/12/2020 às 08:29
Foto: Reprodução Instagram

Depois da última 'evolução' na articulação política, o governador Rui Costa (PT) terá que dar uma demonstração cristalina e inequívoca de que, por algum motivo que o circuito público desconhece e talvez não precise conhecer nunca, não bolou nenhum plano para derrotar o senador Jaques Wagner dois anos antes de a campanha à sucessão estadual começar. Pois é esta a leitura mais corriqueira que se faz no ambiente governista da sua decisão de nomear, surpreendendo o próprio Wagner, além de toda a torcida do Bahia e do Vitória, o ex-deputado Jonival Lucas para a secretaria de Relações Institucionais, na última segunda-feira.
A expectativa, também corriqueira entre petistas, de que Lucas cumprirá papel decorativo, deixando as decisões mais importantes para Elisa Pelegrini, ex-secretária do governador que assumiu a chefia de Gabinete na Serin, apenas reforça a especulação, que ganha cada vez mais substância e detalhes, de que o governador fez a opção pelo ex-deputado apenas para se livrar de pressões crescentes da parte do senador para que ocupasse a pasta vaga há seis meses com alguém com estatura para promover, de fato, a articulação política do governo, atividade para a qual muitos chegavam a mencionar o nome do ex-deputado Luiz Caetano como preferido do ex-governador.
De fato, se, como se diz dentro e fora do governo, nos arredores da Assembleia, nas ruas, no entorno do metrô e em todos os cantos, política não é o negócio de Rui, o mínimo que ele poderia ter feito, depois de esvaziado a Serin por anos e, por último, em plena campanha municipal, a deixado descoberta desde junho, era escolher alguém com estofo para assumir os trabalhos e, obviamente, começar a pavimentar o caminho de Wagner de volta ao governo, aproveitando, inclusive, o fato de o próprio senador ter ido a público declarar abertamente que é candidato à sucessão estadual. Seria um caminho, além de óbvio, lógico, natural.
No entanto, a julgar que todos os políticos do governo estejam certos, pois foi exatamente o contrário o que o governador fez. A opção por alguém desacreditado e antipatizado pela base ocorre no meio de uma disputa pela sucessão à presidência da Assembleia com um aliado, o PP, que se rebela e cria um clima de instabilidade na relação entre os dois Poderes, gerando incertezas sobre a vitória do candidato do governador, Adolfo Menezes (PSD), e de um passivo até hoje não sanado com os partidos que, acreditando em Rui e, em alguns casos, se deixando guiar por ele, se lançaram na disputa à sucessão municipal de Salvador.
Se todos sabem da relevância que o futuro presidente da Assembleia terá na próxima campanha estadual e na agenda destes próximos dois anos do governo, podendo tanto facilitar quanto dificultar a vida do governador e de seu eventual candidato à sucessão, não é sequer razoável duvidar de que o governador não saiba onde está se metendo. Do que, a partir dos últimos acontecimentos, se começa a duvidar, no entanto, é do tipo de compromisso que Rui tem hoje com alguém que o escolheu e não poupou no investimento para transformá-lo, primeiro em candidato, e depois em governador que logrou se reeleger na Bahia.
* Artigo do editor Raul Monteiro publicado na edição de hoje da Tribuna.
